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Declarações de amor pré-fabricadas

E viver sem amar não é realmente viver (Molière, La Princesse d’Élide, 1664).

Se quer arrastar a asa, mas, por qualquer motivo, prescinde da comunicação verbal ou gestual, diga-o não com flores, mas com letras. Existem declarações prontas a usar num minimercado perto de si. Haja desejo e inspiração! O anúncio “Lait drôle la vie”, do Monoprix, é lento como um caracol, mas ternurento como um coelho.

Imagem: Breviary of Renaud de Bar, Metz, 1302-1303. British Library

Acode-me a canção “Tu m’écris”, de Isabelle Mayereau, cuja letra parece um misto que sucede a Jacques Prévert e precede Mia Couto.

Marca: Monoprix. Título: Lait drôle la vie. Agência: Rosapark. Direção: Thirty Two. França, 2017
Isabelle Mayereau – Tu m’écris. Isabelle Mayereau, 1978. Ao Vivo. INA. 1979

Semear erros

“A última coisa que descobrimos ao terminar uma obra é saber aquela que é preciso colocar primeiro” (Blaise Pascal).

“O conhecimento científico é sempre a reforma de uma ilusão” (Gaston Bachelard).

Escrevo sempre textos em construção, papers in progress. Mais ou menos a meio de uma pesquisa. Ousadia? imprudência? Existem motivos que o justificam, alguns por princípio, outros práticos.

Decidir partilhar uma obra apenas quando esteja absolutamente acabada representa candidatar-se a nunca a publicar. A perfeição não está ao nosso alcance. O conhecimento é sempre problemático, provisório e falível. Entre a primeira gota e a almejada cristalização definitiva estende-se uma eternidade. Um texto redondo como um ovo, sem janelas nem trancas, é uma ilusão, pior, uma presunção. Em suma, estamos, de facto, condenados a publicar textos em construção.

Como o sugerem Blaise Pascal e Gaston Bachelard, a ciência apresenta-se não como uma certificação da verdade mas como uma retificação do erro. No início não está a verdade mas o erro. No fim, volta a não estar a verdade mas, na melhor das hipóteses, um erro menor. Errar faz, neste sentido, parte da prática científica. O diagnóstico de um erro já é um mérito, mais, errar pode ser um contributo. Uma ideia errada pode revelar-se um passo rumo ao conhecimento. O exemplo avançado por Gaston Bachelard é desconcertante e convincente: do modelo proposto por Niels Bohr, assumido como decisivo para a teoria do átomo, não restou praticamente nada. Formular uma proposta que suscita tamanho apetite que nem sequer os ossos sobram pode corresponder ao sonho de um cientista. O erro e a dúvida são os companheiros de estrada do investigador. O cientista conjetura, não prega!

Estes apontamentos não configuram um dogma, apenas uma perspetiva, por sinal, bastante partilhada. Esta consciência, de tão geral e abstrata, com ares de maneirismo epistemológico, reveste-se de pouca utilidade se não se consubstanciar numa disposição, num modo prático, incorporado, quase espontâneo, de viver a investigação. Uma arte de ser e de estar, de abraçar, com humildade, a produção e a comunicação do conhecimento.

Mal concluo um texto, logo o começo a rever. No artigo dedicado aos Farrangalheiros, colocado há escassos quatro dias, já introduzi uma mão cheia de alterações. Coisas ínfimas, quase-nadas: melhorar uma formulação, complementar uma informação, limar uma imprudência desnecessária ou corrigir um lapso assinalado por um comentário mais atento com que me deparei quando, já redigido este texto, demandava a origem do vídeo anexo. Por enquanto, as alterações provêm, essencialmente, da mera autocrítica. Mas mantenho-me atento e aberto a reações alheias, a contributos suscetíveis de o melhorar, incluindo quase-tudos capazes de o subverter. Publicado, entregue à sua sorte, um texto passa a ser menos do autor e mais dos leitores, quase um estranho. A investigação esboça os primeiros passos e no princípio não mora o verbo mas a ignorância. Comparado com alguns colegas, sou um aprendiz na matéria.

