Espírito de Natal

Poor vs. Rich. funny-pictures-blog.com.
Existem realidades separadas que lucram em aparecer juntas. Nenhuma perde sentido e ambas o potenciam. Acontece com os anúncios da Cruz Vermelha da Bélgica e da Cultura, da França. Juntos, confirmam o contraste entre a sociedade da escassez e a sociedade da abundância. No primeiro, Le Dilemme, a família tem que optar entre celebrar o aniversário ou pagar a conta da electricidade. No segundo, kdorigami, a embalagem sobrepõe-se ao conteúdo da prenda. “Avec Cultura, le papier cadeau est déjà un cadeau”. Em suma, duas figuras distantes: o oprimido e o blasé, a “cultura do pobre” (Oscar Lewis) e a “classe ociosa” (Thornstein Veblen).
Anunciante: Croix Rouge de Belgique. Título: Dilemme. Agência: Publicis Brussels. Direcção: David Greenwood. Bélgica, Novembro 2016.
Marca: Cultura. Título: Kdorigami. França, Novembro 2016.
Pêlos
Intriga-me a relação do ser humano com os pêlos e com os cabelos. Um religioso com cabeça e cara rapadas, e.g. um budista, outro, com barba e cabelo coberto, e.g. um ortodoxo ou um copta, qual segue os desígnios de Deus? E os ídolos da música? Como conciliar o cabelo do Elvis Presley, dos Beatles, dos Led Zeppelin , dos Kraftwerk, do Klaus Nomi, dos Misfits e do Billy Corgan?
O nosso corpo é simbolicamente compartimentado. Tem mais pormenores do que uma pintura do Hieronymus Bosch. Para o comprovar, basta visitar uma capela com ex-votos de cera. Pequenas distâncias fazem grandes diferenças. Há partes que se pode tocar, outras que se pode ver e outras que nem sequer imaginar. Retenhamos apenas quatro partes do corpo humano: o couro cabeludo, a face, o peito e as axilas.
Estávamos resignados com o velório da barba e eis que, como Lázaro, ressuscita. Não me lembro de tanta barba em tanta cara. Mas a postura muda consoante a parte do corpo. Um homem pode cortar a barba, depilar o peito, mas preservar as axilas. É o caso do bailarino rejeitado do anúncio da Narta. Em contrapartida, o rival tem barba, mas depila o peito e as axilas. A mesma pessoa pode adoptar atitudes distintas face aos pêlos em função da parte do corpo envolvida. Aqui amor, ali ódio; aqui apraz, ali desfaz.
Esta questão dos pêlos tem alguma importância? Pelo menos, a importância que as pessoas lhe concedem. Há quem despenda, entre cabeleireiro e depilação, mais de cinco horas por semana. Atendendo ao tempo disponível, cinco horas por semana é muito tempo.
Estes dois anúncios, dedicados aos pêlos, merecem atenção. O primeiro, brasileiro, é fantástico. Uma obra-prima. O segundo coloca o dedo na nossa falha filogenética. Os pêlos provêm da costela de Adão ou do rabo do macaco? Os pelos testemunham a parte do diabo? Nas pinturas da Idade Média, os demónios e, sobretudo, os sátiros são peludos. Ressalve-se, contudo, que os peluches e muitos bonecos da Rua Sésamo são angelicais e peludos…
Marca: Play TV. Título: Beard. Agência: F/Nazca Saatchi & Saatchi. Direcção: Pedro Becker. Brasil, 2008.
Marca: Narta Homme. Título: Peau Parfaite. Agência: Les Gaulois. Direcção: Jonathan Gurvit. França, 2015.
A importância do olhar
Duvido dos testes e das experiências que aparecem nos anúncios publicitários. Mas quero acreditar neste anúncio da Noemi Association. O desgosto e a conveniência aprendem-se com o tempo graças a um trabalho social contínuo e sistemático. Norbert Elias mostra-o a propósito do processo civilizacional. O que é natural para a criança pode não o ser para o adulto.
Anunciante: Association Noémie. Título: Les Yeux d’un Enfant. Agência: Leo Burnett. França, Dezembro 2014.
À Irlandesa
Este anúncio é um caso à parte: 150 segundos de extrema qualidade. Sente-se a Irlanda, húmida, verde e cinzenta. Respira-se cultura. Amizade e separação, fé e morte, audácia e melancolia. A noiva, o muro, o whiskey e a passagem… A Parting Glass, canção tradicional, dá o tom, o compasso, a voz e a letra ao filme. Quem fez este anúncio, irlandês ou não, apaixonou-se por ele. Para aceder ao anúncio, carregar na imagem.
Marca: Tullamore Dew Irish Whiskey. Título: The Other Wall. Agência: Opperman Weiss. Direcção: Laurence Dunmore. Irlanda, 2013.
FAFE CIDADE DAS ARTES – Convite
Fafe Cidade das Artes é uma iniciativa que visa “projetar o município de Fafe como exemplo de Cidade das Artes, do Teatro, da Dança, da Música, da Literatura, da Cultura”. Aposta na criação de oficinas de formação teatral, de residências artísticas temporárias e de intercâmbios com criadores de todo o mundo, nomeadamente do Brasil.
O projeto Fafe Cidade das Artes será apresentado, e discutido, com a participação de alguns dos seus promotores, no dia 23 de Abril, às 18 horas, na Sala de Atos do Instituto de Ciências Sociais, da Universidade do Minho. Haverá ainda oportunidade para uma conversa com o encenador Marcelo Bones e a atriz Ângela Mourão, do teatro brasileiro Andante, bem como com o encenador Moncho Rodriguez e a atriz Marta Carvalho, a propósito do espetáculo teatral “Labirinto de Amor e Morte”.
