Mamas suplentes

Auguste Rodin – Torse d’Adèle – 1880
O anúncio “Tetas x Tetas”, do Movimiento Ayuda Cáncer de Mama (Argentina), é um ovo de Colombo criativo, com humor e duplo impacto (ao nível do rastreio do cancro da mama e da censura). O site da televisão francesa Culturepub fala de uma ideia genial:
Nas redes de Mark Zuckerberg (Facebook, mas também no Instagram, adquirido em 2012), é impossível mostrar a mínima ponta de um mamilo. O excesso de pudor americano impõe uma censura implacável de todas estas “coisas” que, apesar de tudo, permitiram ao homo sapiens assegurar a sua sobrevivência e a da sua descendência durante alguns 200 000 anos. Em contrapartida, no Facebook, é possível, sem problemas, defender posições racistas, anti-semitas ou, muito simplesmente, conspurcar a face da “vítima” do colégio…”(http://www.culturepub.fr/pink-ribbon-cachez-ce-sein-que-facebook-ne-saurait-voir/).
“Virtude legítima ou discriminação sexista? Sem pretender rematar o debate, constate-se que esta política levanta um problema quando se trata de promover a prevenção do cancro da mama junto das jovens gerações conectadas às redes sociais” (http://www.culturepub.fr/une-idee-geniale-pour-contourner-la-censure-sur-facebook-et-instagram/).
E se os mamilos tivessem sido alvo de censura na pintura e na escultura ao longo dos séculos? Como seria a História da Arte? Acresce uma galeria de imagens.
Anunciante: Macma. Título: Tetas x tetas. Agência: David. Argentina, Abril 2016.
Galeria de imagens: Os seios na arte
Fumar é feio
As três parcas da higiene pública são o nojo, a culpa e a morte. Moram no jardim da publicidade degradante. Estes três anúncios, dois da Fundação Portuguesa de Cardiologia e o terceiro da Asociación Española Contra el Cancer, convocam o nojo, à boa maneira dos anúncios anti tabaco do início dos anos 2000. Estes vídeos são difíceis de encontrar. Desconhece-se o motivo.
A ameaça intestinal

Luís Alves da Costa. O Sétimo Selo. Malinconia. Trombetas. httpapocalipsedepatmos.blogspot.pt201206o-setimo-selo-malinconia.html
Sabe que vai morrer? A publicidade votada ao bem público aplica-se a lembrar-lho. Morre-se de acidente cardiovascular ou rodoviário, de insuficiência renal ou hepática, de doença pulmonar crónica, de cancro na próstata, na mama, na pele, nos ovários, no pâncreas… e nos intestinos. O cancro do cólon sobressai entre os mais mortíferos. O nosso corpo é tão perfeito que podemos morrer por qualquer órgão. Pela Páscoa, sentimo-nos pecadores. Com a publicidade de consciencialização, sabemos que somos mortais. Só o medo é que não morre.
Neste anúncio da Felix Burda Foundation, um coro de crianças revela-se, de um modo tétrico, profeta da desgraça. Deve ser uma variante de angelismo apocalíptico. Soa estranho a palavra morte na boca de uma criança. Também soa estranha a devastação do mundo pelos sete anjos trombeteiros (Apocalipse 8). E se, em vez de sete anjos, tivermos um coro infantil com dezoito crianças num cenário de cemitério, com abutres a rondar o relógio e ninguém na plateia? Convenha-se que não é fácil conceber um anúncio em torno dos intestinos. Os intestinos localizam-se na zona dos infernos corporais, no epicentro do grotesco carnal.
Com tanto medo da morte, ainda virá um dia em que desejaremos morrer sem o conseguir: “E naqueles dias os homens buscarão a morte, e não a acharão; e desejarão morrer, e a morte fugirá deles” (Apocalipse 9). Morra a morte, morra! Pim!
A Esmeralda Cristina enviou-me, da Alemanha ou do Brasil, este anúncio. Apesar de residir na Alemanha, é a orientanda com quem mais comunico. Fazemos imensos planos. Falho quase todos. Com paciência de Job, não leva a mal! Está a fazer uma tese, precisamente, sobre a publicidade de sensibilização. Seguem alguns excertos do seu comentário ao anúncio:
“Sensibilizar para a morte… Um anúncio alemão que tem como intenção chamar a atenção para o controlo regular dos intestinos como forma de precaver a morte. O texto cantado por crianças, o que demonstra um pouco de inocência, mas com palavras duras de crítica incipiente que afirmam que os adultos têm tempo para tudo, menos para controlar o corpo. O tempo passa…tic tac…tic tac… Tudo é feito menos o controlo do intestino, o que conduz a que de um dia para outro… tic tac ‘tu estás morto’! Com esta afirmação termina a canção e o spot publicitário. Mas será que as pessoas ficam a pensar em controlar o seu intestino ou será que pensam que podem morrer com algo no intestino? O medo também faz com que as pessoas fujam aos controles. Mas no subconsciente permanece o medo de morrer, o que pode levar o corpo à produção do que não quer… Assim o que produz este anúncio? medo? precaução? morte? ou felicidade? segurança? vida?” (Esmeralda Cristina).