Quando estudo uma coletividade, pressuponho que os seus membros conhecem a realidade, as respetivas experiências e crenças, com uma dimensão e profundidade que nunca lograrei. Por isso os procuro e escuto com a devida atenção. Dão mais do que dou, dívida que nunca resgatarei. Investigar, para mim, é antes de mais interagir com as pessoas, em cada esquina a cada momento. Se o maior desafio da investigação é a descoberta, a principal recompensa repousa nos laços criados. Longe de partir em cruzada contra o senso comum, caminho com as pessoas, com a sua sabedoria. Promovo a proximidade em vez da distanciação profilática. Não aspiro, sobretudo, a muito mais informação do que aquela que, pela sua memória e pela sua experiência, as pessoas contempladas já possuem.

Qual é, então, a minha utilidade? O meu contributo só pode ser diferente, porventura resultante de quase meio século de treino a interpretar o comportamento social, nomeadamente o imaginário, um exercício constante desde que ingressei, em 1976, no curso de sociologia na Sorbonne e, especialmente, em 1978, no seminário de sociologia da literatura na École de Hautes Études en Sciences Sociales. Esse é o meu património e a minha ferramenta, o meu olhar, que me esforço por usar com criatividade e imaginação, se possível fundamentadas. Acrescento à realidade, sem garantias de justeza, camadas de sentido, que, por vezes, se lhe colam à pele. Só pode ser esse o retorno, a contra dádiva. Conseguido ou não, isso é outra questão.

Qual é o interesse em partilhar precocemente textos em construção, exploratórios e provisórios? Sem escudos de validação nem rituais de verdade? O risco de errar não é contra-argumento. Está sempre presente, em qualquer fase, embora, naturalmente, não se saiba. O que se ganha com a imprudência? Existem duas potencialidades que são outras tantas virtudes. A primeira consiste, precisamente, em detetar e corrigir, a tempo, os erros graças à crítica alheia. O diálogo, o debate e a avaliação, despoletados pela publicação, concorrem para esse efeito. A segunda potencialidade convoca a inspiração: a leitura de um texto pode suscitar e alavancar novas perspetivas, novos problemas, novas hipóteses. Nesta ótica, uma investigação não é só coletiva por ser conduzida por uma equipa, mas também porque é recebida e apreciada por um público, apropriada por outrem, por um colégio mais ou menos invisível. Para quem, como Paul K. Feyerabend, acredita que importa mobilizar tudo o que quer que seja suscetível de propiciar conhecimento, estas possibilidades de retificação e inspiração não devem ser desperdiçadas. Enclausurar significa esterilizar e mumificar. A fecundidade reside na interação.

Recorrendo ao linguajar tecnocrático, subsiste, porém, uma ameaça: a eventualidade de enganar os leitores com falsidades insuspeitas. Risco que se agrava quando o escritor, pelo seu estatuto, desfruta de uma autoridade e de um crédito suplementares. Por mais voltas que dê, não consigo contornar esta questão. A única forma cabal de evitar o contágio do erro seria, logicamente, remeter-se ao silêncio ou escrever para não dizer nada. Acresce que ninguém consegue censurar erros que desconhece. Na falta de melhor, recorro a um arremedo: evito o discurso categórico e académico, a retórica da verdade. À arquitetura do tratado, prefiro a morfologia do conto. Opto por um estilo coloquial e poético, como quem conta uma estória à moda do Camilo Castelo Branco: uma aparente ficção com personagens e acontecimentos reais, na expetativa de que a razão conceda, à partida, menos fé ao literário, ao ligeiro e ao irreverente. Mesmo assim, a probabilidade de indução em erro permanece incomensurável. Deseja-se, neste beco sem saída, que o leitor desconfie das certezas, das respostas fechadas, e se contente com dúvidas, com propostas abertas.

