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Bem-estar animal

« Na produção de ovos, as galinhas poedeiras são sistematicamente abatidas por volta dos 18 meses, idade a partir da qual se tornam menos produtivas, logo menos rentáveis, quando podem viver, em média, 6 anos (…) A start-up compromete-se a alimentá-las, alojá-las, cuidar delas, durante toda a sua vida graças à venda dos ovos Poulehouse” (Poulehouse).

O anúncio L’Oeuf qui ne tue pas la poule, da Poulehouse, é uma iniciativa ética e estética notável. Um belo gesto, uma bela história e uma bela animação. Confesso não conhecer nenhum criador de galinhas que espere pela sua morte natural. Aguarda-se pelo direito à vida e à reforma dos frangos.

Há animais felizes. “A Queijaria de Melgaço cria cabras em ambiente de SPA” (Alto Minho TV). Têm música ambiente, massagens, espaços diversificados… Cabras descontraídas dão mais e melhor leite.

“As cerca de 400 cabras são massajadas e ouvem música relaxante, num autêntico ‘parque anti- stress’. O agradecimento é uma média diária de 250 litros de leite de qualidade, que originam seis variedades de queijo” (Alto Minho TV).

Alto Minho TV. Queijaria de Melgaço cria cabras em ambiente de SPA. Maio 2017.

O túnel da memória

O Túnel

O património e a memória estão na moda. Se tivesse um filho, se fosse rapaz chamava-lhe Património, se fosse rapariga, chamava-lhe Memória. Em Portugal, retenho três exemplos: o Arquivo dos Diários, em Lisboa; a Casa da Memória, em Guimarães; e o Espaço Memória e Fronteira, em Melgaço. Embora os arquivos, os documentos e os testemunhos tendam a ser familiares ou pessoais, a memória visada é a memória colectiva (Maurice Halbwachs, Les cadres sociaux de la mémoire, 1925).

Esta exposição, localizada num túnel que foi um abrigo durante a Segunda Grande Guerra em Zagreb, é um caso emblemático. Com uma extensão de 350 metros no interior de um túnel (Gric) com mais de um quilómetro de comprimento, a exposição aborda 133 anos da história da Croácia, recorrendo a uma diversidade de fontes. O resultado é espectacular. Mais de 103 000 pessoas visitaram a exposição; 5 370 deixaram relatos pessoais. Foi a exposição mais visitada na Croácia durante o ano de 2017.

A entidade promotora da exposição foi a companhia de seguros Croatia Osiguranje. As empresas privadas projectam-se, cada vez mais, na esfera política (apoio a causas) e na esfera da cultura (criação de instituições e eventos culturais). À “indústria da cultura” produzida à maneira da indústria acrescenta-se a cultura produzida pela própria indústria. O que não é sem consequências ao nível do protagonismo do Estado.

Marca: Croatia Osiguranje. Título: The Tunnel. Agência:  Bruketa&Zinic&GreyBrigada, Millenium Promocija. Croácia, Novembro 2017.

Vulnerabilidades. Feliz dia do pai, mãe!

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São raros os anúncios dedicados às famílias monoparentais, apesar de serem muitas e respeitáveis! Segundo o censo de 2011, existem em Portugal 480 443 famílias monoparentais (298 141 com pelo menos um filho menor de 25 anos); 416 343 só com a mãe; 64 100 só com o pai; o número de famílias monoparentais tem aumentado a um ritmo acelerado: em 1991, havia 254 261 famílias monoparentais, vinte anos depois são quase o dobro (+89%). Em 2011, no total das famílias com filhos, uma em cada cinco era monoparental (Delgado, Anabela & Wall, Karin, 2014, Famílias nos Censos 2011: Diversidade e Mudança, Lisboa, Instituto Nacional de Estatística / Imprensa de Ciências Sociais, p. 179).

Porquê tamanho apagão em tempos de fogo-de-artifício? As famílias monoparentais não são vulneráveis? O reconhecimento de vulnerabilidade propicia visibilidade nas causas públicas, mas as famílias monoparentais parecem não caber nos chavões dos movimentos sociais, nem nas ideologias da verdade redentora, nem nos lampiões da ordem cívica. As famílias monoparentais compõem uma realidade cinzenta, que não sobressai no branco, nem sobressai no preto. Uma realidade quase invisível. A este nível, estamos muito abaixo de nós mesmos! Continuamos embarcados no espetáculo de uma sociedade “pós-moderna” que navega na espuma dos dias.

