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A idade e a solidão

ONG Grandes Amigos. Familias hinchables. 2019.

“A mais terrível pobreza é a solidão e o sentimento de não se ser amado” (Madre Tereza de Calcutá).

A solidão não escolhe idades, mas não as escolhe por igual. A solidão escolhe, sobretudo, a velhice. Está-se só em casa ou na sala comum de uma residência sénior. A presença do outro não basta, importa partilhar laços. Não existem laços suplentes nem famílias insufláveis. E, como sugere Zygmunt Bauman, na modernidade líquida os laços tendem a afrouxar.

No dia 3 de Março, vai ser lançado na televisão o anúncio espanhol Familias Hinchables da ONG Grandes Amigos:

Mayte Sancho, investigadora en gerontología social y presidenta de Grandes Amigos, ha comentado como “Familias Hinchables” visibiliza que la solución a la soledad no deseada de las personas mayores pasa por regenerar los lazos afectivos (https://www.reasonwhy.es/actualidad/campana-familias-hinchables-soledad-mayores).

Para acompanhar, acrescento uma música em italiano, Solitudine, por um cantor brasileiro: Renato Russo.

Anunciante: ONG Grandes Amigos. Título: Familias Hichables. Agência: El Ruso de Rocky. Direcção: Günther. Espanha, Fevereiro 2019.
Renato Russo. La solitudine. Equilíbrio distante. 1995.

Nostalgia do Futuro

Ontem, fiz anos! Não fiz nenhuma proeza. Mas faz-se de conta. O importante é o resto. Os anos passam. Mais complicado do que ser velho é envelhecer. Inteirámo-nos, a cada momento, que já não somos quem éramos, nem podemos o que podíamos. Envelhecemos, sem pausas, até ao último momento. É a nossa condição.

“E agora que vou fazer / com todo este tempo que será a minha vida?” (Gilbert Bécaud). Renascer todos os dias? “Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida” (Sérgio Godinho). O que fazer? Nada, como de costume, um nada muito bonito. Com o passado a pesar no presente, não dá para andar para trás. Cumpre-nos encarar o futuro até ter saudades:  saudades do futuro sonhado. Equívocos de um  viciado em  palavras.

Agradeço os vossos votos de aniversário. Fizeram-me sentir mais humano. Entre o peso do passado e a nostalgia do futuro, é bom contar com os amigos no presente.

Gilbert Bécaud. Et maintenant. 1962.

Sérgio Godinho. O primeiro dia. Pano-cu. 1978.

 

 

 

Solidão na velhice

Eric Lacombe. Shades of Melancholy

Eric Lacombe. Shades of Melancholy.

As pessoas de idade que vivem sós constam entre as categorias sociais mais vulneráveis. Carecem cuidado, no sentido de atenção e apoio. O seu número aumenta a um ritmo exponencial. Vai ser defendida, em breve, na Universidade do Minho uma dissertação de doutoramento em Sociologia dedicada, precisamente, ao “impacto das redes sociais na Qualidade de Vida dos indivíduos com 50 e mais anos que residem sós em Portugal: um estudo no âmbito do projeto SHARE”. Não é, porém, esta dissertação que justifica este artigo, mas o falso anúncio Without You, para a Tupperware.

Não há categoria social imune à publicidade. Um homem de idade que perdeu a companheira vive só, diminuído por algumas incapacidades e rodeado por “fantasmas” do passado, tais como a correspondência, os chinelos ou o avental. Resgata-o uma aparição luminosa: o Tupperware, uma ponte no tempo, que, como um psicopompo, liga o aqui e o além, o agora e o outrora. Talvez não salve a alma, mas reconforta o corpo e a mente.

Proporciona-se, ou talvez não, ouvir a canção Mr. Lonely (1964), de Bobby Vinton, um dos intérpretes de Blue Velvet (1963).

Marca: Academy of Media Arts Cologne / Tupperware. Título: Without You. Direcção: Fabian Epe. Alemanha, Março 2018.

Bobby Vinton. Mr. Lonely. Roses are red. 1964.

Bobby Vinton. Blue Velvet. Blue on Blue. 1963.

Amor tranquilo

Land Rover The road

“Les sanglots longs des violons de l’automne blessent mon cœur d’une langueur monotone. Tout suffocant et blême, quand sonne l’heure, je me souviens des jours anciens et je pleure ; et je m’en vais au vent mauvais qui m’emporte deçà, delà, pareil à la feuille morte” (Paul Verlaine ; Poèmes saturniens, Chanson d’automne, 1866).

