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Sinto, logo insisto. Duas epifanias

Da noite de Natal até ao fim do ano, estive com gripe A. Isolado, até a escrita ficou constipada. Uma privação séria porque alinhar letras é um dos meus prazeres prediletos. Faço-o mais pelo gozo que me proporciona do que pela antecipação da leitura alheia, que me escapa. Regresso, portanto, prazenteiro, às imagens, metáforas, ironias, trocadilhos, paradoxos, hipérboles, elipses, alusões e ilusões que encantam o meu deserto.

Na madrugada de 30 de dezembro, fui ao Hospital de Braga para “fazer análises”. Nada de novo! Inesperadamente, ocorreu uma espécie de epifania quando fui “picado”, com sublime doçura, por uma donzela que espeta agulhas como setas de cupido. Certamente, uma descendente de Florence Nithingale, a célebre “dama da lâmpada”.

Imagem: Caravaggio. Amor Vincit Omnia, ca. 1602

[Durante a Guerra da Crimeia] “Escolhi os plantões, porque sei que o escuro da noite amedronta os enfermos. Escolhi estar presente na dor porque já estive perto de muito sofrimento. Escolhi servir ao próximo porque sei que todos nós um dia precisamos de ajuda. Escolhi o branco porque quero transmitir paz…”
(Florence Nightingale).

Imagem: Painting of Nightingale by Augustus Egg, c. 1840s

Estranhamente mimado num hospital apinhado, desgastado e combalido, surpreendi-me a querer prolongar o “sacrifício”:

  • Talvez seja melhor esperar mais um pouco! Tomo aspirina por causa do coração…
  • Devia ter dito antes. Deve dizer sempre antes. Nessas circunstâncias, tomamos outros cuidados.

Mas o serviço não se compadecia com demoras fúteis. Despedi-me com um penso no braço do tamanho do carinho recebido.

Mal andam as coisas no reino de Alexandria quando as seringas e os biscoitos despoletam epifanias! Não escolhemos, porém, os gatilhos da ternura.

Regressei a casa mais animado. Mas aquela rara pitada de mimo sabia a pouco. Como se diz, o mal está em começar. Se desejava mais, só restava uma solução: mimar-me a mim mesmo.

Encomendei uma “tarte da avó”, framboesas, cerejas (do Chile), mexilhões e linguado. Nem mais, nem menos.

Peguei numa cereja lustrosa e carnuda. Dei uma dentada delicada, como num mamilo vegetal, com o suco púrpura a escorrer pelos lábios.

Uma segunda epifania.

E, como Marcel Proust, regredi à infância.

Morava numa “casa de brasileiro” apenas com o avô e uma tia, uma das minhas mães (ver O menino de suas mães). À noite, escutava o “nosso” programa na rádio: Quando o Telefone Toca. Os sucessos e os intérpretes repetiam-se, a pedido do público, de semana em semana, mês após mês: “Tombe la neige”, de Adamo, “Non son degno de te”, de Gianni Morandi, “Oração”, de António Calvário, “A Casa da Mariquinhas”, da Amália Rodrigues, “La vida sigue igual”, de Julio Iglesias, “Delilah”, de Tom Jones…

Um nada mais recente, Nicola Di Bari era um dos “cantores residentes”. Recordo “El corazón es un gitano” (original 1971); “Guitarra Suena Más Bajo” (original 1971); e “Como Violetas” (1972).

Enquanto houver memória, a infância acompanha-nos durante toda a vida.

Nicola Di Bari – El corazón es un gitano. Original italiano, 1971. Castilla y León Televisión. Vamos a Ver, 12/11/2019
Nicola Di Bari – Guitarra Suena Más Bajo. 1971
Nicola Di Bari – Como Violetas, 1972. “En vivo desde México en programa mexicano de tv”. Colocado em 17/05/2010

Arqueologia de uma relação

Pavlov's dogO anúncio The First Meeting, da Pedigree, apresenta uma travessia solitária num mundo lunar ou vulcânico. Há lugares onde os passos não deixam marca nem levam a lado nenhum. Mas, ao contrário do Godot de Samuel Beckett, quem procura, mesmo sem saber o quê, pode encontrar. A epifania, com ou sem anjos, é a bênção das almas perdidas. Pois este anúncio termina com uma epifania. Para além da esperança razoável, o cão encontrou o homem.
Hoje, falei num mosteiro. Apetece-me, agora, ouvir. Duas músicas do álbum que mais ofereci: Pavlov’s Dog, Pampered Menial, 1974. Optei por duas interpretações ao vivo, mais raras. Não dispensam a audição da gravação de estúdio. Os Pavlov’Dog eram músicos exímios e originais. O vocalista é um assombro. Foram, contudo, um caso exemplar de insucesso comercial.

Marca: Pedigree. Título: The First Meeting. Agência: Proximity BBDO Mexico. Direcção: Rodrigo Garcia. México, Abril 2016.

Pavlov’s Dog. Julia. Pampered Menial. 1974.

Pavlov’s Dog. Theme From Subway Sue. Pampered Menial. 1974.

 

Descarregar medos

Wojciech Kilar

Wojciech Kilar

Quanto mais observo anúncios mais se consolida a seguinte hipótese: para fazer um anúncio, convém ter uma marca e um produto; quanto ao resto, qualquer solução desencantada no labirinto de possibilidades infinitas serve, desde a mais óbvia à mais improvável. Interessa, porém, que seja de algum modo sintonizável com o produto e a marca. O que não é difícil: basta uma palavra, uma nota musical, uma acrobacia de sentido ou o estremecimento de uma sensação. Haja mestria e criatividade!

O anúncio “Fears”, da Herbaria, sobressai como um caso exemplar. Quem vê os primeiros 55 segundos dificilmente reconhece a identidade do produto. Três personagens grotescos debatem-se enquanto se afundam sem salvação. A chave destas sequências aterradoras aguarda pelos cinco segundos finais. “Drown your fears” (afogue os seus medos). “Herbaria: Calming Tea”  (Herbaria: chá relaxante). Estes escassos cinco segundos proporcionam uma espécie de epifania. Num ápice, tudo faz sentido: a água, o afogamento de três vilões; os sacos; e, naturalmente, a bonança depois da tormenta. Por estes e por outros motivos, estamos perante um excelente anúncio com belíssima imagem (foi filmado nos mesmos estúdios que as cenas subaquáticas do último 007). Não tivesse tanto respeito pelo Ferdinand de Saussure e ousaria extrapolar para a publicidade a dupla arbitrariedade do signo: a marca (ou o produto) é arbitrária; o conteúdo é arbitrário; arbitrária é também a articulação entre a marca e o conteúdo.

Marca: Herbaria. Título: Fears. Agência: Jung von Matt / Neckar. Direção: Andreas Roth. Alemanha, Janeiro 2013.

Esta arte de (des)carregar medos, assaz corrente, lembra Wojciech Kilar, de quem acrescento duas músicas: a primeira, The Beginning, do filme Bram Stoker’s Dracula, algo sobressaltada e apreensiva, como quem anda numa floresta em que as árvores tocam tambor e os ramos violoncelo; a segunda, Vocalise, do filme The Ninth Gate, um pouco mais serena, como quem dança nas nuvens com receio da chuva.

Wojciech Kilar. The Beginning. Bram Stoker’s Dracula.

Wojciech Kilar. Vocalise. The Ninth Gate.