Dou a ler à família os textos antes de os publicar. No caso vertente, a pergunta não se fez esperar: “Tiveste alguma reação?”. Nenhuma, ressalvando a menção num comentário a um lapso: escrevi, baralhado pela velocidade das letras, inverneiras em vez de brandas. Trata-se simplesmente de uma fatalidade do ofício que me preocupa, que me acompanha e perturba como um grilo falante. Escrever ajuda a pensar. O desconforto é geral, tanto vale para o livro que estou a escrever sobre as imagens de Cristo como para a coletânea, em revisão, sobre a morte na arte, o capítulo, no prelo, sobre as bugiadas de S. João do Sobrado ou o artigo, recente, sobre os Farrangalheiros de Castro Laboreiro. Confirma-o a advertência que culmina o capítulo dedicado às Bugiadas:

“O estudo do imaginário requer imaginação. Sem imaginar pouco se descobre e nada se inventa. Interpretar costuma ser um jogo incerto, estimulante na prática e ingrato nos resultados. Os avanços e os recuos resultam de um compromisso entre a dedução a partir daquilo que se sabe e a indução a partir daquilo que se aprende. Quando surge uma intuição, convém acolhê-la, equacioná-la e, eventualmente, explorá-la. Nada se ganha em autocensurar conjeturas em que se apostou, por mais elevado que seja o risco de errar. Infirmadas, corrigidas ou confirmadas, as ideias, mesmo falsas, possuem a virtualidade de abrir caminho ao conhecimento. Contra o desperdício intelectual, sempre que uma intuição nos desarma, avessa a uma promessa de validação, o mais avisado será enveredar pela generosidade e a imprudência de a partilhar. Uma proposta frágil mas honesta, motivada pela vontade de saber, desde que devidamente exposta à crítica e sem aparato de verdade, não incorre em pecado capital. Talvez venha a beneficiar do interesse e da crítica de alguém que lhe proporcione melhor sorte ou a cubra de ridículo. Assim introduzida, passamos a apresentar uma camada suplementar de leitura semiótica dos Serviços da Tarde, dotada de alguma coerência e sedução, conscientes de que carece sustentação mas não proscrição.”

Esta corrente de palavras aponta para uma postura na investigação e na comunicação do conhecimento: a aposta num jogo ponderado entre humildade quanto baste e ousadia tanta quanto possível. De preferência, com asas que voam em vez de asas que pesam: a andorinha no lugar da galinha.

Traje Castrejo. Fonte: PORTUGAL de LES A LES. 7 objetos com história entre Castro Laboreiro e Melgaço. Por Jorge Montez (texto) e Miguel Montez (imagem). Consultado no dia 08 de maio de 2022.

Anjos

Saint Michel terrassant les anges rebelles. Rubens, Pierre Paul (1577​-1640). Entre 1615 e1620.

Por marretada de um anjo caído (ver imagem), tenho dificuldade em escrever, no teclado e no papel. Os anjos inundam a moda (ver vídeo 1). Por outro lado, assombram os Manfred Mann (ver vídeo 2).

Marca: L’Oréal. Título: Lash & Skin Paradise. Produção: Quad. Direção: Bruno Aveillan. França, janeiro 2021.
Manfred Mann’s Earth Band. Angels at my gate. Angel Station. 1979.

Mafalda Veiga

“E deixar-me devorar pelos sentidos
E rasgar-me do mais fundo que há em mim
Emaranhar-me no mundo
E morrer por ser preciso
Nunca por chegar ao fim
(Mafalda Veiga).

Tenho um nó na palavra. Para escrever cinco letras, preciso de uma dúzia de teclas. Chama-se a isto tremura de mãos e gaguez digital. Desfasada do pensamento, a escrita não discorre, tropeça. Encolhe como o caracol. Gosto da Mafalda Veiga

Mafalda Veiga. Por outras palavras. Zoom. 2011.

Um pouco de céu

Hoje, foi dia de pequenas coisas. Ressonâncias que não pesam no juízo final. Memórias sem história. Nada para arquivar. Quando escrevi, há 10 anos, o artigo Lembranças tinha mais memória e menos barriga. Mas agrada-me. Centra-se no insignificante. Amanhã, recomeçam os vazios importantes. Aumenta a pose e encolhe a pessoa. Entretanto, apetece-me ouvir Mafalda Veiga.

Mafalda Veiga. Um pouco de céu. Tatuagem. 1999.

