O mesmo e o outro. Sujeitos e homjetos

De vez em quando, acontece-me inventar palavras. Na maioria dos casos, já alguém o tinha feito. Por exemplo, “ninguenização”, palavra freia já cunhada no Brasil. Homjeto não significa nada. Nem sequer virando o dicionário do avesso. Mas não dizendo nada, diz o que parece: um misto de homem e coisa. Com a devida sonoridade. Que conste, não existe na internet. Por enquanto, a aberração é minha. Para quê homjeto quando já se diz homem objeto? Porque a expressão “homem objeto” continua a cavar uma dicotomia e a dar primazia ao homem. Não interessa! Seja como for, andamos rodeados, pelo menos desde a Idade Média, de homjetos. (Homjetos, 23.09.2012)
Estado de corpo

Sobrevêm artigos que, ao resgatá-los, acabo por reconher neles a expressão, não de estados de espíritos, mas de estados de corpo.
Corria o ano de 2019 e a cadeira adquiria rodas…
Imagem: Vincent van Gogh Paul. Gauguin’s Armchair, 1888. Van Gogh Museum
Poder e debilidade do riso

Todas as sociedades têm alvos predilectos de riso colectivo. Na nossa, as “loiras” funcionam como pára-raios da toxicidade humorística socialmente aceite. Estou à espera do primeiro anúncio censurado por atentar contra o bom nome das “loiras”. É só para rir! Mas o riso não é inócuo. “O riso é um prazer maligno” (Nietzsche). A única piada que não agride é aquela que se destina a outrem. Enfim, o riso não presta vassalagem à razão, o que deixa mais indefesas as vítimas. No limite, contra o riso não há argumentos. (Loiras sem malte).
Mas esta potência do riso pode também ser sinal de debilidade. Atente-se nos anúncios “Chips” e “Eggs” no artigo Loiras sem malte (18.08.2014).
Atenção às partes!

O dia 3 de agosto foi fértil em artigos dignos de resgate. Empacoto três com anúncios e assuntos cativantes.

O anúncio “Protect yourself”, no artigo Pós-falocracia (2013), justifica dúvidas: é da Durex ou de uma seguradora? A favor dos preservativos ou contra filhos?
“Bike & Bier – Belgium 2014”, em A Parte e o Corpo (2014), substitui a proteção das partes pela sua divisão, com humor belga ou brasileiro.
“Religion. Does God exist?”, em A ciência, a bicicleta, a cigarra e a formiga (2015), coloca um mestre, com certezas, em apuros perante um aluno, com convicções. Aproveito para retomar algumas impertinências.
Einstein com 5 anos, ca. 1884
inDISCIPLINA ERÓTICA. Sexo explícito no século XVI



O Tendências do Imaginário é um poço sem fundo. Convém descer agarrado a uma corda presa na superfície.
Seguem os artigos Profilaxia daLuxúria (Para maiores de 18 anos) e Jogo à portuguesa, ambos colocados no dia 1 de agosto de 2014.
As almas têm ossos?

Tendemos a adotar uma relação complicada com o interior do corpo, incluindo os ossos. Temos. aliás, propensão a “ter um certo respeito” por quase tudo que é interioridade, com o corpo (e, por extensão, a terra) a assumir-se como uma espécie de matriz simbólica.
Regra geral, o que está sob a pele ou se exterioriza constrange: órgãos, nervos, cartilagens, ossos, carne, tumores, calos, verrugas, acne, borbulhas, sangue, pus, urina, fezes, transpiração, bafo, hálito, flatulência, rugidos gástricos, arroto, ronco…
Denegamos, combatemos e disfarçamos os conteúdos e as manifestações desta natureza invisível, mas congénita, procurando preservá-la secreta ou, pelo menos, discreta. Sabemo-lo, a Chichen Licken, também!
Imperfeição e transfiguração. O sublime em estado líquido

Estou a estudar o tema da transfiguração na arte paleocristã. Magníficos, deslumbrantes, estes dois anúncios vêm mesmo a propósito. São uma generosa prenda de Natal.
A água, mãe da vida, fluxo, imersão, banho sagrado, batismo, transfiguração. O perfume, fragância do sólido e do líquido, pele sublimada, aura benta, intimidade pública, aparência da essência: transfiguração. A máquina, o outro do mesmo, o humano, o animal, a fuga e a odisseia compulsiva. A noite, a porta, a cruz, o limbo e a margem, a potência, o híbrido, o centauro, o mítico e o profano divino: transfiguração. A demanda da perfeição do imperfeito, a nossa tragédia, a coroa da nossa estética.
Flutuar

Quando a vida é um acidente constante, “a cabeça não tem juízo… e o corpo é que paga”, o melhor é flutuar. Assim o entende o anúncio Marie finds her flow, da Lego, que culmina com um piscar de olho à sua parceira Adidas.
Acerca da importância do voo, da leveza e da levitação no imaginário, ver os artigos Leveza e turbulência na pintura de Goya; e A civilização da leveza.
António Variações, O corpo é que paga:


