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Bendito aborrecimento

L'Ennui

Quando um anúncio parodia uma “performance de arte contemporânea”, respira requinte. Quando desafia as conveniências fazendo humor com um tema como a deficiência, é brilhante. Graças a uma estranha alquimia, o incómodo cede o lugar à confiança e à esperança. “Poder aceder”, a liberdade de acesso, significa aceder a tudo, até ao indesejável. L’ennui afirma-se como um anúncio original, inteligente e criativo. Desprende-se apenas uma sombra. O anúncio lembra uma folha caída de uma cultura europeia outonal.

Anunciante: Jaccede. Título : L’ennui. Agência : TBWA/PARIS. Direcção: Hugues de la Bosse. França, Dezembro 2017.

Tecnofilia surrealista

Samsung Galaxy

Por que tantas crianças, do ventre à puberdade? As crianças são o futuro; e o futuro é uma criança. “O mundo pula e avança, como uma bola colorida, nas mãos de uma criança” (António Gedeão). E tanta água? Para quê tanta água. A água é o berço da vida, o alfa da estética e a fonte do prazer. Mergulhar! Não há melhor imersão, de preferência, virtual. Consegue distinguir real e irreal? O irreal é “mais real do que o real” e o real desrealiza-se. O futuro começa agora, o impossível, esse, começa com a Samsung!

Um belo anúncio, complexo, mas consistente. Um rodopio de imagens, sem pontas soltas. Afinal, “o essencial [não] é invisível aos olhos” (Principezinho). Prepare-se para uma mão-cheia de prazeres. Samsunganize-se! Faça o que não pode! Seja normal!

Marca: Samsung. Título: The new normal. Agência: Leo Burnett. Direcção: Mark Zibert. Estados Unidos, Abril 2017.

Nos videojogos, o futuro já começou. O impossível tornou-se banal. Segue um trailer, notável, do Starcraft, Resmastered – We are under Attack (2017). O anúncio da Samsung é eufórico, o do Starcraft, disfórico. Desta vez, é a sério: os extraterrestres invadem o planeta. Prepare-se para uma chuva de emoções fortes. As emoções decorrem cada vez menos das relações entre humanos e cada vez mais das relações com as máquinas. Starcrafte-se!

Starcraft. Remastered- We are under Attck. 2017.

A Teia

René Magritte. Au Seuil de la Liberté. 1937.

René Magritte. Au Seuil de la Liberté. 1937.

Dizem os sábios que a liberdade é um estado e a libertação, um acto. Afirmam, também, que tendemos a sentir o acto, mas não o estado. À libertação opõe-se a opressão. A liberdade aumenta com a libertação e diminui com a opressão. Na segunda metade do século XX, viveram-se momentos de libertação: a descolonização, a emancipação da mulher, a independência dos países de Leste, a queda do muro de Berlim, a fragmentação da Jugoslávia e a independência de Timor Lorosae. Nas últimas décadas, não se vislumbram sinais expressivos de libertação (a não ser que se considere a Primavera Árabe uma libertação). Ao nível global, o aumento da opressão é-nos servido diariamente na bandeja mediática. Ao nível nacional, o Estado regulador cerceia as margens de liberdade, nos actos, nas palavras e nas omissões. O seu zelo estende-se a esferas outrora consideradas privadas ou íntimas. A autonomia é condicionada pela normalização, pela programação e pelo controlo. Há quem, no início dos anos 2 000, se sinta menos livre do que há três décadas atrás. Os ímpetos libertadores dos anos sessenta enrolam-se agora numa teia sem princípio nem fim. E os computadores? E a Internet? E o tribunal de Haia? E as ONG? Na verdade, o que capacita pode não libertar.

Marca: Yves Saint Laurent. Título: Femmes Modernes. Agência: CLM & Team. França, 1973.