Identidade, alteridade e virtualidade

A publicidade pode ser instrutiva. Acontece com os anúncios “New Dawn”, da Hyundai, e “Un-Australia”, da Meat & Livestock Australia, que ilustram duas noções elementares das ciências sociais, que passo a resumir.

O valor de uma palavra provém do carácter distintivo dos seus usos virtuais. Simplificando, uma palavra vale quando permite dizer algo que as outras palavras não conseguem (a partir de F. Saussure, Cours de Linguistique Générale, 1916).
A identidade não remete para uma essência mas decorre da relação com os outros, com a alteridade. Simplificando, somos o que somos menos pelas semelhanças e mais pelas diferenças (a partir de C. Lévi-Strauss, L’ Identité, 1977).
Harmonium: Histórias sem palavras | Como um tolo

Tenho uma memória instantânea de grilo ou, se se preferir, de galinha. Em contrapartida, não me queixo da memória que apelido subterrânea, arqueológica. Os fantasmas do mais recôndito purgatório do passado acodem-me à consciência como pirilampos, emergindo sem convite nem cerimónia.
Acaba de acontecer com os Harmonium, um grupo francófono do Québec (Canadá), criado em 1972 e ativo até 1978. Publicaram três álbuns de estúdio: Harmonium (1974); Si on avait besoin d’une cinquième saison (1975); e L’Heptade (1976). O rock progressivo dos Harmonium aproxima-os de bandas tais como os Camel ou os Renaissance, mas com muito menos reconhecimento. À semelhança de outras bandas, reuniram-se cerca de quarenta anos depois, já mais amadurecidos, para reeditar álbuns e tocar em concertos ao vivo. Seguem: 1) um pequeno excerto do concerto sinfónico Harmonium Symphonique, publicado em 2021; 2) a interpretação integral ao vivo, em 2017, da música Histoires sans paroles (original de 1975); e 3) a canção Comme un fou, remasterizada, do álbum L’Heptade (1976).
Muito poucos conhecerão a música dos Harmonium. Passados tantos anos, reconheço-me nela. Acredito que nos identificamos menos pelo que comungamos e mais pelo que nos distingue.
Progressivo e psicadélico

Há grupos de rock que parecem deslocar-se com os sinos de Mafra: os Beatles, os Rolling Stones, os Pink Floyd… Outros batem à porta da memória com dedos de algodão. É o caso dos britânicos Van Der Graaf Generator e Nektar. Perdura, contudo, alguma influência junto de alguns segmentos herdeiros do rock progressivo e psicadélico. Ressoam, por exemplo, no festival SonicBlast, de Moledo do Minho. Se gosto da música? O ouvido esquerdo gosta, o direito, não. Por que publicar? Pela dialética do reconhecimento e do estranhamento. Os Beatles, os Rolling Stones e os Pink Floyd não há quem não os reconheça. Convocá-los é iniciar uma valsa num jogo de espelhos. No blogue, garantem picos de visualização. Os Van Der Graaf Generator e os Nektar estranham-se. As visualizações afundam-se. Um abismo distintivo mas com interesse. O desgosto, bem temperado, faz falta. Os gostos não são como os colarinhos; dispensam andar engomados. A mesmidade repete-se, regala-se e pasma.
A dança do gineceu
Depois do anúncio androcêntrico da Guinness (Bring it to life), segue um anúncio ginecêntrico da Kotex (2K evolution), com e para mulheres, e realizado por mulheres (direção criativa: Alexandra Araburú; produção: Claudia Kolich). Por iniciativa da Kotex, na capital do Perú, “um mar de chicas bailaron sincronizadas a lo largo de 2 kilometros. Primera maraton coreografica del mundo. Encabezo el grupo Vania Masias, la siguieron más de 600 chicas!”. Qual o objetivo? “We want to celebrate the new role of the woman in our society. This new woman with more attitude, that is free and secure on their actions. So anyone with her unique style can express her own femininity. And the best way to show the people that the women’s are celebrating is dancing”. Homens? Só um ou outro emplastro a assistir. Estereótipo por estereótipo, os homens lançam foguetes, martelam, rasgam a terra, abrem conchas e erguem árvores, à boa maneira das análises de Sigmund Freud e de Gilbert Durand. As mulheres dançam, sorriem, expressam-se. “Celebram a sua feminidade”. Registe-se que a publicidade aposta cada vez mais neste tipo de (mega) performances coletivas.
Marca: Kotex. Título: 2k evolution. Agência: Marca Registrada. Perú, Maio 2012.
Ideias simples com impacto
Eis um poster minimalista, mas impressionante, que retirou o tema (a cega e mortífera roleta russa) do banco dos símbolos consagrados. Se quer viver, o melhor é não arriscar: não beba! A mensagem é demasiado óbvia, mas era preciso pensá-la. Assim surgem boas ideias: não é preciso inventá-las, basta desencantá-las.
O outdoor da Pepsi Light também alinha, embora menos, pela simplicidade. Um conjunto de mulheres entrega-se ao exercício físico. Todas? Não, uma não precisa, bebe Pepsi Light. A única em fato de banho. Moral da história: Pepsi Light mantém-te em forma.
Os anúncios veiculam várias mensagens, sendo algumas “parasitas”. Neste caso, a Pepsi arrisca um ónus: o efeito da desvalorização pública do exercício físico. Mas habilita-se a um bónus: a a bebedora Pepsi Light destaca-se da multidão. Este efeito distinção configura um brinde muito prezado na publicidade.



