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A Origem de Tudo

Show Rural Coopavel. A Origem de Tudo. Brasil, 2023

O anúncio brasileiro A Origem de Tudo, para a exposição Show Rural Coopavel, ilustra à saciedade um provérbio elementar: “Tudo vem da terra e a ela retorna” [eventualmente, intragável].

Aconselho o artigo Atribulações das Almas: https://margens.blog/2023/01/15/atribulacoes-das-almas-em-transito/

Anunciante: Show Rural Coopavel. Título: A Origem de Tudo. Agência: Fosbury. Brasil, janeiro 2023

Cirurgia à memória coletiva

Fotografia de Valter Vinagre. Fonte: https://www.timeout.pt/lisboa/pt/arte/despedido

Interessa-me a questão da destruição da arte. É uma modalidade de erosão da memória coletiva mais frequente do que estamos, espontaneamente, inclinados a pensar. A arte não detém, contudo, o exclusivo. Longe disso. Existem outros mundos alvo de apagamento da memória coletiva, alguns relativamente próximos da arte. É o caso de espaços de diversão e lazer tais como a Feira Popular de Lisboa ou o Palácio de Cristal do Porto devorados pela reconversão urbana. Em Braga, sucedeu algo semelhante à Bracalândia.

A propósito da exposição e do livro de fotografias, ambos com a mesma designação (Despedido), de Valter Vinagre (Narrativa, Alvalade), o jornal Público / ípsilon de hoje (18 de Dezembro de 2022, 7:46), dedica um artigo de fundo, da autoria de Sérgio B. Gomes, às “feridas” e às “cicatrizes” da Feira Popular de Lisboa, com o título “Notícias de um fantasma: Feira Popular de Lisboa”. Ousando extrair dois parágrafos, recomendo a leitura.

Nas sete fotografias de destruição da feira escolhidas por Vinagre — as mesmas, tanto para o livro (edição da Pierrot Le Fou, com ensaio de Emília Tavares), como para a exposição — só se vislumbram pormenores em segundos planos que identificam Lisboa. Este “fotografar de dentro para dentro” foi uma opção deliberada na tentativa de provocar “mais curiosidade” e de alargar o campo de discussão. “Ao fechar estas imagens, posso falar mais amplamente sobre destruição de memória colectiva, porque não as vemos apenas como fotografias de entulho da antiga Feira Popular, mas de qualquer processo de destruição de memória colectiva. Claro que elas pertencem a uma geografia, neste caso lisboeta, mas eu quero falar de um problema que é mundial, sobretudo das grandes cidades.

Se se perguntar hoje porque é que a Feira Popular de Lisboa acabou (ou foi acabando, consoante quem perguntar), a resposta pode ser tudo menos evidente ou simples. Um pouco como se se perguntar no Porto porque é que o antigo Palácio de Cristal foi destruído. Aqui, a resposta pode ser: porque a cidade não tinha um espaço para organizar o Campeonato Mundial e Europeu de Hóquei em Patins Masculino de 1952. Mas é sempre mais complexo do que um facto, um soluço, uma dificuldade, a falta de um campo de patinagem, um presidente, um vereador. E não é por acaso que muitos, dentro e fora do Porto, se referem ao actual Super Bock Arena — Pavilhão Rosa Mota como ​“Palácio de Cristal”. Será um sinal de que as cidades são as pessoas, o usufruto que delas fazem, carregado com os seus imaginários, os seus quotidianos? Que cidade é Lisboa agora? É de ruínas que ainda falamos? “É. Quando olho para a cidade hoje, sobretudo a cidade que foi despejada, vejo-a cheia de cores, mas o que está à minha frente parece um filme — o que nos é dado a ver, porque já só quase vemos a cidade de fora —, é como se fosse um cenário. Os que viveram a cidade antes não conseguem abstrair-se do que existia. Por muito que gostemos de ver os bairros de Lisboa sem a decrepitude ou com condições de habitabilidade infra-humanas, aquilo que aconteceu é que deixou de ser isto para ser um artifício, um lugar a que não se tem acesso — ou melhor, só se entra nele se for para trabalhar, não para viver, porque não há poder económico para viver na cidade.