Lembranças

Neto de comerciante, foi-me dado assistir à morosa hesitação da escolha dos postais ilustrados. Não deixa de constituir tarefa penosa, quase um milagre, conseguir acomodar, num rectângulo tão exíguo, emissor, destinatário, pretexto, mensagem e imagem. Lembro-me, também, da recepção de alguns postais. Ao estremecimento e à comunhão iniciais, com o postal a passar de mão em mão, sucedia-se a exposição num “altar improvisado” e o recolhimento numa gaveta, caixa ou álbum destinado às relíquias memoráveis. Quase todos nós, apesar dos anos e das mudanças, preservamos alguns destes tesouros semi-privados. Compõem uma espécie de bálsamo para as rugas da nossa identidade.

Postal 3

Postal 3

Os postais ilustrados comportam uma vertente estética. Podem ainda apresentar uma aura de magia, virtualidade, aliás, própria de um objecto que se interpõe entre duas pessoas. Absorvem o emissor que neles se inscreve (“estou aqui!”) e convocam o destinatário que neles se adivinha (“Esta menina és tu a pedir à Nª Sª pª vires passar as férias a casa”: postal 1). Podem, inclusivamente, aspirar a uma certa tangibilidade das almas ou, se se preferir, a um magnetismo dos corpos separados: “Se o pensamento fosse visível, ver-me-hias sempre ao teu lado” (postal 2). Muitos postais ilustrados são dádivas. Antes de mais, dádivas de si. São lembranças, “something between a message and a present” ( Andrew Martin:http://blogs.guardian.co.uk/travelog/2008/07/postcards_back_from_the_edge.html). 

Postal 4

Postal 4

São prendas! Apreciadas, exibidas e guardadas. Pessoalizadas em sintonia com o outro, pedem criatividade, dedicação e sentido de oportunidade. Confesso nutrir alguma predilecção pelos postais ilustrados anteriores a 1902, aqueles em que “de um lado só se escreve a direcção”. Reduzem o importante ao essencial. E o essencial, como bem sabemos, cabe no buraco de uma agulha. As soluções, variadas, oscilam entre a incontinência de letras que afoga a imagem e o gesto discreto e precioso que lhe acrescenta valor. Mesmo com a possibilidade de escrita no reverso do postal, as marcas e as inscrições na imagem perduraram, como uma espécie de luxo ou de requinte pessoal ( atente-se no postal 3 e, sobretudo, no pormenor do postal 4: estes postais podem ser vistos no blogue Postais Antigoshttp://postais.do.sapo.pt/). É certo que, na maioria dos casos, estas prendas são surpresas esperadas, ao sabor das efemérides ou das viagens. Se tardam, sente-se a falta, num misto de frustração e inquietação.

Rotação

“Uma tentação assombrava o Pinga Letras. Deixar de escrever. Não tem a quem, pelo menos, alguém que se sinta. Escrever é um engajamento; parar, um desprendimento. Escrever é coisa de sísifos, de moinhos de água. Página a página, a pedra mói sem pausas. Um dia, deixa de escrever, e ninguém dá por isso. É verdade que cultiva um estilo próprio: nota-se à primeira frase; à segunda ou à terceira enfastia. Metáforas, paradoxos, subentendidos, intertextualidades… E algumas ideias. Quem quer ideias? Não há ideias como as de cada um… Ponto final! A originalidade é um estorvo. Bastam ecos e massagens. Por outro lado, em textos curtos, as ideias parecem raquíticas. São bonsais do pensamento. Falta-lhes o incenso, o sermão e a procissão. O melhor é regressar à incubação de livros, esses transoceânicos da sabedoria fadados à insolação da inteligência. Um livro! Daqueles que passam, num ápice, de contribuições importantes a lixo de estantes. Um livro, com introdução e conclusão, mais um ano dos vinte que restam. Uma promessa, um sacrifício, uma mercadoria. E o Pinga Letras não parava de cogitar: um dia, talvez recomece do ponto de partida. Será um grande avanço. E entusiasma-se. Vai ser um grande livro, na crista do vento e com título apelativo: A Liquidez Conjugal na Era da Coca-cola” (Apontamentos de um limpa para brisas, 2016).

Michael Kenna, nascido em 1953 na Inglaterra, é um fotógrafo residente nos Estados Unidos. A sua fotografia, enigmática, despojada e minuciosa, acusa influências orientais, nomeadamente do Japão. Segue uma pequena galeria de imagens.