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O Pão e o Céu

Gosto do trabalho do Bruno Aveillan, mesmo quando ele deixa a câmara aparentemente pasmada. Sobre este vídeo, escreve Marcos Lutyens: “Contrasting with the drawings of Robert Longo’s Men in the Cities series of falling yuppies from the late 80’s, a kind of ode to post-modernist auto-destruction, Aveillan’s film embraces a different world, one that explores our relationship between terrestrial nourishment and the sublime world above. There is a somewhat Surrealist feeling to the suspended figures in this film more akin to Francesca Woodman’s photograph On Being an Angel or Marc Chagall’s Der Spaziegang, both of which have an ethereal quality shared in Aveillan’s photography as much as in his film work. And yet there is more than a surrealist dimension present as Aveillan allows us to savour the moment of parabolic suspension far more elegantly than in Philippe Halsman’s manic image of Dali suspended in mid air with a cat and a frozen splash of water. The natural setting of the film reflects a recurring motif running through Western culture: that of wheat and its relationship to the sky. There is a continuous quest or expectation for nourishment at the intersection of the terrestrial plane and the spiritual one above. “ (http://www.facebook.com/video/video.php?v=10150274061999108).

Bruno Aveillan, W.H.E.A.T., 2008.

Bruno Aveillan, W.H.E.A.T., 2008.

 

O Burro e a Harpa

A figura do burro que toca harpa ou lira atravessa os tempos e as fronteiras. O burro harpista aparece já, acompanhado por um touro trompetista, numa gravura com mais de 3000 anos encontrada em Samaria, no Próximo Oriente (ver figura 1).

Fig 1. Pedra gravada. Samaria. Museu do Louvre. Com mais de 3000 anos.

No início da era cristã, Fedro (14 AC- 50 DC.) escreve a seguinte fábula: uma rainha que não consegue ter filhos implora ajuda aos deuses. Acaba por dar à luz um burro. Criado e educado como um príncipe, Asinarius, assim o batizaram, adora a música e aprende a tocar lira. Um dia vê a sua imagem refletida num rio e, ao contrário de Narciso, horroriza-se. Foge para o fim do mundo, onde se apaixona por uma princesa. A fealdade é suplantada pelo brilho com que toca a lira. Casa com a princesa. E, lembrando a Bela e o Monstro, na noite de núpcias Asinarius despe a pele de burro e transforma-se num belo homem, herdando os dois reinos.

Fig 2. Petrus Comestor. Burro tocando harpa face a um caprino. Sermones. Angers, abbaye Saint Aubin. Início do séc. XIII.

A figura do burro tocador de harpa ou de lira tornou-se popular durante a Idade Média. Multiplica-se nas iluminuras (figura 2), bem como nos tímpanos (figura 3) e nos capitéis das igrejas (figura 4).

Fig 3. Église de St Pierre d’Aulnay Saintonge. 1130-1170

Mas a simbologia da imagem altera-se. O burro já não domina a arte da harpa. É, antes pelo contrário, um desajeitado, que, no tímpano da Igreja de Aulney, segura a lira ao contrário (figura 3). Já não é questão da humanidade da besta, mas da bestialidade do homem. A exemplo do burro, o homem é animal, corpo e carne. A carne é fraca, preguiçosa, pecaminosa. A música, sopro do sagrado, é espiritual. É pelo espírito, e não pela carne, que acedemos às maravilhas criadas por Deus.

Fig 4. Igreja de St Julien, Meillers. França. 1180-1248.

Às vezes, cogitar na figura do burro músico pode provocar assombrações. Tanta referência teórica, tanta estratégia metodológica, tanta ferramenta técnica… e a harpa não toca! Falta de jeito? Falta de cordas?