(Sérgio B. Nunes. Público / ýpsilon. “Notícias de um fantasma: Feira Popular de Lisboa”. Jornal Público, 18 de Dezembro de 2022, 7:46)

Pandemónio. Vulnerabilidade auditiva

Volkswagen. Let’s Go. 2022

Segundo Georg Simmel, a relação com o mundo e com os outros tende a mudar consoante os sentidos mobilizados.

“Do ponto de vista sociológico, a orelha distingue-se do olho também pela ausência desta reciprocidade que institui o olhar face a face. Por natureza, o olho, não consegue abranger sem receber ao mesmo tempo, enquanto que a orelha é o órgão egoísta por natureza que recebe e não dá; a sua forma exterior parece quase um símbolo disso, porque ela dá a impressão de um apêndice passivo da figura humana, o menos móvel de todos os órgãos da cabeça. Paga este egoísmo com a sua incapacidade de se desviar ou fechar, à semelhança do olho; como pode apenas recolher está condenada a receber tudo o que se passa ao seu alcance” (Simmel, Georg, 1ª ed. 1908, Sociologie, Paris, Presses Universitaires de France, 1999, pp. 634-635).

O ouvido é, portanto, mais vulnerável do que o olho. Ao mesmo tempo, mais exposto à intrusão e mais perturbador só o olfato, mas num espaço mais restrito, circunscrito à “esfera da intimidade”. A maior vulnerabilidade, e correspondente intrusão, do ouvido face ao olho justifica que, ao nível do audiovisual, se recorra mais frequentemente ao som do que à imagem para significar o mal-estar e a agressão ambiental. É o caso do anúncio sul-africano Let’s Go, da Volkswagen, em que a protagonista é assediada por todo o tipo de ruídos.

Marca: Volkswagen. Título: Let’s Go. Agência: Ogilvy (Cape Town). Direção: Fausto Becatti. República da África do Sul, junho 2022.

Expo diabólica

Expo diabólica. Cabeceiras de Basto. Até setembro. Fotografia: Sara.

A seguir ao Museu Alberto Sampaio, a Expo diabólica desloca-se para a Casa do Tempo, em Cabeceiras de Basto.

“A Casa do Tempo de Cabeceiras de Basto acolhe entre os meses de maio e setembro a ‘Expodiabólica’, curiosa e admirável exposição de diabos que o investigador vimaranense Fernando Capela Miguel idealizou em desenho e que veio a materializar em belíssimas peças de cerâmica concretizadas por renomados oleiros de Barcelos. / O imaginário popular do Minho é retratado nesta ‘Expodiabólica’ que dá ‘voz’ à cultura popular e a crenças antigas envoltas em misticismo” (Presidente da Câmara de Cabeceiras de Basto).

Expo Diabólica – Uma Expressão da Cultura Popular no Museu de Alberto Sampaio. Uma coleção particular, pertença de Fernando Capela Miguel.

Semear erros

“A última coisa que descobrimos ao terminar uma obra é saber aquela que é preciso colocar primeiro” (Blaise Pascal).

“O conhecimento científico é sempre a reforma de uma ilusão” (Gaston Bachelard).

Escrevo sempre textos em construção, papers in progress. Mais ou menos a meio de uma pesquisa. Ousadia? imprudência? Existem motivos que o justificam, alguns por princípio, outros práticos.

Decidir partilhar uma obra apenas quando esteja absolutamente acabada representa candidatar-se a nunca a publicar. A perfeição não está ao nosso alcance. O conhecimento é sempre problemático, provisório e falível. Entre a primeira gota e a almejada cristalização definitiva estende-se uma eternidade. Um texto redondo como um ovo, sem janelas nem trancas, é uma ilusão, pior, uma presunção. Em suma, estamos, de facto, condenados a publicar textos em construção.

