Tag Archive | desejo

Morrer de prazer

Carlsberg. Snowman. 1998.

Substituindo a garrafa de cerveja por um cigarro, dava um bom anúncio anti-tabaco (AG, 2010).

Publiquei o anúncio Snowman, da Carlsberg, há nove anos no Facebook. Trata-se de um conto de Natal. Uma disforia que dispõe bem. É raro um final infeliz cobrir o coração de ternura e simpatia. Haja talento, inspiração e humanidade! Snowman confronta-nos com o desejo que transcende os limites, incluindo a morte, num contexto de regeneração cósmica: a cabana congeladora, a merenda na floresta, o arroto na água. Não fosse cómico, seria trágico. O anúncio é uma delícia, com sabor a amêndoas com licor.

Anunciante: Carlsberg. Título: Snowman. Agência: Saatchi & Saatchi. Director: David Borthwick. Dinamarca,1998.

O primeiro passo

Bianco. The Lift. 2019.

O anúncio dinamarquês The Lift, da Bianco, revela-se inteligente, criativo, original, minimalista, lento e convincente. A interacção no elevador peca por incomunicação verbal e não verbal. Desejo sem iniciativa, sentimento sem risco, corpos sem contacto. “Amor que arde sem se ver”. Convenha-se que a interpelação do outro, seja qual for a orientação sexual, é cada vez mais problemática. E, no entanto, a menina até perdeu o emprego por excesso de utilização do elevador. Feitos um para o outro e faltou-lhes uma acendalha. Aperta-nos este nosso cerco interior, sem janela nem tranca, que nos separa de quem nos atrai!

Marca: Bianco. Título: The Lift. Agência: & Co. Direcção: Daniel Kragh-Jacobsen. Dinamarca, Março 2019.

Estou em crer que se o elevador tivesse música, o desfecho seria diferente. O primeiro passo culminaria num passo de dança. A música reduz a censura dos afectos. Para ajudar, acrescento duas músicas do compositor irlandês Phil Coulter: In Loving Memory (1998) e Tranquility (1984).

Phil Coulter. In Loving Memory. Serenity. 1998.
Phil Coulter. Tranquility. Sea of Tranquility. 1984.

Novidade e originalidade

M.C. Escher, Circle Limit IV (1960) The angels and devils

M.C. Escher, Circle Limit IV (1960) The angels and devils.

O anúncio brasileiro Anjos, da Telefónica, é uma festa da memória. Lembra “as asas do desejo”, de Wim Wenders. Como poderia não lembrar? Nada expõe mais o homem do que o desejo. Desejar é o âmago de nosso ser (Sigmund Freud).

Olhos de crianças, inocentes e sonhadores, surpreendem anjos, uma ilusão feliz a partir de um ponto de vista enganador. Existem imensos anúncios com anjos, mas não os anjos de Escher, entrelaçados com demónios (Fig. 1). Em contrapartida, existem muitas ilusões inspiradas em Escher. Importa ver com o coração, como Pascal, Magritte e o principezinho.

A publicidade é a alquimia de todos os desejos. A intertextualidade fere a originalidade do anúncio? Antes pelo contrário. “Não me digam que não disse nada de novo, a disposição das matérias é nova. Quando se joga à péla um e outro jogam com a mesma bola, mas um coloca-a melhor” (Pascal, Blaise, Pensamentos, 696-22). Pouco originais são aqueles que enchem um armário com coisas novas, esvaziam-no e voltam a enchê-lo com novas coisas novas. Sempre o mesmo armário com coisas sempre novas.

Marca: Telefónica. Título: Anjos. Agência: DDB Worldwide. Brasil, 2001.

Máquinas desejantes

Convém ouvir baixinho, que a cruz ainda não recolheu.

Mordillo. Virgílio

Mordillo. “Cada um é arrastado pelo seu próprio desejo” (Virgílio).

José Gonzalez. Heartbeats. Veneer. 2003.

Corpo a corpo

levis-top

“Na guerra como no amor, só o corpo a corpo dá resultados” (Blaise de Monluc, 1501-1577).

Não conhecia a palavra “nomofobia”: medo ou angústia da privação da comunicação por celular ou por computador. Consta que esta “doença” não é rara nem meiga. Ainda jovem, era canónico criar as palavras compostas a partir de palavras antigas, normalmente gregas ou latinas. Atente-se, por exemplo, na palavra “nomotetia”. Remete para o estabelecimento de leis gerais; provém do grego; da palavra νόμος, lei, e do radical θη, postular, estabelecer (https://pt.wikipedia.org/wiki/Nomot%C3%A9tico). Na Sociologia, os estudos nomotéticos visam leis gerais e os estudos ideográficos incidem sobre casos. Na actualidade, as palavras tendem a ser geradas por colagem, ver bricolage, sem esmeros de etimologia. No artigo anterior, a palavra “Eatkarus” resulta da junção de “eat” (em inglês, comer) e Ikarus (figura mitológica). Nomofobia bebe nas mesmas águas. Nomofobia devia significar algo como medo da lei. Mas a palavra é uma geringonça que combina o inglês No-Mo (No-Mobile; sem telemóvel) e o grego fobos (φóβος). “É uma espécie de miscelânea”.

