Recordações do liceu Sá de Miranda

Esparsa
Não vejo o rosto a ninguém,
cuidais que sou, e não sou.
Sombras que não vão nem vêm,
parece que avante vão.
Entre o doente e o são
mente cada passo a espia;
no meio do claro dia
andais entre lobo e cão.
(Sá de Miranda)
Revolvo o passado. Por estímulo alheio. O Facebook conduziu-me às publicações de agosto 2021 (Jogar às cartas com o Diabo 1 a 5), a Almerinda Van Der Giezen desencantou esta entrevista de 2014: O ensino depois da Revolução. O Fernando precisou que já me tinha mostrado a fotografia. A minha memória parece uma peneira que só retém o restolho.
A vida está cheia de ruturas e viragens, mas, pelos vistos, persistem algumas linhas de fundo. Por exemplo, a alergia à disciplina e o amor, entre outros, à arte.
Reparo que me tenho autocentrado demasiado. Quase sem convívio, propicia-se o diálogo comigo mesmo. Por acréscimo, experiências recentes inspiram-me a apostar menos na invisibilidade.
Neste mundo (no outro, não sei), para que serve e a quem serve a humildade? Não resulta de escassa utilidade para o próprio? Não tende a prejudicá-lo e a beneficiar os outros? Quem prega a humildade? A quem? Pregar a humildade não costuma ser uma iniciativa de humildes.
A despropósito, as palavras humilde e humilhado partilham a mesma raiz etimológica. Ambas derivam do adjetivo humilis (perto do solo) associado ao vocábulo humus (terra ou solo). Humilde significa perto do solo, sem elevação excessiva; humilhado, remetido para o solo, rebaixado.
Na banda desenhada, por exemplo, existem personagens que brilham pela humildade ou, até, humilhação, tais como o Pateta, o Felipe e o Charlie Brown ou Calimero e o Cascão.
O Tendências do Imaginário funciona não só como diário, mas também como arquivo. Faltava esta peça. Para aceder à entrevista, carregar na fotografia acima ou no seguinte endereço: https://ensinopij1314.weebly.com/vocaccedilatildeo.html.





Bebés desportistas

“E ao fim de cinco anos… Portugal voltou a ter mais bebés” (http://www.dn.pt/sociedade/interior/e-ao-fim-de-cinco-anos-portugal-voltou-a-ter-mais-bebes-4984930.html), acedido 01.08.2016.
“Estimativas do Instituto Ricardo Jorge, feitas com base nos “testes do pezinho”, realizados no âmbito do Programa Nacional de Diagnóstico Precoce, nasceram em Portugal, no primeiro trimestre deste ano, 20.992 crianças, mais 7% do que nos três primeiros meses de 2015. No ano passado, o crescimento face a 2014 já tinha sido de 4%” (http://rr.sapo.pt/noticia/52492/estao_a_nascer_mais_bebes_em_portugal_mas_falar_em_baby_boom_e_exagero), acedido, 01.08.2016).
“Há uma tendência de inversão e não foi só porque o número médio de filhos por mulher aumentou: há também uma diminuição da emigração e um aumento da entrada de imigrantes” (Maria Filomena Mendes, Presidente da Associação Portuguesa de Demografia, https://www.publico.pt/sociedade/noticia/portugueses-continuam-a-envelhecer-e-a-diminuir-apesar-de-terem-nascido-mais-bebes-1735304), acedido 01.08.2016.
É motivo de notícia a inversão de tendência da natalidade em Portugal. Vem a preceito um anúncio recente da Nike: Unlimited Future. Na sala, estão dezenas de bebés geometricamente dispostos. Um homem omnisciente discorre sobre o futuro. Predestinação? Aplicação? Alguns bebés já estão identificados com nomes de celebridades… Qual o resultado desta puericultura empreendedora? Um futuro sem limites? Um admirável mundo novo? Um desportista atlético, disciplinado, competitivo, sempre a ultrapassar a sombra.
Marca: Nike. Título: Unlimited Future. Agência: Wieden + Kennedy. USA, Julho 2016.
O Tempo e a Morte
Este vídeo dos Tangerine Dream, The Return Of The Time (2010), incide, de um modo insólito, sobre a morte. Está-nos vedada a percepção da morte. Apreendemos o moribundo e o cadáver, mas não a morte. Omar Calabrese escreve sobre a tentativa infrutífera de retratar a morte por parte dos artistas (“Representação da morte e morte da representação” in Como ler uma obra de arte, Edições 70, 1997, pp. 81-96). Esta falha justifica a proliferação de representações da morte. O esqueleto é a mais habitual.
O vídeo aborda a morte de uma forma inesperada. Replicada, burocrática, arregimentada, a morte parece um exército ou uma companhia de bailado. Difere das danças macabras medievais, onde não existe quietude, disciplina ou sincronia. A morte, à solta, tocava em tudo e em todos. Vivia-se o “triunfo da morte”. Agora, a morte domesticada tem dificuldade em regressar ao túmulo. A cada tempo, a sua morte. Nós somos os pastores da morte etiquetada e cronometrada. Triunfo do tempo? Da razão? De qualquer modo, uma morte estranhamente humana.
Tangerine Dream. The Return Of The Time. 2010.
Onde os homens?
Os vídeos sobre os prodígios do planeta encantam, mas deixam um travo amargo. Onde estão os homens?
“Donde los hombres?”, cantam os Aguaviva, a partir de um poema de Rafael Alberti: Balada para los poetas andaluces de hoy. A música é de 1970. Segue o ficheiro áudio.
Aguaviva. Poetas Andaluces de ahora. 1970.
“Donde los hombres?”Os Tangerine Dream, fundados em 1967, encontram cachos humanos. O vídeo Sorcerer (2014) assinala a estética da repetição e da domesticação. Os homens adestram-se, mais do que cães, normalizam-se, mais do que frangos, e arrebanham-se, mais do que carneiros. Os homens são operacionais. E os homens apinham-se para ver homens adestrados, normalizados, arrebanhados e operacionais. Valha-nos Deus!
Tangerine Dream. Sorcerer. 2014.
Balada para los poetas andaluces de hoy
¿Qué cantan los poetas andaluces de ahora?
¿Qué miran los poetas andaluces de ahora?
¿Qué sienten los poetas andaluces de ahora?Cantan con voz de hombre, ¿pero dónde están los hombres?
con ojos de hombre miran, ¿pero dónde los hombres?
con pecho de hombre sienten, ¿pero dónde los hombres?Cantan, y cuando cantan parece que están solos.
Miran, y cuando miran parece que están solos.
Sienten, y cuando sienten parecen que están solos.¿Es que ya Andalucía se ha quedado sin nadie?
¿Es que acaso en los montes andaluces no hay nadie?
¿Que en los mares y campos andaluces no hay nadie?¿No habrá ya quien responda a la voz del poeta?
¿Quién mire al corazón sin muros del poeta?
¿Tantas cosas han muerto que no hay más que el poeta?Cantad alto. Oireis que oyen otros oídos.
Mirad alto. Veréis que miran otros ojos.
Latid alto. Sabréis que palpita otra sangre.No es más hondo el poeta en su oscuro subsuelo.
encerrado. Su canto asciende a más profundo
cuando, abierto en el aire, ya es de todos los hombres.Rafael Alberti