Como o sugerem Blaise Pascal e Gaston Bachelard, a ciência apresenta-se não como uma certificação da verdade mas como uma retificação do erro. No início não está a verdade mas o erro. No fim, volta a não estar a verdade mas, na melhor das hipóteses, um erro menor. Errar faz, neste sentido, parte da prática científica. O diagnóstico de um erro já é um mérito, mais, errar pode ser um contributo. Uma ideia errada pode revelar-se um passo rumo ao conhecimento. O exemplo avançado por Gaston Bachelard é desconcertante e convincente: do modelo proposto por Niels Bohr, assumido como decisivo para a teoria do átomo, não restou praticamente nada. Formular uma proposta que suscita tamanho apetite que nem sequer os ossos sobram pode corresponder ao sonho de um cientista. O erro e a dúvida são os companheiros de estrada do investigador. O cientista conjetura, não prega!

Estes apontamentos não configuram um dogma, apenas uma perspetiva, por sinal, bastante partilhada. Esta consciência, de tão geral e abstrata, com ares de maneirismo epistemológico, reveste-se de pouca utilidade se não se consubstanciar numa disposição, num modo prático, incorporado, quase espontâneo, de viver a investigação. Uma arte de ser e de estar, de abraçar, com humildade, a produção e a comunicação do conhecimento.

Mal concluo um texto, logo o começo a rever. No artigo dedicado aos Farrangalheiros, colocado há escassos quatro dias, já introduzi uma mão cheia de alterações. Coisas ínfimas, quase-nadas: melhorar uma formulação, complementar uma informação, limar uma imprudência desnecessária ou corrigir um lapso assinalado por um comentário mais atento com que me deparei quando, já redigido este texto, demandava a origem do vídeo anexo. Por enquanto, as alterações provêm, essencialmente, da mera autocrítica. Mas mantenho-me atento e aberto a reações alheias, a contributos suscetíveis de o melhorar, incluindo quase-tudos capazes de o subverter. Publicado, entregue à sua sorte, um texto passa a ser menos do autor e mais dos leitores, quase um estranho. A investigação esboça os primeiros passos e no princípio não mora o verbo mas a ignorância. Comparado com alguns colegas, sou um aprendiz na matéria.

Quando estudo uma coletividade, pressuponho que os seus membros conhecem a realidade, as respetivas experiências e crenças, com uma dimensão e profundidade que nunca lograrei. Por isso os procuro e escuto com a devida atenção. Dão mais do que dou, dívida que nunca resgatarei. Investigar, para mim, é antes de mais interagir com as pessoas, em cada esquina a cada momento. Se o maior desafio da investigação é a descoberta, a principal recompensa repousa nos laços criados. Longe de partir em cruzada contra o senso comum, caminho com as pessoas, com a sua sabedoria. Promovo a proximidade em vez da distanciação profilática. Não aspiro, sobretudo, a muito mais informação do que aquela que, pela sua memória e pela sua experiência, as pessoas contempladas já possuem.

Qual é, então, a minha utilidade? O meu contributo só pode ser diferente, porventura resultante de quase meio século de treino a interpretar o comportamento social, nomeadamente o imaginário, um exercício constante desde que ingressei, em 1976, no curso de sociologia na Sorbonne e, especialmente, em 1978, no seminário de sociologia da literatura na École de Hautes Études en Sciences Sociales. Esse é o meu património e a minha ferramenta, o meu olhar, que me esforço por usar com criatividade e imaginação, se possível fundamentadas. Acrescento à realidade, sem garantias de justeza, camadas de sentido, que, por vezes, se lhe colam à pele. Só pode ser esse o retorno, a contra dádiva. Conseguido ou não, isso é outra questão.

Qual é o interesse em partilhar precocemente textos em construção, exploratórios e provisórios? Sem escudos de validação nem rituais de verdade? O risco de errar não é contra-argumento. Está sempre presente, em qualquer fase, embora, naturalmente, não se saiba. O que se ganha com a imprudência? Existem duas potencialidades que são outras tantas virtudes. A primeira consiste, precisamente, em detetar e corrigir, a tempo, os erros graças à crítica alheia. O diálogo, o debate e a avaliação, despoletados pela publicação, concorrem para esse efeito. A segunda potencialidade convoca a inspiração: a leitura de um texto pode suscitar e alavancar novas perspetivas, novos problemas, novas hipóteses. Nesta ótica, uma investigação não é só coletiva por ser conduzida por uma equipa, mas também porque é recebida e apreciada por um público, apropriada por outrem, por um colégio mais ou menos invisível. Para quem, como Paul K. Feyerabend, acredita que importa mobilizar tudo o que quer que seja suscetível de propiciar conhecimento, estas possibilidades de retificação e inspiração não devem ser desperdiçadas. Enclausurar significa esterilizar e mumificar. A fecundidade reside na interação.