Este anúncio, promovido por uma empresa neozelandesa de telecomunicações, a Spark, é uma excepção. Não para de crescer o contingente de empresas com fundações vocacionadas para a responsabilidade social. Num aspecto, o balanço é positivo: o alargamento das causas e das vulnerabilidades. Tanto mais positivo quanto a nobreza de toga que “nos” governa parece andar mirolha no seu perfume a mofo.

Ficava-me bem parar de escrever disparates. Quando muito, devia escrever apenas com tinta de limão, aquela que só se lê quando os dedos queimam. Era mais avisado assistir ao Muppet Show! Mas os Marretas de agora passam, sem graça nenhuma, nos telejornais.

Post scriptum: Recorro frequentemente à expressão “nobreza de toga” (do francês, noblesse de robe). Na França pós-medieval, a nobreza de toga distinguia-se da nobreza de armas. A nobreza de armas desempenhava funções militares e ostentava títulos hereditários ancorados no tempo. A nobreza de toga acedia ao aparelho de Estado através da compra (e venda) de cargos nobilitantes e da obtenção de diplomas académicos (com direito a toga). Como sublinha Lucien Goldmann (1955, Le Dieu Caché, Paris, Gallimard), a nobreza de toga estava dependente do aparelho de Estado, de cuja dinâmica lhe advinham as glórias e as tragédias. Os nobres de toga lembram, vagamente, os apparatchik da União Soviética.

Marca: Spark. Título: Celebrate Family. Agência: Colenso BBDO. Nova Zelândia, Setembro 2017.

Flor de laranjeira

benettonAs empresas e os empresários parecem regressar a Henri de Saint-Simon, para quem o dever dos industriais e filantropos é concorrer para a elevação material e moral dos proletários, em nome da moral. A aposta da Benetton nas boas causas não surpreende. Acumula décadas de experiência. A filantropia das marcas invade a publicidade atual. As boas causas rendem. Agora, como na Antiguidade, na Idade Média e na Idade Moderna. Este anúncio faz jus à tradição da Benetton. O quid pro quo insinua-se como uma obra-prima que baralha a nossa “definição da situação” (W. I. Thomas; H. Blumer). O anúncio estreou no dia 25 de Novembro, Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres, promovido pela ONU. Importa, mesmo assim, não esquecer o Padre António Vieira:

“O pregar, que é falar, faz-se com a boca; o pregar, que é semear, faz-se com a mão. Para falar ao vento, bastam palavras; para falar ao coração, são necessárias obras” (Padre António Vieira, Sermão da Sexagésima, 1655).

Marca: Benetton. Título: End Violence Against Women Now. Agência: Fabrica. Internacional, Novembro 2014.

ARE YOU A LIKER OR A DO-ER?

LENOVOARE YOU A LIKER OR A DO-ER? Segue a chamada (vocação). Atende à revelação. “Make your DO come true”. Serás empreendedor, ídolo ou santo. PALAVRA DE EMPRESA! Assim vai a publicidade: interacção, performance, simulação, circo, caridade, responsabilização, intervenção, concurso… Desde que o isco funcione. Trata-se de uma reactualização do espírito do capitalismo. MORDE! CONCORRE! A EMPRESA vela por ti.

Marca: Lenovo. Título: Make your DO come true. Agência: Fitzroy Amsterdam. Holanda, Março 2014.

A Cadeia do Bem

Innocence. The Chain of Good.Quando o Estado Social definha, alguém o substitui? A iniciativa privada?Quem acompanha os anúncios publicitários não tem dúvidas. Um dia virá em que pagaremos as esmolas! Compra o produto certo e abres uma sucursal do paraíso na terra e um par de asas no céu. Se escolheres outro produto, és um pecador insensato que desencadeia as labaredas infernais da gasolina e do gás. Enquanto o Estado se comporta como um Santo Antão atormentado pelos mafarricos, o capital assume-se como uma reencarnação de São Mateus. Na publicidade, este esquema parece estar a dar bons resultados.
Estes anúncios da campanha The Chain of Good, da Innocent Smothie, estão bem concebidos. Com ares de Flower Power, oferecem-se leves, lestos, divertidos e assertivos, com uma ponta de ironia que faz a diferença.

Marca: Innocent Smoothies. Título: The Chain of Good – Peru. Agência: 101. Direção: Max Joseph. UK, Janeiro 2014.

Marca: Innocent Smoothies. Título: The Chain of Good – Uganda. Agência: 101. Direção: Max Joseph. UK, Janeiro 2014.