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Amor à distância

John Lewis. The man on the moon. 2015.

“A solidão desola-me; a companhia oprime-me” (Fernando Pessoa, Livro do Desassossego).

Inserido no artigo O Homem na Lua (https://tendimag.com/2015/11/07/o-homem-na-lua/), o anúncio Man on the Moon, da John Lewis, foi varrido por ventos adversos. Nada como recolocar o anúncio.

Marca: John Lewis. Título: Man on the Moon. Agência: Adam & Eve DDB (London). Reino Unido, Novembro 2015.

The Economist/KFF findings add to a wave of recent research showing high levels of loneliness. A recent Cigna survey revealed that nearly half of Americans always or sometimes feel alone (46%) or left out (47%). Fully 54% said they always or sometimes feel that no one knows them well. Loneliness isn’t just a U.S. phenomenon. In a nationwide survey released in October from the BBC, a third of Britons said that they often or very often feel lonely. Nearly half of Britons over 65 consider the television or a pet their main source of company. In Japan, there are more than half a million people under 40 who haven’t left their house or interacted with anyone for at least six months. In Canada, the share of solo households is now 28%. Across the European Union, it’s 34% (Millenials And The Loneliness Epidemic, Forbes: https://www.forbes.com/sites/neilhowe/2019/05/03/millennials-and-the-loneliness-epidemic/#77e649ac7676

A solidão remete para a ausência de laços sociais. Émile Durkheim assume-o no ensaio sobre o suicídio (1897). Dizer ausência é pouco. Para haver solidão, não é necessário que os laços se quebrem, basta que afrouxem. Como sublinha Zygmunt Bauman (Liquid Love, 2003), a modernidade é caracterizada pelo afrouxamento dos laços sociais. Para além de laços sociais frouxos, existem laços sociais incómodos ou deteriorados, que convém controlar. A arte social é fértil neste tipo de comportamento: por exemplo, convidar sem nunca concretizar. Vivemos rodeados por dispositivos contra a intrusão, que lembram escudos sociais.

A profusão de laços sociais não obsta à solidão. Num lar de idosos, a exposição ao outro é máxima, mas a solidão predomina. Que os laços sociais se quebrem é natural. Que os laços sociais se afrouxem faz parte da nossa modernidade líquida. Que os laços sociais sejam indesejados é um novo problema, um problema que envolve a confiança.

A nossa veia estruturalista induz-nos a focar as redes e os laços. Mas as redes e os laços não são a única realidade que comove o homem. Subsistem minudências, porventura, fortuitas, que fazem dançar a vida. Aquém e além, ocorrem pequenos milagres e pequenas epifanias que nos despertam e nos abraçam. O anúncio opera uma dupla magia: a relação à distância entre a menina e o homem na lua e a relação empática com o público. Uma centelha de amor que passa pelo ecrã. Uma palpitação electrónica.

Um pouco de céu

Hoje, foi dia de pequenas coisas. Ressonâncias que não pesam no juízo final. Memórias sem história. Nada para arquivar. Quando escrevi, há 10 anos, o artigo Lembranças tinha mais memória e menos barriga. Mas agrada-me. Centra-se no insignificante. Amanhã, recomeçam os vazios importantes. Aumenta a pose e encolhe a pessoa. Entretanto, apetece-me ouvir Mafalda Veiga.

Mafalda Veiga. Um pouco de céu. Tatuagem. 1999.

Lembranças

Neto de comerciante, foi-me dado assistir à morosa hesitação da escolha dos postais ilustrados. Não deixa de constituir tarefa penosa, quase um milagre, conseguir acomodar, num rectângulo tão exíguo, emissor, destinatário, pretexto, mensagem e imagem. Lembro-me, também, da recepção de alguns postais. Ao estremecimento e à comunhão iniciais, com o postal a passar de mão em mão, sucedia-se a exposição num “altar improvisado” e o recolhimento numa gaveta, caixa ou álbum destinado às relíquias memoráveis. Quase todos nós, apesar dos anos e das mudanças, preservamos alguns destes tesouros semi-privados. Compõem uma espécie de bálsamo para as rugas da nossa identidade.

