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Descomplicar

O Anúncio Simple makes sense, da Aegon Life Insurance, não é simples, mas faz sentido. Alinha, uma a uma, várias ilusões ao jeito de Escher e Arcimboldo. Mas ilusões descomplicadas. O anúncio aposta numa equação inversa à usual: não desconstrói uma realidade para construir uma irrealidade, desconstrói uma irrealidade para construir uma realidade (ver http://tendimag.com/2013/11/24/nao-ha-dois-sem-tres/). Cada ilusão alude a uma vertente simplificadora do acesso à Aegon Life Insurance: o labirinto, por exemplo, deixa de ser um labirinto para os funcionários da seguradora: “Simple says you don’t have to care about insurance, your insurance should care about you”.
Carregar na imagem para aceder ao anúncio.

Labirinto segurosMarca: Aegon Life Insurance. Título: Simple makes sense. Agência: DDB Mudra Group. Direcção: Arun Gopalan. Índia, Janeiro 2016.

Dentro e fora. O olhar do século.

Dentro ou fora? De dentro para fora? De fora para dentro? Dentro e fora.

M. C. Escher. Print Gallery. 1958.

M. C. Escher. Print Gallery. 1958.

Para Francesco Casetti, o cinema é o olhar do século XX (L’occhio del Novecento. Cinema, esperienza, modernità, Milano, Bompiani, 2005), um olhar que entra no ecrã, do cinema ou da televisão (Dentro lo sguardo. Il film e il suo spettatore, Milano,  Bompiani, 1986; com F. di Chio, Analisi della televisione. Strumenti, metodi e pratiche di ricerca, Milano, Bompiani, 1998).

“With regard to vision, the film aims to “fill the eyes” of the spectator, to solicit him sensually: the filmic experience mobilizes a perceptive intensity that allows the spectator to “immerse” him or herself in that which he or she is watching. In this sense we can say that filmic images, more than objects to be seen, constitute a visual environment. But film seems to do other things, as well: it seems to want to “restitute” to the spectator that reality which on the screen is not present if not in its appearance; and it seems to want to do so through an illusion” (Casetti, Francesco, 2007, The Filmic Experience: An Introduction, p. 10: https://francescocasetti.files.wordpress.com/2011/03/filmicexperience1.pdf).

O envolvimento visual, além de propiciar a entrada do olhar no ecrã, promove a imersão do próprio espectador, convidado a co-construir a experiência fílmica. “O olhar do século XX” não é apenas imersivo, não se limita a “encher os olhos”, é também interactivo. A imersão coexiste com um sentido de distanciação. Dentro e fora, o cruzamento de olhares conjuga-se na experiência fílmica. O anúncio do Seattle International Film Festival contempla, de algum modo, este tango de perspectivas.

Anunciante: Seattle International Film Festival / SIFF. Título: Be Watching. Agência: Wongdoody. Direcção: Lindsay Daniels. USA, 2015.

Vertigens a baixa altitude

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Há muito que namoro o tema da levitação e não há modo de ir ao altar. Existem diversas soluções para sugerir a ausência de gravidade: captar um momento de suspensão, filmar em câmara lenta um movimento de desprendimento ou multiplicar os planos de gravidade (e.g, E.M. Escher, na gravura, e Philip Halsman, na fotografia).

O anúncio chinês OK Go, da Red Star Macalline, desmonta várias ilusões de perspectiva e multiplica os planos de gravidade, provocando uma sensação de vertigem.

O anúncio neozelandês Muscle, da Anchor, recorre ao slow motion para criar uma sensação de flutuação no espaço e no tempo. Em câmara lenta, os movimentos de dança logram um efeito estético apreciável.

Marca: Red Star Macalline. Título: OK Go. Agência: 25hours Xangai. Direcção: Damian Kulash JR. China, Março 2015.

Marca: Anchor. Título: Muscle. Agência: Colenso BBDO. Direcção: James Solomon. Nova Zelândia, Março 2015.

Mãos

DÜRER, Albrecht. Cristo entre os Doutores (Pormenor). 1506.

Figura 1. DÜRER, Albrecht. Cristo entre os Doutores (Pormenor). 1506.

Figura 2. Auguste Rodin. Mãos de Amantes. 1904.

Figura 2. Auguste Rodin. Mãos de Amantes. 1904.

As mãos são a carne da comunicação.

Com as mãos, nos tocamos (Figura 1), nos damos (Figura 2), guardamos segredos (Figura 3) e rezamos (Figura 4).

Com as mãos, nos desenhamos (Figura 5).

Com as mãos, criamos figuras fantásticas (ver O Carnaval das mãos).

Com as mãos, também simulamos uma garrafa de Coca-Cola!

Marca: Coca-Cola. Título: Together. Direcção: David LaChapelle. USA, Fevereiro 2015.

 

Mergulhar no futuro

Expo 98. Anúncio.