Não quer vir? Tem lugar reservado.
Labirinto de amor e morte – foto de Manuel Meira
Fotografia e Investigação
É com grande prazer que o convidamos para o encontro Fotografia e Investigação, que terá lugar no dia 2 de Maio, pelas 18 horas, no Auditório do Instituto da Educação, da Universidade do Minho. Esta sessão do Ciclo Percursos Profissionais na Área da Cultura conta com a participação de Álvaro Domingues, Professor da Faculdade de Arquitetura, da Universidade do Porto, e de Isabel Alves, Responsável pelo Museu das Migrações e das Comunidades, de Fafe.
A fotografia é um recurso apreciável na investigação social, como fonte direta ou como fonte secundária de informação. Não se confina, portanto, ao mero uso ilustrativo. Álvaro Domingues é um exemplo de quanto a máquina fotográfica pode ser um auxiliar do olhar e a fotografia um suporte para a análise e a ilustração. A sua arte peculiar de aproximação à realidade não é alheia ao sucesso alcançado pelos livros Rua da Estrada, publicado em 2010, e Vida no Campo, recém-publicado em Março de 2012, ambos pela Dafne Editora, do Porto.
Gérald Bloncourt é um reputado fotógrafo francês que, nos anos sessenta, direcionou a sua objetiva para os emigrantes portugueses residentes em bairros de lata da região parisiense. Resultou um espólio apreciado por muitos investigadores. As fotografias de Gérald Bloncourt já foram expostas em Fafe, em Lisboa, em Braga e, no final de 2011, em Viana do Castelo. Gérald Bloncourt doou mais de uma centena de fotografias originais ao Museu das Migrações e das Comunidades de Fafe. Isabel Alves, guardiã atenta deste valioso espólio, falará da obra de Gérald Bloncourt.
O Director do Curso de Mestrado em Comunicação , Arte e Cultura
As Duas Faces: Imagens de Cristo
O vídeo As Duas Faces foi concebido para apoio à disciplina de Sociologia da Cultura. Incide sobre a evolução das imagens de Cristo do século VI ao século XVI. As imagens atêm-se a três grandes temas: Cristo Pantocrator; Cristo Crucificado (Crucifixão e Pietà) e Juízo Final. As dezenas de imagens aqui compiladas não esgotam nenhum desses temas. Na cultura ocidental, não existe fonte de inspiração que suplante a imagem de Cristo, ao nível religioso, estético e simbólico. Apesar desta complexidade, arrisco a chamar a atenção para os seguintes tópicos:
- A imagem de Cristo Pantocrator é aquela que predomina no primeiro milénio. Criador de todas as coisas, omnipotente, Cristo senta-se num trono em pose imperial, com o Livro da Lei na mão esquerda. Situa-se em locais altos de onde tudo vê: nas cúpulas, por cima das portas, na abside. Já nos crucifixos e nas pietás, com Cristo na condição de julgado, as imagens descem das alturas, aproximando-se dos crentes.
- A posição das mãos de Cristo muda significativamente. Como Pantocrator, segura o livro com a mão esquerda e acena uma saudação (grega) com a direita. Já na maioria das representações do Juízo Final, Cristo ostenta, de mãos erguidas, as cinco chagas. Para o bem e para o mal, é um Cristo Ressuscitado.
- O Cristo Pantocrator fita-nos de frente, com um olhar penetrante fixo no infinito. Cristo tudo vê, incluindo os nossos pecados. Nos crucifixos e nas pietás, nenhuma personagem principal nos encara de frente. Todas estão absortas pelo momento.
- Mais do que ser visto, o Cristo Pantocrator vê, com um olhar omnividente que controla e obriga. Perante um crucifixo ou uma pietà, somos nós, pelo contrário, que vemos, com um olhar que se demora. Trata-se de uma inversão na relação com a imagem: esta pede, agora, a ser contemplada.
- O Cristo Pantocrator irradia autoridade e protecção. O Cristo crucificado, ou inerte no colo de Maria, suscita compaixão, promove a partilha de emoções, sensações e sentimentos, com uma profundidade estética e simbólica ímpar.
- O vídeo comprova que a figura do Cristo Pantocrator perdura no tempo, não se apaga. Por outro lado, a figura de Cristo Crucificado, apesar de ter demorado séculos a aparecer, impôs-se durante a Baixa Idade Média. As grandes formas simbólicas são persistentes, coexistem ciclicamente, ora mais discretas, ora mais ostensivas.
- Afirmar que a imagem de Cristo mudou em mil anos é uma banalidade. Mostrar como a imagem de Cristo mudou é obra que não desmerece.
- Uma última nota: a primeira música, um Kontakion, de Romanus Melodus, remonta ao século VI, data das primeiras imagens do vídeo. A segunda, Miserere Mei Deus, de Allegri, data do século XVII. Separam-nas mais de mil anos: uma abre e a outra fecha um percurso.
- O ficheiro pesa 79,6 MB.
Hieróglifo urbano
Este anúncio não provoca amor à primeira vista, antes suave massagem estética. Entranha-se. O que começa como publicidade, acaba como arte. É original. A imagem é soberba. Sem música de fundo, desfruta, em contrapartida, de um som fabuloso. Dispensa a palavra. Não tem história, mas faz sentido. Com este andar, os sapatos Osíris afirmam-se como hieróglifo de uma subcultura urbana. Se viu, reveja, não se contente com a margem quando pode ousar a travessia.
Marca: Osiris Shoes; Título: The soul of the Osiris. Agência: Futuristic Films; Direcção: Nicholaus Goossen. EUA, Setembro 2011.









