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Pelo contrário

Sonia Delaunay. Girls in bathing suit. 1928

Sonia Delaunay. Girls in bathing suit. 1928.

Isabelle Mayereau é uma “cantautora” francesa pós Maio 68. A música, simples, lembra um fio de água de uma nascente hipnótica. As letras, arabescos de um delírio híbrido, nem são estranhas, nem são familiares. São amigas do paradoxo. A obra de Isabelle Mayereau não granjeou o sucesso merecido, nem outrora, nem agora. É verdade que não se trata de um Jacques Brel, de um Serge Gainsbourg, nem de um George Brassens, seu mestre. Marcou, no entanto, muitos cantores actuais. Gosto de obras com pouco sucesso: sabem-me a dobrar! Abraçar o desconhecido é uma bênção. Conheci Isabelle Mayereau através do álbum Déconfiture, de 1979. Uma aposta cega num catálogo francês equivalente do Círculo dos Leitores. Desde então, sou “seguidor”. Seguem três canções dos anos setenta: Tu m’écris (1978), Hash (1977) e Stars Fantômes (1977).

Isabelle Mayereau. Tu m’écris. Isabelle Mayerau. 1978.

Isabelle Mayereau. Hash. Isabelle Mayereau. 1977.

Isabelle Mayereau. Stars Fantômes. 1977.

A última vontade

Serge Reggiani

Serge Reggiani

Gosto de ouvir música enquanto leio ou escrevo. Propicia uma atmosfera balsâmica. Distraio-me a compor ramalhetes musicais para consumo futuro. Hoje é a vez de Serge Reggiani. No meu panteão da “canção” francesa, está ao lado do Jacques Brel ou do Léo Ferré. Cantam, antes de mais, poemas, poemas sobre a humanidade. Poemas para a humanidade. Poemas que dão a um homem vontade de o ser.

Para a “lista” do Serge Reggiani, retive três canções já publicadas, isoladamente, no Tendências do Imaginário: Sarah; Le temps qui reste; e Ma liberté. Acrescento: Ma dernière volonté; Ma solitude; e Il suffirait de presque rien.

A maioria das pessoas não aprecia este tipo de música, ademais em francês. Mas quem gosta gosta mesmo. Tem direito ao prazer! No que me respeita, a canção Ma dernière volonté é um caso sério: quase me rouba a identidade antes de ela existir.

1. Serge Reggiani. Sarah. Album nº2. 1967.

2. Serge Reggiani. Ma Solitude. Album nº 2. Letra e música de Georges Moustaki.

3. Serge Reggiani. Ma liberté. Album nº 2. Composta por Georges Moustaki. 1967.

4. Serge Reggiani. Il suffirait de presque rien. Et Plus. 1968.

5. Serge Reggiani Ma derniere volonte. Venise n’est pas en Italie. 1977.

6. Serge Regianni. Le temps qui reste. Long Box Serge Reggiani. 2004.

 

Despir

 Despir: EXPEDIRE, “liberar, soltar, retirar, preparar”, literalmente “soltar os pés de um laço, de algo que prende”, formado por EX-, “para fora”, mais PEDIS, “corrente para os pés”, de PES, “pé” (http://origemdapalavra.com.br/site/palavras/despir/).

Juliette GrécoQuanto mais procuro, mais encontro. Esta é a minha primeira regra metodológica. O que encontro? Fragmentos. Parte do que procurei e parte do que encontrei sem procurar. Estou a brincar com as palavras? Naturalmente, mas há muito fenómeno que não mora na lógica e corre na realidade. Esta regra não aparece nos manuais de metodologia. Têm outras preocupações. Por exemplo, recomendar a procura do que já se sabe e a antecipação dos resultados mal se inicia a investigação, como o padeiro antes de colocar o pão no forno. Às vezes, tenho a estranha sensação de que a investigação se está a afastar da descoberta.

Mylène FarmerJuliette Greco e Mylène Farmer são duas grandes damas, duas gerações, da música francesa. Juliette canta “Déshabillez-moi” (La Femme, 1967), Mylène Farmer retoma a canção, vinte anos depois, em 1988, no álbum Ainsi soit je. Uma demonstração de quanto o mesmo se pode tornar diferente.

Juliette Greco. Désabillez-moi. La Femme. 1967.

Mylène Farmer. Désabillez-moi. Ainsi soit je. 1988.

Vim para te dizer que vou embora!

Vincent Van Gogh. A Pair of Shoes, Paris, 1886.

Vincent Van Gogh. A Pair of Shoes, Paris, 1886.

Gosto de Serge Gainsbourg, uma espécie de sósia: torto, cavernoso e molesto. Gosto do Paul Verlaine, compositor de palavras, convocado em Je suis venu pour te dire que je m’en vais (1971). Gosto de Jacques Prévert, das “folhas mortas”, e da Chanson de Prévert (1961), de Serge Gainsbourg. Gostava de ir embora, mas o governo decretou um limbo profissional: entre a idade a que teria reforma e aquela que não sei se terei. Em tempo de crise, o envelhecimento também tem limites. Responsabilidades? Os governos já se pronunciaram: Portugal tem funcionários e os portugueses fazem compras. “Vou pedir contas ao mundo além naquele coreto”. Lá vai um! Lá vão dois! Três bancos a voar. Um pago eu, o outro pagas tu, o outro paga quem puder (paráfrase de José Afonso. Avenida de Angola. Traz outro amigo também. 1970).

Serge Gainsbourg. Je suis venu te dire que je m’en vais. Vu de l’extérieur. 1971.

Serge Gainsbourg. La Chanson de Prévert. L’étonnant Serge Gainsbourg. 1961.

No meu país, canção diz-se song

No meu país, canção não se diz chanson, nem canción, nem canzone. No meu país, canção diz-se song. Conhece a cantora francesa Patricia Kaas?

Patricia KaasPatricia Kaas. Les hommes qui passent (1990).

Todo o mundo à porta; ninguém à janela.

Passa tanta gente à minha porta. E a solidão cá dentro.

A canção francesa, em tempos universal, está em vias de relocalização. Regressa às caves do Boulevard Saint Germain. Entretanto, uma língua e três ou quatro culturas particulares universalizam-se. O resto relocaliza-se, inventaria-se, resiste ou desiste. Hoje, (re)produz-se à moda dos coelhos: vai ser tão bom, não foi? Com tamanha velocidade não há lugar para a solidão. Não? E, contudo… Nos resíduos dos quatro cantos, toca o sino de Wall Street. Sempre há quem se pendure nas calças dos gigantes; e os abutres indígenas, omnívoros, atiram-se a qualquer porcaria com molho de cifrão. A solidão acompanha a dança; faça-se de conta que não é connosco.
O tema da solidão é caro à canção francesa. Escute-se, por exemplo, Georges Moustaki e Léo Ferré.

Georges Moustaki. Ma Solitude. 1969

Léo Ferré. La Solitude. 1971.