Há algum tempo que não tenho ocasião de falar em desgravitação. A nadadora Lenka Tanner dá a sensação de correr na água. Mas o anúncio é estranho, uma ilusão ao jeito de M. C. Escher. Lenka corre no ar sobre a água ou na água sob o ar? Corre no ecrã e na nossa cabeça. Mas como? Desafia e confunde. Novas ideias, novas tecnologias: o mundo já não é o que era, agora até parece impossível (ver pdf  Como nunca ninguém viu). Um excelente anúncio! Criativo. E a música? Entre o berço e a hipnose. Dá vontade de ir a Kuoni. Para voar na água e nadar no ar. Este anúncio da agência inglesa Grey também dá vontade de “mergulhar no futuro”. Lembram-se? Lembram-se daqueles anúncios extraordinários da Expo 98? Depois de voar na água e de nadar no ar, vamos lá mergulhar no futuro! Desde a Expo 98, não paramos de mergulhar no futuro.

Marca: Kuoni Travel. Título: Find Your Amazing. Agência: Grey London. Direcção: Marcus Söderlung. UK, Janeiro 2015.

Expo 98. Portugal

Expo 98. Portugal

Ilusão e nonsense

Regina Spektor FarFui à cave revisitar relíquias com sintomas de arte. No sótão, não há nada. É tão apertadinho que nem a inteligência cabe. Anda sem abrigo. Encontrei alguns videoclips apostados na ilusão e no nonsense. Por exemplo, Regina Spektor e a sua simpatia por Escher e Magritte. Atente-se neste “Laughing With” (2009).

 

Ideias quase tuas

M.C. ESCHER, Drawing Hands, 1948

M.C. ESCHER, Drawing Hands, 1948

Gosto de ideias. De vadios e vadias. Não gosto que as atrelem a um poste de vaidade. Não me interessam as ideias de trazer ao peito. Engomadas. As ideias gostam de se amachucar. Não gosto de ideias sólidas. Prefiro vê-las esguias,  a fintar catálogos, formulários, protocolos, dicionários e citações. Gosto de ideias que dançam com o erro na corda bamba. Gosto de ideias que valem mais que o dono. Gosto das minhas ideias, sobretudo quando são quase tuas. Não gosto de ideias roubadas. Quem rouba ideias não as tem.

Este anúncio argentino estreia amanhã. Podes vê-lo hoje.

Marca: TEDxRíodelaPlata. Título: Ideas quasi tuyas. Agência: Ponce. Direção: Rosca. Argentina, Setembro 2014.

Braccelli. À maneira surrealista

Giovanni Battista Braccelli publicou, em 1624, o livro Bizzarie di varie figure composto por cinquenta gravuras. Alguns dos seus desenhos lembram a obra pioneira de Arcimboldo. Veja-se, por exemplo, os desenhos das páginas 4, 5 e 39. Mas não é a ligação ao passado que distingue Braccelli. É, antes, a sua projeção no futuro. Muitos consideram Braccelli uma espécie de surrealista avant la lettre. Não o foi, evidentemente: não se pertence a um movimento antes de este ser criado. Foi, outrossim, um expoente do maneirismo. É, porém, verdade que as suas gravuras lembram artistas do século XX. Por exemplo, Fernand Léger, Giorgio de Chirico, Georg Grosz ou Maurits C. Escher. Ao seu jeito, Salvador Dali também marcou presença. Segue uma selecção de gravuras do livro de Braccelli, acompanhada por alguns quadros de pintores do séc. XX.

Perspetivas 2: Galeria de imagens

Pelo eventual interesse, segue a galeria com as imagens utilizadas no vídeo do artigo precedente: Perspectivas: Wenzel Jamnitzer e Mauritis C. Escher.

Perspetivas: Wenzel Jamnitzer e M.C. Escher

Nos últimos dias, estive absorto a preencher a minha autoavaliação heterodeterminada. Pagar a quota de uma associação científica ou profissional dá pontos. Manter um blogue não conta nada. Ainda bem! É o meu luxo.
Quando andava às voltas com o Christophe Jamnitzer (ver artigo Grotesco Maneirista: Christophe Jamnitzer) deparei com a obra do avô, Wenzel Jamnitzer (1507-1585), tão ou mais interessante do que a do neto. Ourives alemão do séc. XVI, foi um notável artista gráfico maneirista. No livro Perspectiva Corporum Regularium (1568), concebe formas geométricas que exploram as potencialidades da perspetiva. Vários contemporâneos, entre os quais Johannes Kepler, produziram desenhos similares. As gravuras de Jamnitzer lembram algumas obras de M.C. Escher (séc. XX). Ambos são artistas gráficos conceptuais, trabalham com formas geométricas, visam a ilusão do espaço e elegem a perspetiva como alvo privilegiado. Cotejar Jamnitzer e Escher é, assim, uma tentação. Mas só isso. Um mero divertimento. Jamnitzer apurou a perspetiva, Escher mostrou os seus limites. Jamnitzer construiu realidades complexas, Escher mundos impossíveis e paradoxais.

Albertino Gonçalves. Perspectivas: Wenzel Jamnitzer e M.C. Escher. Março 2012.