Recorrendo ao linguajar tecnocrático, subsiste, porém, uma ameaça: a eventualidade de enganar os leitores com falsidades insuspeitas. Risco que se agrava quando o escritor, pelo seu estatuto, desfruta de uma autoridade e de um crédito suplementares. Por mais voltas que dê, não consigo contornar esta questão. A única forma cabal de evitar o contágio do erro seria, logicamente, remeter-se ao silêncio ou escrever para não dizer nada. Acresce que ninguém consegue censurar erros que desconhece. Na falta de melhor, recorro a um arremedo: evito o discurso categórico e académico, a retórica da verdade. À arquitetura do tratado, prefiro a morfologia do conto. Opto por um estilo coloquial e poético, como quem conta uma estória à moda do Camilo Castelo Branco: uma aparente ficção com personagens e acontecimentos reais, na expetativa de que a razão conceda, à partida, menos fé ao literário, ao ligeiro e ao irreverente. Mesmo assim, a probabilidade de indução em erro permanece incomensurável. Deseja-se, neste beco sem saída, que o leitor desconfie das certezas, das respostas fechadas, e se contente com dúvidas, com propostas abertas.

Dou a ler à família os textos antes de os publicar. No caso vertente, a pergunta não se fez esperar: “Tiveste alguma reação?”. Nenhuma, ressalvando a menção num comentário a um lapso: escrevi, baralhado pela velocidade das letras, inverneiras em vez de brandas. Trata-se simplesmente de uma fatalidade do ofício que me preocupa, que me acompanha e perturba como um grilo falante. Escrever ajuda a pensar. O desconforto é geral, tanto vale para o livro que estou a escrever sobre as imagens de Cristo como para a coletânea, em revisão, sobre a morte na arte, o capítulo, no prelo, sobre as bugiadas de S. João do Sobrado ou o artigo, recente, sobre os Farrangalheiros de Castro Laboreiro. Confirma-o a advertência que culmina o capítulo dedicado às Bugiadas:

“O estudo do imaginário requer imaginação. Sem imaginar pouco se descobre e nada se inventa. Interpretar costuma ser um jogo incerto, estimulante na prática e ingrato nos resultados. Os avanços e os recuos resultam de um compromisso entre a dedução a partir daquilo que se sabe e a indução a partir daquilo que se aprende. Quando surge uma intuição, convém acolhê-la, equacioná-la e, eventualmente, explorá-la. Nada se ganha em autocensurar conjeturas em que se apostou, por mais elevado que seja o risco de errar. Infirmadas, corrigidas ou confirmadas, as ideias, mesmo falsas, possuem a virtualidade de abrir caminho ao conhecimento. Contra o desperdício intelectual, sempre que uma intuição nos desarma, avessa a uma promessa de validação, o mais avisado será enveredar pela generosidade e a imprudência de a partilhar. Uma proposta frágil mas honesta, motivada pela vontade de saber, desde que devidamente exposta à crítica e sem aparato de verdade, não incorre em pecado capital. Talvez venha a beneficiar do interesse e da crítica de alguém que lhe proporcione melhor sorte ou a cubra de ridículo. Assim introduzida, passamos a apresentar uma camada suplementar de leitura semiótica dos Serviços da Tarde, dotada de alguma coerência e sedução, conscientes de que carece sustentação mas não proscrição.”

Esta corrente de palavras aponta para uma postura na investigação e na comunicação do conhecimento: a aposta num jogo ponderado entre humildade quanto baste e ousadia tanta quanto possível. De preferência, com asas que voam em vez de asas que pesam: a andorinha no lugar da galinha.