Gestos serenos em equilíbrio, uma beleza poética sem Adónis, nem Afrodite. Uma cumplicidade subcutânea. Como cabe tamanha delicadeza num anúncio a um carro? A harmonia e a lentidão são quebradas por um fluxo vertiginoso de memórias, numa câmera acelerada. Travessia, vertigem, aventura… Um anúncio dentro do anúncio. O Land Rover faz 75 anos. O casal ronda essa idade. No anúncio The road, o motor e o coração cruzam-se e pulsam a várias velocidades. “Uma vida juntos” num romance sobre rodas.

Marca: Land Rover. Título: The road. Produção: Kite Rock Pictures. Direcção: Fran Mendez. Estados Unidos, Março 2018.

Rejuvenescimento

Coca-cola-zero-2018O anúncio First Taste estreia amanhã, 15 de Janeiro. Como quase todos os anúncios da Coca-Cola, está bem feito e propõe um conceito claro: a libertação graças à magia da bebida. O anúncio é uma retoma de um anúncio homónimo de 2006. A narrativa é a mesma. Mr Hadley, institucionalizado num hospício, prova, pela primeira vez, Coca-Cola. O efeito supera os espinafres do Popeye ou a poção mágica do Astérix. No anúncio de 2006, declara-se à mulher amada, assume a paternidade, pratica nudismo, faz uma tatuagem, dá um beijo à Mona Lisa, mergulha, anda de mota, partilha a cama com gémeas, participa numa corrida de touros e destaca-se na multidão. O anúncio de 2018 acrescenta um cortejo carnavalesco; o contacto com um homossexual e o delírio de um concerto de música. Tudo condiz, até a canção Break Free, dos Queen.

Marca: Coca-Cola. Título: First Taste. Agência: Mccann EMEA. Direcção: Albert Uria. Reino Unido, Janeiro 2018.

O tema do rejuvenescimento é fruto da época, de mão dada com o foco na juventude (ver As idades da vida: https://tendimag.com/2016/12/23/as-idades-da-vida/). Subsistem, porém, anúncios excelentes que encaram a velhice como uma idade aprazível, sem precisar da máquina do tempo (ver Entre gerações: https://tendimag.com/2017/09/27/entre-geracoes-2/).

Marca: Coca-Cola. Título: First Taste. Agência: Wieden+Kennedy, Amsterdam. Direcção: Dante Ariola. Holanda, 2006.

Em ambos os anúncios, o rejuvenescimento convoca um quadrado de valores: virilidade; potência; desejo; libertação. Atente-se em figuras tais como o galanteio, a paternidade, o nudismo, a tatuagem, o beijo, o mergulho, a motorizada, as gémeas, os touros… Não sou discípulo de Freud, nem de Jung, nem de Lacan, mas qual seria a leitura de um perverso com inclinação para o disparate? O quadro de valores remeteria para o sexo. Mais metáfora, menos metáfora, seríamos confrontados com um “rejuvenescimento sexual, ver orgástico”. Orgasmo? Nada que faça corar a publicidade. Não obstante, não há dúvida que só um perverso poderia perfilhar tão inconveniente interpretação. Não é verdade?

Os dois anúncios culminam na condução, solitária ou em grupo, de uma motorizada. A motorizada está associada à virilidade, à potência e à libertação. Num anúncio notável de Taiwan, Dream, o rejuvenescimento é significado pelo regresso à condução de motorizada em grupo. É um prazer recolocá-lo.

Marca: TC Bank. Título: Dream. Agência: Ogilvy Taiwan. Direcção: Thanonchai. Taiwan, Março 2011.

Fé, Esperança e Tecnologia

Saturn

Fé, Esperança e Tecnologia são as nossas virtudes teologais. A Tecnologia move montanhas e abre os mares. Arrasta-nos de um lado para o outro. Quero, portanto, acreditar que a Saturn ajuda a combater a doença de Alzheimer. Num anúncio de 2002, ajudava a combater vampiros.

Marca: Saturn. Título: Anna. Agência: Jung von Matt. Direcção: Alex Feil. Alemanha, Novembro 2017.

Marca: Saturn. Título: Students vs vampires. Agência: Ratfilms. Direcção: Manes Dürr. Alemanha, 2012.