Anunciante: Felix Burda Foundation. Título: The Children’s Song. Agência: Heimat, Berlin. Alemanha, Março 2016.
Os ventos de baixo e as termas da frente
A nossa sociedade mantém, pesem os auto retratos sem preconceitos, alguns tabus ou, com eufemismo, algumas inconveniências. Incomodamo-nos pudica e naturalmente. Muitos tabus remetem para os órgãos, as funções e os usos do corpo. Mas os tabus, mesmo entranhados, também se abatem. Quando valores mais altos se levantam. A saúde, a qualidade de vida e o adiamento da morte constituem um ramalhete de valores supremos, quase incontestáveis, na nossa sociedade.
O desconforto gerado por estes anúncios justifica-se pelos objectivos visados. Keep Farts Funny elenca uma taxonomia ilustrada dos “ventos de baixo” (Erasmo, De civilitate morum puerilium, 1530), suscitando um riso ambivalente, misto de constrangimento, espanto e transgressão.
Semaine da l’Incontinence 2016 aborda, com humor, as termas da frente (expressão inspirada em François Rabelais). Compara, com recurso a estatísticas, a incontinência com anomalias de igual incidência, concluindo que a incontinência não é um caso à parte, é curável e não deve ser encarada como um estigma.
Para terminar, um excerto do comentário da Culturepub (França):
“A ceux qui s’étonneront du caractère très léger (ou lourd, c’est selon) de cette communication, sachez qu’en matière de maladies graves, miser sur l’humour permet souvent de dédramatiser pour mieux sensibiliser. En revanche, pour les appels aux dons, mieux vaut faire pleurer dans les chaumières” (http://www.culturepub.fr/un-guide-du-pet-pour-lutter-contre-le-cancer/).
Talvez não convença, mas dá que pensar: o mais avisado é sensibilizar com o riso e pedir com lágrimas.
Anunciante: Meredth’s Miracles Colon Cancer Foundation. Título: Keep Farts Funny. Agência: FCB Chicago. Direcção: Ben Flaherty. USA, Março 2016.
Anunciante: AFU – Association Française d’Urologie. Título: Semaine de la Continence 2016. França, Março 2016.
Pelos pulmões
As férias prestam-se ao disparate. De que morreram os meus autores favoritos? A maioria de doenças pulmonares:
– Samuel Beckett, enfisema pulmonar;
– Jacques Prévert, cancro do pulmão;
– Jacques Brel, cancro do pulmão;
– Pierre Bourdieu, cancro do pulmão;
– Dmitri Shostakovich, cancro do pulmão;
– Max Weber, pneumonia;
– Marcel Proust, pneumonia;
– Jacques Tati, pneumonia.

Mikhail Bakhtin. Caricatura.
Eis o “obituário”. Outros autores, como o Erving Goffman, morreram de outras causas. Quanto a Mikhail Bakhtin, fumador, não consegui apurar a causa da morte (ver caricatura). As doenças do coração e cardiovasculares rivalizam com as pulmonares. Enfim, os demais autores também não estão vivos.
Este anúncio brasileiro distingue-se pela estética e pela ética, qualidades raras na publicidade contra o tabagismo.
Anunciante: Unimed. Título: War. Agência: F. Nazca Saatchi & Saatchi São Paulo. Direcção: Airton Camignani. Brasil, 2008.
Pecado mundial
“OMS declara salsichas e enchidos tão cancerígenos como o tabaco”, eis o título da notícia no jornal Expresso de 26.10.2015 (http://expresso.sapo.pt/dossies/diario/2015-10-26-OMS-declara-salsichas-e-enchidos-tao-cancerigenos-como-o-tabaco). “Segundo documento, 50 gramas de carne processada por dia, o equivalente a duas fatias de bacon, aumentam a chance de desenvolver câncer colorretal em 18%” (http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/10/151026_carne_cancer_oms_fn).
Vamos trocar a aparência dos números. Porque os números também falam!
“Existem 42 152 novos casos de cancro colo-rectal estimados em 2013 em França metropolitana (23 226 homens e 18 926 mulheres). A taxa de incidência, normalizada, em 2012 é igual a 38,4 por 100 000 homens e 23,7 por 100 000 mulheres” (http://www.e-cancer.fr/Professionnels-de-sante/Les-chiffres-du-cancer-en-France/Epidemiologie-des-cancers). Seja, 0,000384 e 0,000237, respetivamente. Aplicando o aumento de 18% ao exemplo francês, a incidência sobe, nos homens, de 0,000384 para 0,000453 e, nas mulheres, de 0,000237 para 0,000280. Uma diferença muito inferior a um para 10 000: 0,000069 e 0,000043. Espero não me ter enganado nas contas.
Nos nossos dias, grassa uma obsessão pela alimentação. Alimentação pela boca, pelos ouvidos e pelos olhos. Sais de fruto, para sempre! Certo é que tanto adoramos a alimentação como a tememos.