Traje Castrejo. Fonte: PORTUGAL de LES A LES. 7 objetos com história entre Castro Laboreiro e Melgaço. Por Jorge Montez (texto) e Miguel Montez (imagem). Consultado no dia 08 de maio de 2022.

Blake & Blake. A fatalidade do nome

Melancolia agastada. Próximo do termo da atividade como professor universitário.
Melancolia esperançada. Há quarenta anos, no início da atividade como professor universitário. Fotógrafo: Álvaro Domingues.

Adotando a linguagem da sociometria de Jacob Levy Moreno, és uma “estrela” ou um “periférico”? Cativas ou repeles? Repara na atenção e no tempo que te dedicam.

Monet e Manet; Perry Blake e James Blake; Claude Monet e Claude Manet. Os primeiros impressionistas, os segundos eletrónicos.  A diferença que pode fazer uma simples letra. E um nome. Um nome presta-se a confusão). Baralha, mistifica e desorienta. Nos meus passeios pelo YouTube a partir da entrada Blake, troquei várias vezes o Perry pelo James., surpreendendo-me: “como é estranho, a voz e o estilo do Perry Blake mudaram expressivamente”. Até dar com o engano. A semelhança dos nomes de Monet e Manet provocou um desenlace inesperado, desmedido e trágico, memorável. O excerto “Mulher com vestido verde” do docudrama The Impressionists da BBC revela a série de equívocos desencadeados desde a  desilusão de Manet com a receção do quadro Olympia atá ao início da sua amizade com Monet, passando pelo duelo com o crítico de arte Dorante, um dos últimos e mais célebres duelos da história de França (ver vídeo 1. Existe uma versão, com menos resolução, com legendas em português: https://www.youtube.com/watch?v=yeWmTiN4C3o; minutos 23:55 a 35:20). Luta-se e dá-se a vida por um nome. É escudo, estandarte e lança. Identitário e distintivo, o nome interpõe-se como uma marca e um sinal, um projeto, um caldo de expetativas e um mundo de possibilidades.

1. A mulher num vestido verde. Excerto do docudrama The Impressionists. BBC. 2006.

Blake não é Blake. A nacionalidade, a idade, a carreira, a popularidade e muitos outros traços pessoais separam Perry e James. Contudo, o que escrevi sobre a a música de Perry no artigo Melancolia Aveludada transparece como um letreiro que assenta a ambos: “Uma voz e uma orquestração singulares, suaves, compassadas, melódicas e melancólicas”. Convoco duas canções de James Blake: The Wilhelm Scream e I Never Learnt to Share. Recordam o Antony, dos Antony and the Johnsons.

2. James Blake. The Wilhelm Scream. James Blake. 2011.
3. James Blake. I Never Learnt To Share. James Blake. 2011. Ao vivo em Heaven, Londres.

O egomundo e a pavimentação da vida

Figura 1. Lugar da Serra. Prado. Melgaço. Fotografia de Álvaro Domingues.

Este artigo é estúpido. Levanta problemas que não existem.

Acreditei inventar uma nova palavra, por sinal, óbvia: egomundo. Mas em Coimbra, uma empresa tem esse nome. Egomundo é o antípoda do mundo colectivo. Remete para a experiência, a memória e o sentido da vida de cada pessoa. É um cúmulo de subjectividade. Uma perspectiva subjectiva de um ponto de vista subjectivo. Nada de consensos, tribalismos ou projectos sociais. Sem retóricas religiosas, científicas e técnicas, o mundo gira em torno do egocentro.

