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Solidariedade animal

.Budweiser-Lost-Dog-Superbowl-Commercial-JR2-12815Este anúncio da Budweiser é tão sweet, que lhe acrescento un soupçon de sel.
“Fizestes o caminho do verme ao homem, e muito, em vós, ainda é verme. Outrora fostes macacos, e ainda agora o homem é mais macaco do que qualquer macaco” (Nietzsche, Assim falou Zaratustra).

Marca: Budweiser. Título: Lost Dog. Agência: Anomaly. Direcção: Jake Scott. USA, Janeiro 2015.

Acariciar o desejo

Greene King

Há anúncios que surpreendem. Não precisam de ser bons para ser os melhores. Um solo de bateria e um gole de cerveja! Nem mais, nem menos. E, contra a corrente, um trago solitário. Os anúncios de cerveja convocam, normalmente, grupos de amigos em partilha festiva. Este, nem por isso. A cerveja convida, por instantes, o espectador seduzido: “só tu e eu, num momento íntimo de prazer.” E assim se acaricia o desejo.

Marca: Greene King. Título: King Snare. Agência: Grey. Direcção: George Belfield. UK, Novembro 2014.

Rir de medo

bud-light-hed-2013Fazer rir é difícil! Meter medo, também! Por vezes, o riso e o medo dançam um vira batido, como neste anúncio da Bud Light. O riso e o medo até podem ser perigosos: morre-se de riso e morre-se de medo.

Marca: Bud Light. Título: But he has Bud Light. Agência: DDB (Chicago). USA, 2008.

Cerveja debaixo de água

 

Skol

Este anúncio da cerveja Skol convida-nos a uma festa subaquática, com DJ, barman e tudo o mais. Até um tubarão passeia, com trela, uma mulher. Ambiente estranho e excêntrico. “Azul por fora, inexplicável por dentro”: tanto a festa como a cerveja. As sequências, filmadas debaixo de água, constituíram um desafio humano e técnico, que resultou numa execução preciosa de uma ideia brilhante. Acresce a sensação de levitação associada às imagens subaquáticas. O anúncio Underwater é brasileiro; e a publicidade brasileira está entre as melhores do mundo. É difícil não reparar.

Marca: Skol. Título: Underwater. Agência: F/nazca Saatchi & Saatchi. Direção: Jonathan Gurvit & Maira Gama. Brasil, Outubro 2014.

Regresso às origens

Despedir-se dos anúncios da Guinness não é fácil. São fantásticos! Também me custa esquecer a exposição Vertigens do Barroco (Mosteiro de Tibães, 2007). Na Sala do Recibo do Mosteiro, a um canto, aconchegava-se uma sala de estar com móveis modernos extravagantes e um baú do séc. XVIII onde os anjos não se cansavam de dançar. No centro da sala, corriam, num  ecrã, para a altura faraónico, “cápsulas de emoções”, ou seja, dezenas de anúncios publicitários neobarrocos, entre os quais o Big Ad, da Carlton Draugh (https://tendimag.com/2012/09/08/o-grande-bebedor/), Marry Me, da Siemens (https://tendimag.com/2012/09/07/voo-pre-nupcial/), e o noitulovE, da Guinness, que, estranhamente, ainda não tinha colocado no blogue. É um dos meus anúncios preferidos. Também é dos mais conhecidos. E imitados. Recorrer ao rewind dos trajectos tornou-se moda. Num minuto, a evolução da vida recua, sob o nosso olhar perplexo, até às origens. O minuto que dura o anúncio não é muito, nem é pouco, é a duração suficiente para que o arroto de um peixe pré-histórico (um dipnóico?) complete o ciclo iniciado pelo gole inicial de cerveja numa taberna urbana, a alguns milhões de anos de distância.

Marca: Guinness. Título: noitulovE. Agência: Abbot Mead Vicker BBDO. Direção: Danny Kleinman. UK, 2005.

O catálogo da exposição Vertigens do Barroco está disponível na loja do Mosteiro de Tibães. Trata-se de uma obra colectiva. Junto apenas o texto que assino: Vertigens do Presente. A Dança do Barroco na Era do Jazz (in Gonçalves, Albertino, Mata, Aida, Ferreira, Ângela & Pereira, Luís da Silva, Vertigens do Barroco em Jerónimo Baía e na Actualidade, Braga, Mosteiro de São Martinho de Tibães, 2007). Para aceder ao pdf carregar aqui: Vertigens do Presente. A dança do barroco na era do jazz. ok

Vertigens do Barroco

 

A cerveja dos vampiros

Demons and figures on Wheel. drawing, detail. Frrench 14th cent.

Demons and figures on Wheel. drawing, detail. Frrench 14th cent.

Eis um anúncio capaz de fazer esperar a gata. O tópico principal não se dilui numa procissão de ideias. Mais do que associar a Skol Beats à noite, aspira associar a noite à Skol Beats. O que não é o mesmo, nem é fácil. A estranheza é amiga da noite e da publicidade. O anúncio dá-lhe, no entanto, tempo para se entranhar. A figura do morcego impõe-se: nocturna, esotérica e transgressiva. O homem-morcego é um dos  inquilinos do nosso imaginário. Convive com a sede dos vampiros e a inquietação dos demónios.

