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Dobras de sofrimento

Mourning women in the tomb of Vizier Ramose, Amarna period. Photo VB

01. Mourning women in the tomb of Vizier Ramose, Amarna period. Photo VB.

Existem várias formas de lamentar a morte. Desde a encenação dramática da dor (Figura 1) até ao recolhimento íntimo do sofrimento. Nas figuras 2 a 7, o manto e o véu cobrem quase todo o corpo, incluindo o rosto. Mas se ocultam a dor, também a manifestam. A intensidade do sofrimento imprime-se, precisamente, nas dobras, nas muitas dobras, dos mantos e dos véus. Configuram uma espécie de sismógrafos da agonia. Antes de Bernini, no túmulo de Filipe o Audaz, e depois de Bernini, nas esculturas dos cemitérios europeus, os mantos choram por si.

 

 

Duas gotas

Ford dos gotas

“Duas gotas iguais como duas gotas de água. A gravidade empurra-as para o vazio. Uma escolhe ser uma linha reta para chegar primeiro. A outra desvia-se para desenhar a mais perfeita das linhas. Duas gotas que nunca foram iguais como uma gota de água”.

“Kinetic Design, a nova corrente de desenho da Ford, desenha a linha dos seus automóveis a partir do movimento.”

A curva e o movimento, o traço do barroco na publicidade automóvel

Marca: Ford. Título: Dos gotas. Agência: JWT Argentina. Direcção: Pucho Mentasti. Argentina, 2009.

A arte de escolher as cadeias

H&M. Go gree. Wear blue.

La liberté c’est l’art de choisir ses chaînes” (Pascal / Nietzsche). E cada cadeia que quebramos é um novo espaço de liberdade que conquistamos. Este pensamento acompanha-me desde a adolescência. Sinto-me, porém, menos livre que outrora. Mudou a realidade? Mudou o sentimento? Tanto mandatário da liberdade, e apenas ouço o passo das formigas no chão.
Entre a liberdade e as cadeias não há soma nula. Com o tempo, perdi cadeias e liberdade. Sobra-me a liberdade de escrever para nada. Mal se começa a escrever para algo, logo os dedos ficam entalados e as palavras se encarneiram. Pensar para nada, escrever para nada, é o privilégio do espírito livre, o cúmulo da scholé, a distância à necessidade e à urgência de que fala Pierre Bourdieu.
Vêm estes apontamentos a pretexto do anúncio da H&M e a propósito da vida. O anúncio aposta num movimento sensorial, senão sensual, de dobra e abertura, de envolvimento e liberdade, com sobressaltos de sufoco e libertação. “Sê verde, veste azul”! Eis o pão nosso da liberdade responsável.

Marca: H&M. Título: Go green. Wear Blue. Produção: New Land. Direção: Gustav Johansson. Suécia, Setembro 2014.

Valsa mecânica

Este anúncio da Acura é magnífico. Antes de mais, visualmente. Mas também pelo jeito como a música se cola às curvas e as curvas se embalam na música. Quando este anúncio saiu, em 2007, andava eu às voltas com a figura da dobra na publicidade automóvel. Não sei como, na altura, me escapou. Consola-me, no entanto, constatar que não perdeu qualidade com o tempo. Para ver o anúncio, carregar na imagem.

Acura. Smiles

Marca: Acura. Título: Smiles. Agência: Rubin Postaer & Associates. Direção: Gérard de Thame. Pós-produção: Mac Guff Paris. Outubro 2007.

 

Bailado do carro com a água

Alguns dos meus escritos convocam anúncios publicitários. É o caso de “Dobras e Fragmentos: A turbulência dos sentidos na publicidade automóvel”, publicado em 2007 e retomado em Gonçalves, Albertino (2009), Vertigens, Coimbra, Grácio Ed., pp. 47-60. Muitos desses anúncios não são de acesso fácil. Entendi por bem publicar os mais expressivos.

“Uma gota cai num espelho de água desencadeando uma ondulação que cresce até se transformar numa enorme concha que cobre um carro. A concha desfaz-se em vaga e o carro arranca, sulca a água e desaparece deixando uma espécie de holograma evanescente. Este bailado do carro com a água é acompanhado por uma banda sonora capaz de estimular os neurónios mais entorpecidos” (Gonçalves, 2009: 49).

Produto: Nissan Infiniti. Título: The G Forces of Nature. Agência: TBWA Rússia. Rússia, 2007.

Quando a linha recta não é a distância mais curta

Se quer ser entendido, diga-o de outro modo. Sem ir directo ao assunto. A linha recta é a distância mais curta entre dois pontos na geometria, mas não na comunicação. E a preguiça, tal como a cortiça, é muito má condutora. Se quiser desafiar um espectador, surpreenda-o. Faça-lhe cócegas, agite-lhe a atenção. Faça dobras e desvios onde não é preciso. Instruir o público ou massajá-lo não basta. O espectador passivo não existe. Tão pouco o espectador racional. São ambos mitos de investigadores de mitos. Se quer ter sucesso, pegue numa pitada de ideia do produto, esqueça-se do resto e cozinhe com criatividade sem empapar. Mais ou menos como este anúncio de sensibilização romeno. Associar a falta de sangue para transfusões a um tremor de terra requer imaginação.

Marca: React. Título: earthquake. Agência: Graffiti BBDO, Romania Carlo Production. Direcção: Hypno. Roménia, Outubro 2011.