Tenho-me deslocado com alguma frequência à minha terra. No limiar do tempo e do espaço, deixo os olhos e a memória pastar. Demando os sítios onde costumava jogar ao espeto e ao pião. Alcatrão, cimento ou empedrado. Em centenas de metros em redor, é materialmente impossível jogar ao espeto ou ao pião. Terra, só nos campos. Não sendo terra batida não dá para jogar. O cimento e o alcatrão conquistaram tudo. Mesmo nas povoações, a estrada não tem valetas. Não cresce uma única planta. Na Serra, local de convívio público da freguesia, a maré negra e cinza cobriu tudo, até trepou os degraus do cruzeiro. Estar sentado no passeio proporciona o conforto de uma lagartixa numa eira de basalto. O ar aquece de baixo para cima. Assim o impõem o trânsito e a velocidade. Não admira que as estradas se alarguem até ao último milímetro. Os carros também se alongam: um Volkswagen carocha media 1.54 metros de largura; o Golf mede 1.799. Dois Golf que se cruzam, carecem de mais 1.03 metros de estrada. Na minha freguesia, tudo quanto é estrada, caminho ou largo foi asfaltado ou cimentado. Na minha infância, apenas a estrada nacional era asfaltada.

Figura 2. Terreiro. Prado. Melgaço. Fotografia de Álvaro Domingues. Público, 28/07/2019: “Terreiro”.

O Terreiro era o “campo de futebol” mais à mão. Ficava no caminho da escola e da catequese. Térreo, era um regalo para o jogo da bola. O cruzeiro delimitava uma baliza e uma pedra a par de um pilar das escadas da Igreja, outra. Primeiro, empedraram-no, para mal dos nossos joelhos e cotovelos. Acabaram por o asfaltar e cimentar nas bordas. Porquê tamanha intemperança pavimentar? À velocidade e à circulação, temos que acrescentar um outro cavaleiro do asfalto: o estacionamento. A terceira aresta do triângulo rodoviário: velocidade, circulação e estacionamento. Asfaltou-se todo o terreiro para facilitar o estacionamento, o repouso do motor. O asfalto e o cimento são materiais invasivos. Alastram e grassam. Acontece-lhes engordar. Na minha casa de infância, para entrar na loja convinha subir um degrau; agora, convém descer.

O alcatrão tem muitas virtudes. Quando o sol queimava, fazia esferas com o alcatrão derretido. Não davam, porém, para “jogar aos berlindes”. O pavimento da estrada era perfeito para andar de patins. Com pouca gravilha, areia e cascalho, ficava polido, quase sem atrito. Os dois quilómetros sempre a descer até às termas do Peso eram uma tentação. Dei quedas dignas do cinema mudo.

A minha freguesia, para além de terra, também tem água. Muita água, a condizer com o nome: Prado. Em criança, via-se e ouvia-se cantar a água por todo lado. Agora, nem se vê, nem se ouve; adivinha-se. Dava jeito uma vara de detecção de água subterrânea. Tudo quanto é rego ou poço foi encanado ou tapado, sobretudo, com cimento. A minha casa de infância era contornada por cursos de água em três frentes. A cerca de 70 metros, a levada proveniente do ribeiro dividia-se em três regos: um prosseguia para o lugar da Corredoura; outro passava por debaixo do caminho e, após uma pequena cascata, por baixo da estrada rumo à Serra; o terceiro mergulhava uns quatro metros num “tubo” de granito e reemergia do outro lado da estrada a uma altura de quatro metros noutro “tubo” de granito rumo à Quinta dos Governadores. Tudo foi encanado e tapado, salvo uma dezena de metros destinados a uma espécie de arremedo de lavadouro público. Já não se enxergam nem girinos cabeçudos, nem “alfaiates”. Nestes cursos de água, refresquei os pés no Verão, pilotei barcos, uns de casca de pinheiro, outros de madeira, com mastros de cana e velas de plástico. Fitava, quase hipnotizado, a água corrente à cata de uma truta. Tudo tapado! Até a “arquitectura granítica dos vasos comunicantes” foi cimentada. Para quê? Para alargar a curva. A uns sete metros da entrada da casa, do outro lado da estrada, na base de um muro alto de saibro, uma mina de água, cuja entrada escondia cristais de quartzo ferruginoso. Ali, colocávamos a refrescar as garrafas de bebidas. Munidos com uma lanterna, arriscávamos explorar a mina. Às vezes, éramos obrigados a parar: o tecto da mina tinha desabado. Nestas circunstâncias, subia ao campo que se situava por cima da mina. Lá estava um buraco enorme provocado por um aluimento de terras. Como medida segurança, a entrada da mina foi cimentada.