Marca Skol. Título: Bats. Agência: F/Nazca Saatchi & Saatchi. Direção: 300 ml. Brasil, Agosto 2014.

Loiras com malte

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Entre uma pessoa loira e uma cerveja loira pouco deve haver em comum. No entanto, os criativos insistem em confundi-las. A marca de cerveja australiana Pure Blonde é reincidente nessa tentação pueril. No primeiro anúncio, A River of Blonde, um simples trago de cerveja é composto por uma multidão de loiras e loiros; o segundo, Pardon, mostra que basta uma ovelha negra, um arroto de um moreno, para destruir a utopia, a loiralândia, terra de loiras virgens onde nasce a cerveja Pure Blonde.

Marca: Pure Blonde. Título: A River of Blonde. Agência: Clemenger BBDO Melbourne. Direção: Steve Rogers. Austrália, 2013.

A Parte e o Corpo

The Hands of Orlac . 1924.

The Hands of Orlac . 1924.

Realidade ou fantasia, a personalidade dupla é um tópico comum. Mais insólito é o tópico da corporalidade dupla. Mais prótese, menos prótese, o corpo pode prescindir de uma parte. A ficção científica vai mais longe: no romance Não Temerei Nenhum Mal, de Robert Heinlein (I Will Fear No Evil,1970), Johann Sebastian Bach Smith enxerta o seu cérebro no corpo de uma funcionária. O problema resume-se em saber a que parte vai sair o híbrido: ao patrão ou à funcionária? O dilema é antigo. No filme mudo The Hands of Orlac (1924), um pianista sofre um acidente que lhe destroça as mãos. Recorre a um transplante. Mas o pianista começa a adoptar comportamentos criminosos. As mãos transplantadas pertenciam a um assassino!

Marca: Cervejaria Nacional. Título: Bike & Beer Belgium 2014. Agência: Brancozulu. Brasil,  Julho 2014.

Este comentário sofre de um vício de interpretação. O anúncio é uma comédia e o comentário enreda-se em tragédias. Como redimir esta perversidade? Neste blogue, analisam-se  muitos anúncios, o que não quer dizer que seja essa a sua vocação. O blogue é um grande “desvocacionado”. Os anúncios são, frequentemente, tomados como pretexto. Neste caso, a aura cultural, e civilizacional, do romance I Will Fear No Evil e do filme The Hands of Orlac é de tal ordem que, proporcionando-se, ignorá-los seria uma falha. No blogue Tendências do Imaginário, os dedos correm sobre as teclas como se fossem cabras.

Vinte homens e uma personagem

Heineken. The OdysseyA cada um o seu talento e alguns minutos de fama

Pela criatividade e pela originalidade, o anúncio Odyssey, da Heineken, arrisca-se a ficar na história da publicidade.
Tudo concorre para um ambiente peculiar, lúdico: a música (16 toneladas, de Noriel Vilela), o navio, o ritmo, os comportamentos e os gestos. Uma heterotopia, diria Michel Foucault. Um carrossel de culturas, acrescentaria.
– Who is that man?
– That can´t be just one man.
Tornou-se habitual reconhecer várias personagens num único ser humano. Neste anúncio, somos convidados a reconhecer vários seres humanos numa única personagem.

Há domínios em que admiro os holandeses. Fazem um anúncio e escolhem uma música brasileira. É a sua maneira de ser globais. Na maior parte dos países, incluindo Portugal, faz-se um anúncio e escolhe-se uma música inglesa. É a sua maneira de ser globais. Uns são fecundos, outros são fecundados.

Este anúncio é brilhante, pixel a pixel. O ritmo, vertiginoso, não atropela os pormenores. A quantidade de informação frisa o barroco! Disse barroco?

Marca: Heineken. Título: The Odyssey. Agência: Wieden+Kennedy. Holanda, Janeiro 2014.

À Canadiana

Molson-Canadian-The-RantDepois do anúncio apresentado no artigo anterior (“à irlandesa”), nada como resgatar um discurso borbulhante de exaltação nacional (“à canadiana”). Este tipo de anúncio podia ser português? Poder, podia, mas não me parece haver propensão do auto-conceito nacional para semelhantes rebentos de euforia comparada, a não ser que uma bola de futebol se introduza de permeio, como esfera armilar da navegação actual e metonímia do mundo. Mais próximo, estaria o anúncio irlandês, “se a tanto nos ajudasse o engenho e arte”. Há anúncios portugueses que se avizinham, mas sem o cruzamento, íntimo e natural, entre a tradição e a modernidade conseguido pelo anúncio irlandês.

Marca: Molson Canadian. Título: I am a Canadian. The Rant. Agência: Bensimon Byrne D’Arcy. Canadá, 2000.