Filhos da Vida

Se fosse imortal, inventaria a morte para ter o prazer de viver (Jean Richepin. La Chanson des Gueux, 1876)
Nada em nós é eterno. Filhos da vida, herdamos a morte. Qual é a nossa pegada? Vale a pena atardar-se neste anúncio de seis minutos. Acelerado e excessivo em referências históricas, “Immortal” representa mais uma dádiva do Royal Ontario Museum. Por (des)ventura, demasiado generosa face à atenção que nos prestamos a dispensar.
Aventura na Casa do Tempo

Ontem à noite, estive na Casa do Tempo, em Cabeceiras de Basto. A sala estava cheia. Conversei como quem confidencia, durante hora e meia, de pé e à vontade. Sem trejeitos académicos. À medida que envelheço apercebo-me quão castradores da inteligência e da sensibilidade podem revelar-se os academismos. Ressalvando alguma reação a uma picardia, o público manteve-se em profundo silêncio. É verdade que o recurso a ideias e imagens surpreendentes e estranhas ajuda! De qualquer modo, o silêncio prolongado resulta raro. Tanto pode ser bom como mau sinal, traduzir interesse e concentração como enfado e evasão. Fiquei, contudo, com a impressão de ter sido compreendido. Aliàs, uma mensagem pode ser desconcertante sem ser aberrante. Acarinhado, com a sexta-feira dia 13 a acabar, despedi-me com vontade de voltar.
Acordei bem-disposto. Procurei nos arquivos uma música ou um anúncio a condizer. Eventualmente festivos. Encontrei ambos num simples vídeo: o Play It Safe, da Sydney Opera House com Tim Minchin.
Wall-E e E.T.

O que concorre para que máquinas como o Wall-E ou monstrinhos como o E.T. nos fiquem cravados na memória?
Seguem duas compilações produzidas por JoBlo Animated Videos: uma com excertos do filme Wall-E, a outra com trailers do filme E.T.
Imagem: E.T. e Wall-E – Fonte: Deviant Art
Diga-o com robots!
Trauma, garra, amor, frustração, engano… diga-o com máquinas, de preferência com robots! Resulta mais eloquente.
Declarações de amor pré-fabricadas
E viver sem amar não é realmente viver (Molière, La Princesse d’Élide, 1664).

Se quer arrastar a asa, mas, por qualquer motivo, prescinde da comunicação verbal ou gestual, diga-o não com flores, mas com letras. Existem declarações prontas a usar num minimercado perto de si. Haja desejo e inspiração! O anúncio “Lait drôle la vie”, do Monoprix, é lento como um caracol, mas ternurento como um coelho.
Imagem: Breviary of Renaud de Bar, Metz, 1302-1303. British Library
Acode-me a canção “Tu m’écris”, de Isabelle Mayereau, cuja letra parece um misto que sucede a Jacques Prévert e precede Mia Couto.
Crime e Arte

A religião do crime envenena tanto quanto a da virtude
Laure Conan (1845 – 1924)
Nos últimos dias, desapareci praticamente das redes sociais. Estou a preparar duas comunicações: uma para o Seminário Crime e Arte, no dia 15 e 16 de maio, terça, no Auditório Nobre da Escola de Direito da Universidade do Minho, intitulada “A ambivalência do crime na arte”, com duração prevista de 20 minutos, a outra, que mais me (pre)ocupa, no dia 27 de maio, sábado, no Auditório do Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa, intitulada “Os antepassados do surrealismo: o maneirismo”, que ultrapassará os 60 minutos. Absorve-me a construção dos elementos audiovisuais: em consonância com o tema, vai relevar mais de um espetáculo do que de uma conversa, mais parente da arte do que da ciência. Prevê o visionamento de seis apresentações com fundo musical, bem como de videoclips, anúncios e publicações originais dos séculos XVI e XVII.
Anexo o cartaz do III Seminário Crime e Arte, Aproveito o ensejo e o intervalo para acrescentar o vídeo musical da canção “Bonnie and Clyde”, de Serge Gainsbourg e Brigitte Bardot (1968).

O Amor e a Morte na Casa da Cultura

Chuva, frio e uma sensação única: o mesmo vento que me afastou do mundo traz-me de volta ao ninho. Era uma vez… o amor e a morte, a união e a separação, as formas e as sombras, os que ficam e os que partem. Memórias profundas e liminares. Apesar da concorrência do FC Porto-Benfica, a audiência do “serão dos medos” duplicou o previsto. Iniciado às 21:00, o “serão dos medos” durou quase até à meia noite. O encanto não teria sido o mesmo sem os testemunhos generosos, de uma oralidade prodigiosa e contagiosa, de duas pessoas maiores: as castrejas Angelina Fernandes e Palmira Fernandes. A sessão não se prolongou para “evitar o escuro das horas tardias”. Mas, pelos vistos, com a iluminação atual o risco é bem menor. E as pessoas deixaram-se estar em inspirada conversa. Uma iniciativa que, graças à dedicação dos amigos da Casa da Cultura e da Câmara de Melgaço, parece ter nascido para vingar. Era uma vez, não eRa? eRa, um grupo francês.
Galeria de fotografias: Coisas do Outro Mundo, Serões dos Medos, Casa da Cultura, Melgaço, 21 de outubro de 2022. Fonte – Município de Melgaço: https://www.facebook.com/municipiodemelgaco/photos














Meigas

Existem momentos em que o contexto, os astros, as afinidades e as predisposições se conjugam para transformar a comunicação em comunhão, a porta em ponte, o limite em prolongamento, a cara em carinho e o saber em conhecer (do latim cognoscere, de com, junto, mais gnoscere, saber, ou seja, saber em conjunto). As pessoas, os gestos e os pormenores parecem apostados em entrelaçar as mãos. Não sei por que estou a escrever estas palavras. Deve ter sido algum pirilampo que passou pelo teclado.
Serões do Medo. Melgaço. 21.10.2022
Regressei de Melgaço com os ouvidos cheios de testemunhos de experiências sobrenaturais: acompanhamentos, aparições, sinais, bruxas e meigas. Proporciona-se a canção Túa nai é meiga e, por acréscimo, Alalá Das Mariñas, ambas de Uxía.
Diga-o com robots!

Parece-me que estou a ficar senil, mas não resisto a repetir: manifesta-se impressionante como o ser humano tem de recorrer à mediação do não-humano (animais, animações, objetos) para expressar, significar, o humano.
Singaporean charity TOUCH Community Services has released a heart-warming film about the power of the human touch, produced by BBH Singapore. / The ‘touching’ film is set in the future and tells the story of Alfie, a robot assistant, who learns about the human touch from the family and community it interacts with. / Accompanied by an acoustic arrangement of the classic hit, Human, written by The Killers, the campaign film embodies TOUCH’s commitment to inspire hope and transform lives through the power of human connection, both in the present and the future (Ads of the World, The Human Touch: https://www.adsoftheworld.com/campaigns/the-human-touch, acedido em 11.10.2022).

