Liberdade sem freio

Numa sociedade que se diz avessa a grandes narrativas, proliferam grandes teorias omnívoras. Temos profetas! Profetas como, a seu tempo e a seu modo, Karl Marx ou Auguste Comte. Só não falam o mesmo idioma. Trata-se de um negócio intelectual interessante: vendem-nos armaduras como se fossem t-shirts (Albertino Gonçalves).
O escocês Alexander Sutherland Neill (1883-1973) foi um escritor e educador visionário. Entendia que os alunos deviam ser livres e responsáveis. Livres de aprender o que, quando e como desejassem e responsáveis do seu destino, participando ativamente nas decisões da escola. Estava convencido que a falta de liberdade e de responsabilidade é atrofiadora. À semelhança de alguns utopistas do século XIX, passou da teoria à prática, realizou a ideia. Criou uma escola pioneira; Summerhill. O livro, publicado em 1960, advoga esta Liberdade sem medo (Summerhill: A Radical Approach to Child Rearing). Curiosamente, o prefácio foi escrito por Erich Fromm, autor do livro O Medo à Liberdade (Escape from freedom, 1941).

O livro Liberdade sem Medo acertou na minha costela anarcoide. Quando leio um poema de Jacques Prévert, vejo um filme do Jacques Tati, percorro as tiras da Mafalda ou oiço o Another Brick in the Wall dos Pink Floyd, penso no Alexander S. Neill.
Uma criança, um aluno, não é uma tábua-rasa, para retomar o termo de Émile Durkheim.
“A educação tem como objetivo sobrepor ao ser individual e associal que somos ao nascer um ser inteiramente novo. Deve conduzir-nos a ultrapassar a nossa natureza inicial: é nesta condição que a criança se tornará um homem” (Émile Durkheim, Éducation et Sociologie, 1911).
A criança não é papel mata-borrão. A sua vocação não se resume ao processamento de informação. Quer-me parecer que nos últimos tempos temos cultivado essa falácia. Muito modelo, muita multiplicação.
“Uma educação capaz de desenvolver o julgamento e a vontade é perfeita, quaisquer que sejam as matérias ensinadas. Com estas qualidades, o homem sabe orientar o seu destino. Vale mais compreender do que aprender » (Gustave Le Bon. Hier et demain: pensées brèves. Paris, Flammarion, 1918).
Por falar em Jacques Tati, junto um vídeo com alguns excertos do filme Les Vacances de Monsieur Hulot (1953).
Esfera de intimidade
A propósito do espaço pessoal que envolve os indivíduos, Emile Durkheim fala em “muralha de honra” e Georg Simmel em “esfera de intimidade”. Edward T. Hall estuda as distâncias interpessoais em dois livros: A Linguagem Silenciosa (1959) e A Dimensão Oculta (1966). A intrusão em determinado espaço pessoal gera, no mínimo, desconforto. A forma e a dimensão do espaço pessoal varia consoante a cultura, o estatuto social e as circunstâncias. Os anúncios do Seat Altea (Espanha, 2006) e da VLCC (2015) convocam, cada um a seu modo, a noção de esfera de intimidade. O anúncio da Seat recorre à expressão “espaço vital”, mas é uma expressão de triste memória.
Marca: Seat Altea. Título: Bubbles. Agência: Atletico International Barcelona. Direcção: Stylewar. Espanha, 2006.
Meio cheio
A filantropia parece insinuar-se na moda. Há dias a Coca-Cola, agora a Nokia, ambas a pintar-nos como anjos aureolados de optimismo. O que não é incompatível com os ventos de crise que nos fustigam. Não, não é! Assim rezam os oráculos: Émile Durkheim e Raymond Boudon constam entre os sociólogos que abordaram este paradoxo (por que é que há mais suicídios em períodos de crescimento económico do que em períodos de crise?). Corações ao alto! Corações abertos…
Repare-se, já agora, no protagonismo crescente das letras no desenho do ecrã.
Produto: Nokia Lumia. Título: Little Amazing Show, Berlin. EUA, Janeiro 2012.