A dependência do celular é o mote do anúncio Sea of Blue, da Levi’s. A cor do filme não é arbitrária: « muito coerente na sua realização, o anúncio é banhado por uma luz azul, símbolo da ambivalência entre o real e o virtual: o azul da cor dos nossos ecrãs mas também do grande mergulho na vida, e, naturalmente, da ganga da marca” (http://www.culturepub.fr/levis-plonge-dans-la-vie-reelle/).

Junto à piscina, todos os convidados estão concentrados nos celulares. Todos? Menos dois jovens : um rapaz e uma rapariga. E o que começa com uma paródia da comunicação insular acaba num turbilhão carnal em “mar azul”. Agarra o momento, solta o corpo, excita a vida!

Marca: Levi’s. Título: Sea of Blue. Agência: FCB West. Direcção: Laurent Uchrin. USA, Fevereiro 2017.

Cosméticos

OPI

Não basta “encher os olhos”, importa regalá-los. E desintelectualizar. Este anúncio da L’Oréal, dirigido por Bruno Aveillan, lembra outro mais antigo da OPI (2012). Ambos franceses, a marcas de cosméticos, centrados na cor, cada um com o seu esquema de sedução: a fragmentação sensual e um repto de dança a um cavalo, “animal das trevas e do poder mágico”, símbolo “da impetuosidade do desejo”  (Chevalier, Jean & Gheerbrant, Alain, Dictionnaire des Symboles, Paris, Robbert Laffont/Jupiter, 1982, p. 223).

Marca: L’Oréal. Título: Color Rich. Agência: McCann. Direcção: Bruno Aveillan. França, Março 2015. Música original: Raphaël Ibanez de Garayo.

Marca: OPI. Título: Instinct of Color. Agência: DAN Paris. Direcção: Hans Emanuel. França, Outubro 2012.

All you need is love

Fisher PricePoucas horas após a publicação do artigo O fetichismo da mercadoria, o novo anúncio da Fisher Price vem a preceito: “Wishes for Baby” é o paroxismo do espírito de entrega e de partilha. Recém-nascidos durante a passagem de ano foram filmados em nove hospitais de sete países: Brasil, Estados Unidos, Japão, México, Quénia, Bangladesh e Polónia. Nos primeiros momentos pós-parto, o que desejam as mães para os filhos? Esta exortação ao mandamento novo tem a ver com a quadra natalícia? Eis um tema para dissertação de doutoramento: como variam os valores na publicidade ao longo do ano?

“Meet the first YouTube stars of 2015. Delivered in 24 hours, this heartwarming short film captures the excitement and anticipation surrounding some of the first babies born around New Year’s all over the world. Watch real parents hold their babies for the first time, showing that the best possible start in life begins with love” (Fisher Price).

A Fisher Price é uma empresa de jogos e brinquedos. Normalmente, quem compra é para oferecer. Compreende-se, sobremodo, a aposta  no “aquecimento do coração”.

Marca: Fisher Price. Títulos: Wishes for Baby. Agência: Weber Shandwick. Direcção: Patrick Creadon. USA, Janeiro 2015.

Embalar a felicidade

Quino. Cérebro.

Quino. Cérebro.

Houve tempos em que se criava aquilo que se dava. Com a prenda, ia parte da pessoa. Eram “boas obras”! Hoje, compra-se o que se dá. Vendemo-nos embalados. Em vez de boas obras, temos boas mercadorias. “A felicidade não se compra”, mas vende-se! O pai queria criar uma prenda pessoalizada. Estamos na ordem do desejo. O pai acaba por comprar uma Play Station 4. Cedeu ao princípio de realidade. Este anúncio é ousado. O sonho da dádiva pessoalizada resiste e há muito quem suspeite da massificação pela mercadoria. Talvez a Play Station 4 esteja para além do desejo e da realidade.

Marca: Otto. Título: Handmade. Agência: Heimat, Berlin. Direcção: The Perlorian Brothers. Alemanha, 2014.

Teledesejo

Max Klinger. Penelope. 1895.

Max Klinger. Penélope. 1895.

Penélope transformou o teledesejo em tapeçaria. Na Idade Média, os cavaleiros andantes queriam-se teledesejantes. A saudade é  teledesejo embalado no colo dos dias vazios. E, no entanto, os corpos movem-se. Mas o desejo voa!

Chris Peters. At Rest.

Chris Peters. At Rest.

José Afonso, Menina dos Olhos Tristes, 1969.

Máquinas desejadas

Old Spice. Soccer 2

Mais um cheirinho a  Old Spice. Regressa a aposta num protagonista biomecanóide. Uma figura com séculos,  mas, hoje, particularmente infestante. À dita pós-modernidade associam-se duas multiplicidades: a do ser múltiplo e a do ser multiplicado. O ser multiplicado é o maná das identidades líquidas e fragmentadas: uma dúzia (pós-moderna) a agarrar o presente e apenas uma (moderna) a pagar impostos!
Comparando com o artigo anterior (https://tendimag.com/2014/07/25/pos-modernidade-vitoriana/), suspeita-se que, na pós-modernidade modernamente assistida, o que está em voga não é a carne (censurada), mas a máquina (desejada). A tragédia grega tem o coro, Pinóquio, o Grilo Falante e eu, o Demónio Céptico, demónio que me anda a tentar: “a pós-modernidade é, antes de mais, o pós-modernismo, e o pós-modernismo, um movimento intelectual profético, a grande narrativa contemporânea”.

Marca: Old Spice. Título: Soccer. Agência: Wieden+Kennedy USA. USA, Julho 2014.