Postal 3

Postal 3

Os postais ilustrados comportam uma vertente estética. Podem ainda apresentar uma aura de magia, virtualidade, aliás, própria de um objecto que se interpõe entre duas pessoas. Absorvem o emissor que neles se inscreve (“estou aqui!”) e convocam o destinatário que neles se adivinha (“Esta menina és tu a pedir à Nª Sª pª vires passar as férias a casa”: postal 1). Podem, inclusivamente, aspirar a uma certa tangibilidade das almas ou, se se preferir, a um magnetismo dos corpos separados: “Se o pensamento fosse visível, ver-me-hias sempre ao teu lado” (postal 2). Muitos postais ilustrados são dádivas. Antes de mais, dádivas de si. São lembranças, “something between a message and a present” ( Andrew Martin:http://blogs.guardian.co.uk/travelog/2008/07/postcards_back_from_the_edge.html). 

Postal 4

Postal 4

São prendas! Apreciadas, exibidas e guardadas. Pessoalizadas em sintonia com o outro, pedem criatividade, dedicação e sentido de oportunidade. Confesso nutrir alguma predilecção pelos postais ilustrados anteriores a 1902, aqueles em que “de um lado só se escreve a direcção”. Reduzem o importante ao essencial. E o essencial, como bem sabemos, cabe no buraco de uma agulha. As soluções, variadas, oscilam entre a incontinência de letras que afoga a imagem e o gesto discreto e precioso que lhe acrescenta valor. Mesmo com a possibilidade de escrita no reverso do postal, as marcas e as inscrições na imagem perduraram, como uma espécie de luxo ou de requinte pessoal ( atente-se no postal 3 e, sobretudo, no pormenor do postal 4: estes postais podem ser vistos no blogue Postais Antigoshttp://postais.do.sapo.pt/). É certo que, na maioria dos casos, estas prendas são surpresas esperadas, ao sabor das efemérides ou das viagens. Se tardam, sente-se a falta, num misto de frustração e inquietação.

Dádiva e contradádiva

Chinês Cão e Garça

Qual é a regra de direito e de interesse que (…) faz com que o presente recebido seja obrigatoriamente retribuído? Que força existe na coisa dada que faz que o donatário a retribua? (Mauss, Marcel, 1923-1924, Essai sur le don, l’Année Sociologique, seconde série).

A dádiva e a contradádiva possuem os seus requisitos. O primeiro consiste na obrigatoriedade de receber. Quando alguém oferece uma prenda, espera que o destinatário a receba condignamente. Rejeitar uma dádiva é uma ofensa. Por outro lado, quem recebe uma oferta é suposto retribuí-la, mas de modo que não pareça um retorno da oferta inicial. A contradádiva  quer-se adiada e eufemizada. Se me ofereceram laranjas, não vou retribuir imediatamente com laranjas. A contradádiva não deve lembrar a dádiva, deve assumir-se como uma dádiva original. Por último, a contradádiva ganha em ascender a um valor ligeiramente superior ao da dádiva recebida. Este pormenor induziu os economistas a pensar, erradamente, numa espécie de juro “primitivo”.

O anúncio chinês A Joy Story: Joy and Heron é uma animação que celebra a proximidade do “ano do cão”. Baseia-se, precisamente, na relação entre dádiva e contradádiva: o cão dá as minhocas e a garça retribui com o peixe. No linguajar atual, configuram uma parceria. Mas, como o anúncio dura quatro minutos, não sobrou tempo para o diplomático adiamento.

Marca: JD.com. Título: A Joy Story: Joy and Heron. Agência: 180.ai. Direcção: Kyra & Constantin. China, Fevereiro 2018.

O feitiço da mercadoria

Cadbury's Mum's birthday

“Quem dá aos pobres empresta a deus”; “quem dá o que tem a mais não é obrigado”; “quem dá o que tem acaba a pedir”. Três provérbios, três filosofias de vida: a economia da salvação; a economia da distribuição; e a economia da perdição. Três visões distintas mas compatíveis: quem dá o que tem não é obrigado a mais, mas pode acabar a pedir.

A dádiva é um “fenómeno social total”, imprescindível à coesão e à reprodução sociais, cujos princípios e regras Marcel Mauss abordou no Ensaio sobre a dádiva (1925). A dádiva e a contradádiva geram um fluxo de comunicação e comunhão que entrelaça, interna e externamente, os grupos e as sociedades (ver Malinowski, Bronislav, Argonautas do Pacífico Ocidental, 1922).