Figura 3. Casa de infância. Serra. Prado. Melgaço. Fotografia de Gonçalo Dias. Público 28/07/2019: Micro-retrato de um país “corrente de ar” pela vida de duas freguesias.

A terra e a água, esta terra e esta água, fazem parte da nossa memória e identidade. Por que motivo se enterra a água e tapa a terra? Não é, decerto, para evitar acidentes, a exemplo do sacristão que, durante o compasso, caiu com a cruz num curso de água que atravessava o caminho ou da mulher que se afogou num rego. É verdade que se ganham centímetros nas estradas e, porventura, eficácia na distribuição da água.

A expansão do asfalto aumentou a velocidade e reforçou a segurança dos automóveis. E a insegurança dos peões. Sem passeios, existem bermas onde ninguém ousa andar. Na curva da Serra, uma motorizada partiu uma perna a uma pessoa e um idoso foi atropelado mortalmente por um automóvel. Ambos caminhavam pela berma. Um motão entrou pela loja dentro!

Acessibilidade, velocidade, expansão, segurança e eficácia são trunfos do baralho da modernidade materialista (o presente inclinado para o futuro). Mas há mais. Desviando o olhar do espaço público para o espaço privado, constata-se que, junto às moradias, quase todo o solo está pavimentado. Com pedra, mármore, mosaicos, cimento e outros pavimentos. Nada de lama, poças, erva ou bicharada. Tudo asseado e de fácil manutenção. Alguém imagina quanto custa cuidar de um relvado ou de um canteiro de flores? Dar vida à vida dá trabalho. Acrescentam-se, assim, mais duas vantagens a favor da pavimentação: a higiene e a facilidade de manutenção.

A pavimentação da terra e a canalização da água conheceram um franco crescimento nas últimas décadas nos espaços públicos e privados. Autoestradas, caminhos, praças, recintos, nada escapou. Há quem diga que é uma das conquistas de Abril! Seria interessante ter acesso a fotografias de satélite com a evolução da pavimentação em Portugal.

Figura 4. Árvores crescem na pedra. Moledo do Minho. Fotografia de Fernando Gonçalves.

Pavimenta-se quase tudo. Cobre-se a terra, a pedra e a água. Por enquanto, não se colocam tectos no céu, apenas fios de electricidade onde se enredam os papagaios de papel (ver figura 2). Esta pavimentação do mundo impede a vida, apesar da ilusão do crescimento de árvores na pedra, no cimento ou do alcatrão (ver figura 4).

Esta é a nossa ecologia. Embalsamadores da natureza envolvente, que autoridade nos resta para protestar contra deflorestação da Amazónia, o aquecimento global ou a plastificação do oceano Pacífico?

A pretexto do Terreiro, em Prado, Álvaro Domingues escreve:

“Contrariamente à lentidão do tempo longo no passado pré-moderno, os localismos só sobrevivem na velocidade rápida exigida pela sua franca exposição a tudo o que vindo de onde vier, mexe e circula” (Terreiro, Público, 28 de Julho de 2019: https://www.publico.pt/2019/07/28/opiniao/ensaio/terreiro-1881329).

Prado está inclinado para a frente. É um cata-vento de oportunidades que cavalga na crista dos limites.

E o meu egomundo, cúmulo de subjectividade, como anda? Introspectivo, nostálgico e birrento. Como o Angelus Novus (1920), de Paul Klee, avança às arrecuas com os olhos postos nas ruínas. Anda com vontade de não chegar. “Y al volver la vista atrás / se ve la senda que nunca / se há de volver a pisar (…) Todo passa y todo queda, pero lo nuestro es passar, passar haciendo caminos, / caminos sobre la mar” (Antonio Machado, Proverbios y cantares, XXIX / XLIV, Campos de Castilla, 1912).

O anúncio Release Me, da Saab, também é um poema: de vitalidade e liberdade. Podia tê-lo colocado no início do artigo.

Anunciante: Saab. Título: Release Me. Agência: Lowe Brindfors, Sweden. Suécia, Junho 2007.