Ao nível do planeta, especialmente em África, o mais preocupante é a falta de alimentação. A fome. Segundo a FAO (The State of Food Insecurity in the World: http://www.fao.org/3/a-i4030e.pdf), em 2012-2014, havia 803 milhões de pessoas subnutridas, ou seja, 11,3% da população mundial.
Morram as salcichas, pim! Morram os enchidos, pum! Viva a música, pim, pam, pum! Ave Mundi, pam!
No princípio, era a palavra
No princípio, era a palavra. Agora, insinua-se a imagem. Mas a imagem sem a palavra assemelha-se a um balão S. João. Este anúncio centra-se, precisamente, na palavra, que, banner a banner, se apropria do ecrã. O anúncio parece artesanal, o que não desmerece. Importam mais as palavras e as pessoas do que a pós-produção e os efeitos especiais. O anúncio expõe uma iniciativa específica que obteve alguns resultados no combate ao cancro do colo do útero. Com palavras!… Ao contrário da maioria dos anúncios de consciencialização, este não é profético. Não anuncia terras prometidas, nem separa o trigo do joio. É evangélico, faz obra e apregoa a boa mensagem. Mais Cristo, menos Moisés.
Anunciante: Always. Título: Intimate Words. Agência: Leo Burnett. México, Abril 2015.
A Dança dos Cus

A. Dürer desenhou este rinoceronte sem nunca ter visto um especímen. Baseou-se no relato de um português. O bicho fazia parte da embaixada, de 1515, ao papa Leão X. O barco que o transportava naufragou. O rinoceronte afogou-se antes de chegar ao Vaticano.
O assunto é sério, mas, hoje, apetece-me escrever disparates. Muito antes da festa da colonoscopia islandesa, já existia, em Portugal, a “dança dos cus”, designadamente no carnaval de Cabanas do Viriato.
“Manda a tradição que saia à rua a “dança dos cús” e que ao som da valsa que se repete ao longo de todo o percurso os participantes vão dançando em duas filas e que cruzem no centro batendo com os traseiros uns nos outros”.
Tive o ensejo, no século passado, de falar na televisão acerca desta dança, que inspirou os islandeses. No século XVI, o nosso rei Venturoso fez uma viagem à Islândia para desfrutar das termas quentes com gelo e, sobretudo, para assegurar uma rena para a embaixada ao Papa Leão X. Fez-se acompanhar por um grupo de saltimbancos (vem de longe esta praxe diplomática), que interpretaram danças camponesas, entre as quais a folia portuguesa e a dança dos cus. Os islandeses quase nos superam na dança dos cus. Por outro lado, consta que existe na Islândia uma canção de taberna que é uma versão da folia portuguesa. Glory days! Escrevo em inglês para melhor compreensão por parte dos ilustres conterrâneos. This text is nothing but a joke! Um arremedo.
Anunciante: Icelandic Cancer Society. Título: Save your ass. Agência: Brandenburg. Direcção: Samuel & Gunnar. Islândia, Março 2015.
PS: Anuncio que vou escrever disparates no artigo. Termino com a confissão de que se trata de uma brincadeira. Mas a forma como está escrito pode induzir os leitores em erro. Contém inverdades. E quanto mais absurdas forem as mentiras mais as pessoas se mostram propensas a lhes dar crédito. O rei D. Manuel I não foi à Islândia à procura das termas ou de renas. Tão pouco houve saltimbancos a interpretar, na Islândia, danças camponesas portuguesas. Este anúncio não foi influenciado pela dança dos cus do Carnaval de Cabanas do Viriato. O resto, quanto sei, é verdade. Sorry!
Humor frutado
“L’homme n’est ni ange ni bête, et le malheur veut que qui veut faire l’ange fait la bête” (Blaise Pascal, Pensées).
“O homem nem é anjo nem é besta, e o infortúnio dita que quem quer fazer de anjo faz de besta”.
Humor macabro destilado nos alambiques da consciencialização rumo a uma prevenção provavelmente eficaz entre os humanos. Qual será a opinião dos vermes?
Anunciante: Canadian Cancer Society. Título: Operating room. Agência: Rethink. Direcção: Michael Schmidt. Canadá, Janeiro 2015.
Para além da virilidade
A virilidade guerreira tem picos. Por exemplo, o mundial de futebol. Estranhei, não obstante, o início deste anúncio: um regresso à caserna, a matriz da virilidade guerreira? Mas não! O anúncio termina com uma reviravolta genial. A virilidade manifesta-se, inesperadamente, vulnerável. Paradoxalmente, a virilidade limita o homem. Os militares, embora corajosos, receiam o exame de despistagem do cancro da próstata. “The fear of a prostate exam is more dangerous than cancer. Be brave! Get checked”. Um anúncio de consciencialização excelente!
Anunciante: National Institute of Neoplastic Diseases. Título: The Visit. Agência: DDB. Direcção: Jorge Caterbona, Dante Effio, Eduardo Gutierrez. Peru, Julho 2014.





















