Filhos do Tempo: O Culto dos Mortos
Le temps passe et la mort vient (provérbio francês)

O Dia dos Fiéis Defuntos, dos Finados ou dos Mortos é amanhã, 2 de novembro, mas é hoje, Dia de Todos os Santos, que ocorre a maior afluência aos cemitérios. Provavelmente por virtude do feriado. A celebração é particularmente fervorosa no México, país onde a relação, a “comunhão”, com os familiares e amigos antepassados é experienciada, convivial, ao mesmo tempo, íntima e expressiva.

A origem dos Hermanos Gutiérrez, Alejandro e Estevan, não é mexicana: residentes em Zurique, a mãe é equatoriana e o pai suíço. Não obstante, assumem o México como referência. Uma viagem ao país, em fevereiro de 2020, “fue como ir a casa”. O álbum Hijos del Sol, estreado em setembro de 2020, inspira-se nos lugares e nas memórias do México. Foi precedido por uma curta-metragem de oito minutos realizada por Fernando Guisa… Incluindo quatro músicas, visa “desmitificar lo fatal de la muerte”.
Pelo tema, pela música, pela fotografia e, sobretudo, pela delicadeza, reservei o filme Hijos del Sol para comemorar este Dia no Tendências do Imaginário. Um gesto singelo em jeito de oração.
Cuidar dos mortos

O blogue Tendências do Imaginário é pouco interativo. É um dos seus defeitos. As exceções são bem vindas. A Salomé enviou-me esta ternura, uma curta-metragem dedicada às tradições do Día de los Muertos, no México. Confirma que os espelhos não são os únicos mediadores entre os vivos e os mortos. A comida, as velas e as flores também fazem a interligação. Passada amanhã, dia 1 de novembro, é o dia de Todos-os-Santos, da visita aos cemitérios, no dia seguinte, dia 2, comemora-se os fiéis defuntos, dia dos mortos. O ciclo começa hoje e amanhã, dias de flores e asseio das sepulturas. Convém embelezar e perfumar os mundos, cuidar dos mortos e dos vivos.
Amar após a morte

O anúncio mexicano Nunca Es Tarde Para Ser Quien Eres, da Doritos, estreado em vésperas do día de los muertos, quase me deixa sem palavras. Costuma dizer-se que “nem a morte nos separa” (ver https://tendimag.com/2014/02/03/nem-a-morte-nos-separa/), pois, agora, convém acrescentar que “até a morte nos reúne” (ver: https://tendimag.com/2015/12/07/so-a-morte-nos-reune/)! Apraz-me registar que, segundo a Doritos, entre o mundo da vida e o mundo da morte não existe apenas um espelho (ver: https://tendimag.com/2021/10/07/o-espelho-da-morte/), mas também um armário.
A dança da morte não se reume a uma fantasmagoria medieval. Continuamos a dar as mãos nessa sarabanda diabólica. Concluo este artigo com La Danza de los Muertos, dos Calexico.
Para onde vão os mortos?

Hoje, temos direito a um comentário trifásico.
No dia dos mortos, solta-se a sede de cerveja. Ontem, a Budweiser brasileira, hoje, a mexicana Victoria. “A dónde vamos ao morir?” Para o nada abismal ou para a vida eterna? Cristo desceu ao inferno e regressou. E ressuscitou ao terceiro dia. As almas aguardam, pacientes, o Juízo Final. E os mortos visitam-nos… A última viagem, a passagem, permanece a nossa inquietação. Original e criativo, tecnicamente esmerado, o anúncio da Budweiser fascina os nossos fantasmas: pelos vistos, pixel a pixel, existe uma ligação biunívoca entre os vivos e os mortos.
Melgaço regressa à “noite dos medos”, um delírio mais celta do que maia. A bebida, agora, é a queimada. A procissão lembra a Santa Companhia (https://tendimag.com/2016/12/26/em-companhia-da-morte/). Sob uma chuva dionisíaca, os vivos incorporam as almas e comemoram os mortos.
De origem mexicana, os “altares dos mortos” globalizaram-se. Homenageia-se quem é digno de memória. No Agrupamento de Escolas de Briteiros, erguem-se altares a uma diversidade de pessoas falecidas: Eusébio, Joaquim Agostinho, Amália Rodrigues, António Variações, Sophia de Mello Breyner Andresen, Steve Jobs, Edith Piaff, Camões, Martins Sarmento… Os mortos vivem no altar da memória, que, algum dia, também se apagará. Nem sequer falta o galo (https://tendimag.com/2016/10/19/o-galo-e-a-morte/)!
Diablo

Não existe dia mais apropriado do que o dia dos mortos para estrear o trailer do videojogo Diablo IV. Um grotesco de alta qualidade, que produz uma sensação de estranhamento vertiginoso rumo ao inferno. Se é muito sensível, dispense! Se é apenas um pouco sensível, veja só com um olho.
Fernando e Albertino
Feliz dia dos mortos!

Feliz dia dos mortos! Dancem, dancem a dança macabra! Treinem os fémures e as tíbias.
Para o vídeo, convém uma resolução de, pelo menos, 720p.