Filhos da madrugada

Reli o artigo As idades da vida , que consta entre aqueles que vou publicar em livro. Não termina em rabo de peixe porque termina em rabo cortado. Escrever sobre as idades da vida na Idade Média, na Idade Moderna e despachar a Idade Contemporânea não faz sentido. Tentei compor a falha com dois artigos (O eclipse da velhice e Pró-actividade), mas não é a mesma coisa. Fiz colagens e acrescentos. Resultou este texto que vai ser enxertado na parte final do artigo As idades da vida. De todos os artigos do livro, é o que comporta mais vídeos. É difícil não recorrer ao audiovisual para discorrer sobre o imaginário contemporâneo. Começo com um provérbio curioso que, 2 500 anos depois de Esopo, nos faz pensar sobre pressas e vagares:

“O primeiro pássaro pega a minhoca, mas o segundo rato fica com o queijo” (Provérbio).

O homem medieval cresce até atingir um planalto em que o adulto e o idoso permanecem à mesma altura até à morte. A Idade Moderna altera esta representação do percurso da vida: ascensão até ao topo adulto e declínio até ao túmulo. Os dois lados da curva não têm o mesmo valor: o esquerdo é agradável e pujante, o direito é sofrido e frágil…

Hans von Marées. Die Lebensalter, 1877-8. Alte Nationalglerie, Berlin.

11. Hans von Marées. As Idades, 1877-8.

No mundo contemporâneo, continuamos a nascer, crescer, envelhecer e morrer. Muda, porém, a experiência e a representação do percurso da vida. Em Portugal, a esperança de vida rondava, em 1950, os 56 anos; em 2015, ascende aos 81 anos (fontes: OCDE, 1988, Le vieillissement social: conséquences pour la politique sociale, Paris; e INE, PORDATA). O “entardecer da vida” (Leandro, Maria Engrácia, “Assumir o entardecer da vida: novas atitudes se impõem”, Cadernos do Noroeste, Vol. 4, Nº 6-7, pp. 359-367) alonga-se. Nunca houve tantos idosos nas sociedades ocidentais. Em Portugal, em 1971, 28,5% da população era jovem e 9,7%, idosa; em 2016, 14,1% da população é jovem e 20,9% idosa (INE, PORDATA). Durante este período, a população idosa duplicou. Em 1960, havia 27,3 idosos por cem jovens; em 2016, são 143,9 (Fonte: INE, PORDATA). E no entanto… Estamos em vias de descobrir um teorema novo: existem populações que quanto maiores são menos se enxergam.

A representação das idades da vida na arte contemporânea não é unívoca. A disposição das figuras no quadro As Idades (1877-8), de Hans von Marées, lembra Hans Baldung (As idades da vida, Figura 6) e Bartolomeus Anglicus (As idades da vida, Figura 8). Mas o idoso não está nem à altura dos adultos, nem a um passo da sepultura. Curva-se junto das crianças como que a fechar um ciclo. Gustav Klimt aglomera as idades da vida num único bloco humano (Figura 11) exposto à morte (Figura 12). As idades distinguem-se, não se isolam nem se alinham.

A contemporaneidade é a era do audiovisual, que inclui a publicidade, um meio massivo de comunicação.

O anúncio Champagne (2002), da Xbox, propõe uma paródia absurda da representação moderna das idades da vida: a trajectória alucinante de um ser humanodesde o ventre materno até à sepultura. Enquanto se desloca, envelhece.

Vídeo 1. Marca: Xbox. Título: Champagne. Agência: BBH. Direcção: Daniel Kleinman. Reino Unido, 2002.

Os objectos falam (https://tendimag.com/2015/03/21/objetos-que-falam/). Deixar os objectos falar foi um desafio na publicidade dos anos setenta. Recorde-se o controverso anúncio “Bouteille Phalique”, da Perrier, estreado em 1976: uma mão feminina afaga uma garrafa que cresce lentamente até sair um jorro de água gazificada (https://tendimag.com/2011/10/19/a-mulher-o-homem-e-o-objecto/). Anos antes, em 1970, a Guinness lança o anúncio Ages of Man. Num tapete rolante, desfilam, primeiro, um biberão, em seguida, uma garrafa com leite, uma garrafa de refrigerante, uma caneca e, por último, um copo com cerveja Guinness. A cada recipiente corresponde um grupo etário com acompanhamento sonoro a condizer. No último recipiente, surge a mão de um jovem adulto. As “idades do homem” do anúncio da Guinness resumem-se à primeira metade do percurso da vida: o lado solar. Não há sinal nem de velhice nem de último brinde.

Vídeo 2. Marca: Guinness. Título: Ages of man. Reino Unido, 1970.

No anúncio Evolution (2006), da Renault, uma criança gatinha para a rua. Cresce à medida que muda de cenário. Na parte final, após uma espécie de Parkour, transforma-se, quase adulto, num automóvel. O percurso de vida é, mais uma vez, suspenso a meio, longe da velhice.

