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Regresso às origens

Despedir-se dos anúncios da Guinness não é fácil. São fantásticos! Também me custa esquecer a exposição Vertigens do Barroco (Mosteiro de Tibães, 2007). Na Sala do Recibo do Mosteiro, a um canto, aconchegava-se uma sala de estar com móveis modernos extravagantes e um baú do séc. XVIII onde os anjos não se cansavam de dançar. No centro da sala, corriam, num  ecrã, para a altura faraónico, “cápsulas de emoções”, ou seja, dezenas de anúncios publicitários neobarrocos, entre os quais o Big Ad, da Carlton Draugh (http://tendimag.com/2012/09/08/o-grande-bebedor/), Marry Me, da Siemens (http://tendimag.com/2012/09/07/voo-pre-nupcial/), e o noitulovE, da Guinness, que, estranhamente, ainda não tinha colocado no blogue. É um dos meus anúncios preferidos. Também é dos mais conhecidos. E imitados. Recorrer ao rewind dos trajectos tornou-se moda. Num minuto, a evolução da vida recua, sob o nosso olhar perplexo, até às origens. O minuto que dura o anúncio não é muito, nem é pouco, é a duração suficiente para que o arroto de um peixe pré-histórico (um dipnóico?) complete o ciclo iniciado pelo gole inicial de cerveja numa taberna urbana, a alguns milhões de anos de distância.

Marca: Guinness. Título: noitulovE. Agência: Abbot Mead Vicker BBDO. Direção: Danny Kleinman. UK, 2005.

O catálogo da exposição Vertigens do Barroco está disponível na loja do Mosteiro de Tibães. Trata-se de uma obra colectiva. Junto apenas o texto que assino: Vertigens do Presente. A Dança do Barroco na Era do Jazz (in Gonçalves, Albertino, Mata, Aida, Ferreira, Ângela & Pereira, Luís da Silva, Vertigens do Barroco em Jerónimo Baía e na Actualidade, Braga, Mosteiro de São Martinho de Tibães, 2007). Para aceder ao pdf carregar aqui: Vertigens do Presente. A dança do barroco na era do jazz. ok

Vertigens do Barroco

 

A cerveja dos vampiros

Demons and figures on Wheel. drawing, detail. Frrench 14th cent.

Demons and figures on Wheel. drawing, detail. Frrench 14th cent.

Eis um anúncio capaz de fazer esperar a gata. O tópico principal não se dilui numa procissão de ideias. Mais do que associar a Skol Beats à noite, aspira associar a noite à Skol Beats. O que não é o mesmo, nem é fácil. A estranheza é amiga da noite e da publicidade. O anúncio dá-lhe, no entanto, tempo para se entranhar. A figura do morcego impõe-se: nocturna, esotérica e transgressiva. O homem-morcego é um dos  inquilinos do nosso imaginário. Convive com a sede dos vampiros e a inquietação dos demónios.

Marca Skol. Título: Bats. Agência: F/Nazca Saatchi & Saatchi. Direção: 300 ml. Brasil, Agosto 2014.

Loiras com malte

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Entre uma pessoa loira e uma cerveja loira pouco deve haver em comum. No entanto, os criativos insistem em confundi-las. A marca de cerveja australiana Pure Blonde é reincidente nessa tentação pueril. No primeiro anúncio, A River of Blonde, um simples trago de cerveja é composto por uma multidão de loiras e loiros; o segundo, Pardon, mostra que basta uma ovelha negra, um arroto de um moreno, para destruir a utopia, a loiralândia, terra de loiras virgens onde nasce a cerveja Pure Blonde.

Marca: Pure Blonde. Título: A River of Blonde. Agência: Clemenger BBDO Melbourne. Direção: Steve Rogers. Austrália, 2013.

A Parte e o Corpo

The Hands of Orlac . 1924.

The Hands of Orlac . 1924.

Realidade ou fantasia, a personalidade dupla é um tópico comum. Mais insólito é o tópico da corporalidade dupla. Mais prótese, menos prótese, o corpo pode prescindir de uma parte. A ficção científica vai mais longe: no romance Não Temerei Nenhum Mal, de Robert Heinlein (I Will Fear No Evil,1970), Johann Sebastian Bach Smith enxerta o seu cérebro no corpo de uma funcionária. O problema resume-se em saber a que parte vai sair o híbrido: ao patrão ou à funcionária? O dilema é antigo. No filme mudo The Hands of Orlac (1924), um pianista sofre um acidente que lhe destroça as mãos. Recorre a um transplante. Mas o pianista começa a adoptar comportamentos criminosos. As mãos transplantadas pertenciam a um assassino!

Marca: Cervejaria Nacional. Título: Bike & Beer Belgium 2014. Agência: Brancozulu. Brasil,  Julho 2014.

Este comentário sofre de um vício de interpretação. O anúncio é uma comédia e o comentário enreda-se em tragédias. Como redimir esta perversidade? Neste blogue, analisam-se  muitos anúncios, o que não quer dizer que seja essa a sua vocação. O blogue é um grande “desvocacionado”. Os anúncios são, frequentemente, tomados como pretexto. Neste caso, a aura cultural, e civilizacional, do romance I Will Fear No Evil e do filme The Hands of Orlac é de tal ordem que, proporcionando-se, ignorá-los seria uma falha. No blogue Tendências do Imaginário, os dedos correm sobre as teclas como se fossem cabras.