O anúncio Mum’s Birthday, da Cadbury’s permite-me repetir uma ideia que me é cara: a compra pode não ser um ato de egoísmo ou de alienação, pode relevar de uma dádiva de si, de uma entrega pessoal e, eventualmente, de um gesto sacrificial. Com a mercadoria segue uma parte do comprador. O anúncio da Cadbury’s ilustra, primorosamente, em escassos segundos, uma realidade que escapa aos aristocratas do espírito. A criança dá amor com sacrifício pessoal. O vendedor é cúmplice: não impede o sacrifício da criança, apenas devolve, “profissionalmente”, o troco: o unicórnio, jóia prima do tesouro infantil. A mãe também entra, emocionada, no jogo: aquele chocolate sabe a amor. Receber é uma arte.

Marca: Cadbury’s. Título: Mum’s Birthday. Agência: VCCP. Direcção: Frédéric Planchon. Reino Unido, Janeiro 2018.

 

Nanotecnologia do conhecimento

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Em França, nos anos setenta, a televisão passava um programa chamado “Histoires sans paroles”, dedicado a curtas-metragens mudas e cómicas. Não falhava uma! Aprecio coisas breves com impacto. Aflige-me a perspectiva de escrever um livro, que começa e acaba com a mesma ideia, abraçando uma a uma todas as páginas. Incomoda-me propor pastilhas elásticas a cérebros alheios. Escrever não é soprar balões! Ainda há quem acredite que os livros pequenos contêm ideias curtas e os livros enormes, grandes ideias. É um sonho escrever numa dezena de linhas um assunto que justificaria uma dúzia de páginas. Também nisso sou um tosco herdeiro de Pascal. Eis porque me entretenho com anúncios publicitários e artigos de blogue. Ambos minúsculos, mas densos. Uma nanotecnologia do conhecimento.

O anúncio Old friends, da Amazon, é de uma originalidade bem destilada. Lembra os Reis Magos: ajoelha-te, reza e oferece. Oferece ao outro aquilo que desejas para ti. Por exemplo, umas joelheiras. De preferência, ecuménicas como as multinacionais.

Marca: Amazon. Título: Old friends. Agência: Joint London. Reino Unido, Novembro 2016.

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Lorenzo Monaco. Adoração dos magos. 1422.

O gosto de gostar

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É mais gostoso gostar do que ser gostado. Afeiçoei-me com o tempo a esta ideia. Não deixa de ser uma paráfrase de um pensamento de Jesus Cristo: “Há maior felicidade em dar do que em receber” (Atos dos Apóstolos 20:35).

Na Segunda Epístola aos Coríntios (9:6), Jesus Cristo lembra: “Aquele que semeia pouco também colherá pouco, e aquele que semear com fartura também colherá fartamente”. Insinua-se, agora, a ideia de investimento: semear para colher. Uma dádiva interessada. Ao contrário do primeiro pensamento, este último poderia constar do livro O Caminho da Riqueza, de Benjamin Franklin (1757). Os homens movem-se pelo interesse, incluindo os estúpidos.

Marca: John Lewis. Título: The Journey. Agência: Adam & Eve DDB (London). Direcção: Dougal Wilson. Reino Unido, 2012.

Pelos cabelos

Hair Fest. México, Abril 2014Limamos o excesso e o insólito desde que nascemos. Mesmo assim, permanecemos estranhos, aos outros e a nós próprios. Este blogue não o esquece. A iniciativa da Casa de la Amistad para Niños con Cancer apresenta-se, à primeira vista, estranha. Se calhar, não o é. A ideia é genial: organizar um festival rock, o Hair Fest (México, 12 de Abril), com o objectivo de recolher cabelo destinado a perucas para crianças com cancro. Resultados: cabelo para 107 perucas, nove milhões de impactos nas redes sociais e mais de 500 000 dólares de publicidade gratuita! Foram ultrapassadas as expectativas mais optimistas. Pelos vistos, o Metal tem bom coração. E o marketing, os seus trunfos.

Anunciante: Casa de la Amistad. Título: The Hair Fest. Agência: Ogilvy & Mather México. Direcção: Hernán Almar. México, Maio de 2014.

 

Vestir o amor

Exército de Salvação do Brasil. BlazerHá anúncios que dispensam ser vestidos com palavras. São eles que nos vestem, com imagens.

Anunciante: Exército de Salvação Brasil. Título: Blazer. Agência: WMcCann. Direção: Tocha Alves. Brasil, Janeiro 2014.