Vídeo 3. Marca: Renault Clio. Título: Evolution. Agência: Publicis Brussels. Direcção: Style War. Bélgica, Março 2006.

Em meados de Outubro de 2017, saíram dois anúncios que versam sobre as idades da vida.

O anúncio português Como lavar roupa com melhores resultados, da Ariel, inicia com uma criança a gatinhar, depois a andar, culminando com uma mulher que corre e dá lugar a uma atleta equipada com as cores nacionais. Energia, eficácia, progresso e performance. Uma ascensão sem queda num guião assoberbado pelo amanhecer da vida.

Vídeo 4. Marca: Ariel. Título: Ariel apresenta A+. Agência: Carat Portugal. Portugal, Outubro 2017.

No anúncio Good Things Come to Those Who Don’t Wait, do Wall Street Journal, a referência às idades da vida é evidente. Começa com um nascimento, “antes do tempo”, num táxi. O bebé cresce, por etapas, a um ritmo vertiginoso. A cada etapa é associada uma actividade: mamar, andar, explorar, jogar, namorar, estudar, trabalhar, investir… A curva termina na juventude adulta. O anúncio desenha a sua própria teoria: uma escada que só sobe até ficar sem degraus. Configura um elogio da aceleração, da conquista, da pró-actividade e da juventude empreendedora. Um anúncio que sabe o que pretende: Don’t wait for opportunity. Create it. Get the news, tools and insight you need to get ahead—because good things come to those who don’t wait (Wall Street Journal).

Vídeo 5. Marca: Wall Street Journal. Título: Good Things Come to Those Who Don’t Wait. Agência: The&Partnership.USA, Direcção: Ellen Kuras. Outubro 2017.

Vídeo 6. Marca: Guinness. Título: Surfers – Good Things Come to Those Who Wait. Agência: Abbott Mead Vickers. Direcção: Jonathan Glazer. Reino Unido, 1999.

O mundo é uma Hidra e um Janus. Muitas cabeças com muitas faces. O anúncio Good Things Come to Those Who Don’t Wait dialoga com o anúncio Surfers – Good Things Come to Those Who Wait, da Guinness, considerado um dos melhores anúncios britânicos de sempre. A pressa de futuro e a espera do momento.A maioria destes anúncios tende a suspender ou eclipsar o  envelhecimento. As figuras 14 e 15 ilustram este jogo de sombras. Na imensidão da Internet, mal surgiu a primeira imagem com as idades da vida (Figura 14), logo outra a recompõe (Figura 15). A cada segmento etário a sua luz: solar na juventude, lunar na velhice.

Karthik – Goolgle +. Idades da Vida

14. Karthik – Goolgle +. Idades da Vida

Idades da Vida

15. Idades da Vida

Não sabemos que envelhecemos? Que a morte nos aguarda? Saber, sabemos, mas o que sabemos nem sempre é o que nos orienta. Saber que nos espera a morte não nos impede de viver segundo outras verdades. O fumador conhece os malefícios do tabaco, nem por isso deixa de fumar. Na vida, o saber vale muito; o desejo e a vontade, também.

Valoriza-se a alvorada; desvaloriza-se o crepúsculo. O homem contemporâneo não se quer “ser para a morte” (Martin Heidegger) mas filho da madrugada. Importa “agarrar a vida”, não a deixar fugir. “Viva a viva” é nome de filme, de canção, de barco, de hotel… É lema de uma visão do mundo. Viva a vida, morra a morte! O ser humano é um animal que se ilude. Nenhuma sociedade anterior se empenhou tanto no afastamento e no encobrimento da morte. Cavou-se a “separação entre o mundo dos mortos e o mundo dos vivos” (Philippe Ariès, 1975. Essais sur l’histoire de la mort en Occident, Paris, Seuil). Isolam-se os cemitérios, aumenta “a solidão dos moribundos” (Elias, Norbert, A solidão dos moribundos,1972). Reduzem-se ou eliminam-se os sinais de luto. Da morte, conhecemos cada vez mais uma máscara, a máscara do carnaval dos vivos, como o Halloween, e a máscara dos media, como a saga Twilight. A máscara faz ecrã, encobre como um véu (Balandier, Georges, Le pouvoir sur scènes, 1980). Mesmo quando sentimos a foice a passar rente, insistimos em acreditar na lonjura da morte. O homem é propenso a acções não lógicas (Pareto, Vilfredo, 1916, Tratado de Sociologia). Reduzir a luz que incide sobre as últimas etapas da vida humana parece ser um vício das sociedades contemporâneas. Apagar a luz não adormece a morte. Desperta os fantasmas ( (Thomas, Louis-Vincent, 1979, Civilisation et divagations. Mort, fantasmes, science-fiction, Payot).