Vinte homens e uma personagem

Heineken. The OdysseyA cada um o seu talento e alguns minutos de fama

Pela criatividade e pela originalidade, o anúncio Odyssey, da Heineken, arrisca-se a ficar na história da publicidade.
Tudo concorre para um ambiente peculiar, lúdico: a música (16 toneladas, de Noriel Vilela), o navio, o ritmo, os comportamentos e os gestos. Uma heterotopia, diria Michel Foucault. Um carrossel de culturas, acrescentaria.
– Who is that man?
– That can´t be just one man.
Tornou-se habitual reconhecer várias personagens num único ser humano. Neste anúncio, somos convidados a reconhecer vários seres humanos numa única personagem.

Há domínios em que admiro os holandeses. Fazem um anúncio e escolhem uma música brasileira. É a sua maneira de ser globais. Na maior parte dos países, incluindo Portugal, faz-se um anúncio e escolhe-se uma música inglesa. É a sua maneira de ser globais. Uns são fecundos, outros são fecundados.

Este anúncio é brilhante, pixel a pixel. O ritmo, vertiginoso, não atropela os pormenores. A quantidade de informação frisa o barroco! Disse barroco?

Marca: Heineken. Título: The Odyssey. Agência: Wieden+Kennedy. Holanda, Janeiro 2014.

À Canadiana

Molson-Canadian-The-RantDepois do anúncio apresentado no artigo anterior (“à irlandesa”), nada como resgatar um discurso borbulhante de exaltação nacional (“à canadiana”). Este tipo de anúncio podia ser português? Poder, podia, mas não me parece haver propensão do auto-conceito nacional para semelhantes rebentos de euforia comparada, a não ser que uma bola de futebol se introduza de permeio, como esfera armilar da navegação actual e metonímia do mundo. Mais próximo, estaria o anúncio irlandês, “se a tanto nos ajudasse o engenho e arte”. Há anúncios portugueses que se avizinham, mas sem o cruzamento, íntimo e natural, entre a tradição e a modernidade conseguido pelo anúncio irlandês.

Marca: Molson Canadian. Título: I am a Canadian. The Rant. Agência: Bensimon Byrne D’Arcy. Canadá, 2000.

Galinha

Andes. The miraculous henEste anúncio argentino apresenta uma nova versão da fábula de Esopo “A galinha dos ovos de ouro”. Só que o ovo é, agora, uma garrafa. Gosto de galinhas. Em francês, ma poule (minha galinha) é uma expressão de afecto. Em Portugal, “galinha choca” aproxima-se do insulto. Saussure diria que a palavra poule em francês e a palavra galinha em português não têm o mesmo valor. Não se prestam ao mesmo.

Marca: Andes Barley. Título: The miraculous hen. Agência: Delcampo Saatchi & Saatchi. Direção: Agustin Alberdi. Argentina, Outubro de 2013.

 

Momentos de verdade

Strongbow. Moment of TruthTrês momentos de verdade, três momentos de viragem no jogo da vida: uma tacada, um remate e um discurso de boda. Os momentos de viragem são a nossa perdição. Há quem dê a volta e há quem dê o flanco… Para vibrar, nada como a Fortuna de Carmina Burana, de Carl Orff.

Marca: Strongbow. Título: Moments of Truth. Agência: St Luke’s, London. Direção: Sam Brown. Reino Unido, Junho 2013

A estatura do género

Cuca. Tarraxinha

O corpo humano é o principal banco de símbolos. Como alvo e como fonte. O corpo feminino talvez mais do que o masculino. Neste anúncio angolano, o corpo feminino serve para significar uma cerveja mini. Não podia ser um corpo masculino? Poder, podia, mas desafiava as coordenadas do nosso imaginário, coordenadas que a publicidade, regra geral, respeita. Uma mulher alta a dançar com um homem baixo é uma figura que inverte o nosso mapa mental. Como diriam Claude Lévi-Strauss, Pierre Bourdieu e muitos outros autores, o alto tende a ser associado ao masculino e o baixo ao feminino.

Marca: Cuca. Título: Tarraxinha. Agência: TBWA Luanda. Angola, Maio 2013.

Barriga de Cerveja

cristal-cero-pregnant-600-62112Ou ando a beber cerveja em demasia ou a espuma já não é o que era. Os anúncios a marcas de cerveja trazem-me confuso. A Schneider (http://tendimag.com/2013/02/19/o-homem-a-cerveja-e-a-maturidade/) promove uma imagem do homem que o aproxima da figura do Trinitá, cow-boy insolente, a acender um fósforo no rabo de uma mulher, para logo lhe pedir desculpa. Parece, já não sei onde o ouvi, que a maioria dos homens sonha, ou já sonhou, ser um avatar de Trinitá. Agora, é a cerveja Cristal Cero que nos embaraça. A barriga de cerveja dá lugar à barriga interessante, prenhe. Eis um fantasma, uma obsessão, dos homens. Assim rezam muito(a)s analistas. A inveja do ovário rivaliza, pelos vistos, com o complexo de castração. A cerveja Cristal Cero acena-nos com a plenitude do homem grávido, biface, espada fálica e taça uterina (Gilbert Durand). Não, não ando a beber demasiada cerveja, a espuma é que já não é o que era. Machos de todo o mundo! Se não têm inveja do ovário, passem a beber água. E, pelo sim, pelo não, não deixem para amanhã a ecografia que podem fazer hoje.

Marca: Cristal. Título: Pregnant. Agência: Porta, Santiago, Chile. Direção: Watta. Chile, Janeiro 2013.