Antonio Machado. Proverbios y cantares.
XXIX
Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino,
sino estelas en la mar.
XLIV
Todo pasa y todo queda,
pero lo nuestro es pasar,
pasar haciendo caminos,
caminos sobre la mar

Olhos nos olhos

Edouard Manet. Dejeuner sur l’herbe. 1863.
Edouard Manet. Olympia. 1863

Recusado no Salão Oficial, Edouard Manet expôs, em 1863, o quadro Déjeuner sur l’herbe no Salão dos Rejeitados (Refusés). O quadro provocou escândalo, pela nudez de uma provável prostituta, entre dois homens vestidos, mas o maior motivo de indignação reside no facto de a mulher olhar descaradamente para o público. No mesmo ano, Manet pinta o quadro Olympia com uma prostituta nua que, mais uma vez, nos olha de frente. Volvidos 153 anos, no anúncio The Pure Experience, da cerveja Michelob, uma bela mulher fita-nos com um olhar sedutor, senão provocante. Apenas um reparo: aproxima-se o Super Bowl (3 de Fevereiro); a colheita de anúncios costuma ser a mais cara e a mais cuidada do ano. O anúncio da Michelob vai passar durante o Super Bowl.

Marca: Michelob. Título: The Pure Experience. Agência: FCB (Chicago). Estados Unidos. Janeiro 2019.

Filmes do Homem / A cumplicidade dos objetos

Filmes do Homem. Identidade, Memória, Fronteira.. 2018. Catálogo.

Filmes do Homem. Identidade, Memória, Fronteira.. 2018. Catálogo.

De 30 de Julho a 5 de Agosto, ocorre, em Melgaço, o Festival Filmes do Homem, organizado pela Câmara Municipal e pela associação Ao Norte. “Um evento de referência no território nacional e internacional”. Além do cinema, o Festival contempla outras actividades, tais como a fotografia. Articula-se, entre outras entidades, com o Museu do Cinema, o Espaço Memória e Fronteira, a Torre da Menagem, a Casa da Cultura, a Porta de Lamas e o Museu de Castro Laboreiro.

Melgaço, um dos municípios mais envelhecidos do País, insiste em ser dinâmico e ambicioso. Colaboro com os Filmes do Homem desde a origem. Nos últimos anos, foi incluída uma exposição de fotografia. O Álvaro Domingues  e eu próprio temos escrito os textos para os catálogos. No dia 30 de Julho, pelas 19:30, na Casa da Cultura, vão ser lançadas publicações com as fotografias e os textos correspondentes a três exposições.

Para aceder ao pdf do Catálogo dos Filmes do Homem, de 2018, carregar na imagem acima ou no seguinte endereço: file:///C:/Users/Utilizador/Downloads/Cat%C3%A1logo%20Filmes%20do%20Homem.pdf

Para aceder ao pdf do texto “A cumplicidade dos objectos”, carregar na imagem abaixo (uma mulher a preparar a terra) ou no seguinte endereço: Albertino Gonçalves. A cumplicidade dos objectos. Exposição Pedra e Pele, de João Gigante. Filmes do Homem 2018.

A amanhar a terra. Exposição a Pedra e a Pele. João Gigante. Filmes do Homem, 2018.

A amanhar a terra. Exposição A Pedra e a Pele. João Gigante. Filmes do Homem, 2018.

Públicos da Arte

Art Gallery2

O anúncio Art Gallery, da Sportsbet Multi  Builder, é uma paródia da arte, designadamente da recepção e da avaliação das obras de arte pelos públicos. Trata-se de um tema recorrente. Recordo Mr. Bean às voltas com o quadro Whistler’s mother, o ministro russo que, após visitar o Ocidente, regressa encantado com a arte de fazer arte com lixo (Rafael Pividal, Pays Sages, 1977). Humor à parte, destaque-se, também, a investigação de Pierre Bourdieu sobre os públicos da arte: L’Amour de l’Art (1966) e Un Art Moyen (1965).

Marca: Sporsbet. Título: Art Gallery.  Agência: Sportsbet Creative Team supported by DPR&Co. Direcção: Dave Wood. Austrália, Julho 2016.