Para analisar um texto ou uma imagem importa ver o que lá está e o que lá não está. Também importa levantar, de vez em quando, o olhar para não esquecer o mundo.

Acentuar a juventude e a vida em detrimento da velhice e da morte releva de um imaginário, de uma encenação e de uma pragmática bastante influentes na sociedade actual. Não deixa, contudo, de ser uma perspectiva entre outras.

Apesar das tendências em contrário, a maioria dos idosos ainda é acompanhada na vida e na morte. Cuidamos dos vivos e dos mortos e a interacção entre gerações é uma realidade. As pessoas vão ao cemitério cuidar das sepulturas, rezar pelos mortos e estar com os vivos. Em muitas freguesias, o cemitério afirma-se como um dos principais locais de encontro. A necrologia é a parte mais consultada nos jornais regionais. Há concelhos com menos de 10 000 habitantes em que morre uma pessoa dia sim, dia não. Resulta difícil ignorar a morte.

Associada à psicanálise, a noção de analisador diz respeito a uma fonte de informação que nos dá acesso à natureza do todo. Não precisa de ser geral, nem tão pouco notória. Há alguns anos, numa freguesia portuguesa, o jardim de infância e a morgue coexistiam paredes a meias. Este caso, excepcional, revela até onde pode ir a proximidade entre a “comunidade dos vivos” e a “comunidade dos mortos”. “Um caso particular do possível” (Gaston Bachelard).

 

 

 

Morte social

Louis-Vincent Thomas

Louis-Vincent Thomas

“Nunca estou só com a minha solidão” (Georges Moustaki, La Solitude, 1971).

Este anúncio é  poesia com imagens. Há séculos que se faz poesia com imagens. Agora, também.

A solidão pode aproximar-se da morte social (Louis-Vincent Thomas, Anthopologie de la mort, 1975).

Perdura, é verdade, a vida biológica, mas afrouxam-se os laços sociais e o sentido da vida. O mundo perde calor.

Marca: Les petits frères des pauvres. Título: Poisson d’Avril. Agência Euro RSCG. Direcção: Christelle D’Aulnat. França, 2001.

Viver envelhece

garnierO próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela (Fernando Pessoa, Bernardo Soares, Livro do Desassossego, São Paulo, Centauro, 2013, p. 178)

Viver envelhece! Cansa! Já desconfiava. A não ser que aconteça um milagre comercializável. Já imaginava.

“Viver sempre também cansa”, escreve José Gomes Ferreira, poeta que brilha na minha noite de todas as luas. Trago na minha pobre memória um dos seus versos: “Os pássaros quando morrem caem no céu” (Poesia I).

A testomania é um conceito criado por Pitirim A. Sorokin, grande sociólogo do séc. XX que, pelos vistos, não cabe na nossa inteligência. Testomania, o apego excessivo aos testes (estatísticos). Pois, a testomania está a passar pela publicidade. Engendram-se testes e mais testes para justificar pela experiência aquilo que a razão não consegue argumentar pela lógica.

Marca: Garnier. Título: Into a woman’s skin. Agência: Publicis Conseil (Paris). França, Março 2015.

Viver Sempre também Cansa

“Viver sempre também cansa!
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde…
Mas nunca tem a cor inesperada.
O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.
As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.
Tudo é igual, mecânico e exacto.
Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.
E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida…
E obrigam-me a viver até à Morte!
Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois, achando tudo mais novo?
Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.
Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
“Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela.”
E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo…”

José Gomes Ferreira, viver sempre também cansa, 1931.

Envelhecimento

“Tudo o que era sólido e estável é abalado, tudo o que era sagrado é profano, e os homens são finalmente obrigados a encarar as suas condições de existência e as suas relações recíprocas com olhos desencantados” (Marx, Karl & Engels, Friedrich, 1848, Manifeste du Parti Communiste, trad. por Laura Lafargue, Paris, V. Giard & E. Brière, Libraires-éditeurs, 1897, minha tradução).

Kate Transue. The Old Man. 2012.

Kate Transue. The Old Man. 2012.

O tempo passa inexoravelmente. Tudo envelhece: os ossos, a vista, os ouvidos, os dentes, os rins, o coração, os pulmões, os músculos, a pele, os cabelos, a memória…  Atormentamo-nos com desejos de ontem e recursos de amanhã. Até que um dia, sem dar conta, sentamo-nos num banco do jardim da velhice, a sentir a vida acontecer enquanto acontece. Como nunca.