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Uma Flor num Inferno

“Chanson pour Anna”, do Daniel Guichard, é flor que, como a camélia, teima em reaparecer no inverno, estação que não nos larga. É dedicada a Anne Frank, uma flor num inferno. Acrescente-se “Reste”, uma canção de despedida, seguida por “Prends-moi dans tes bras”, um pedido de refúgio, e teremos três belos poemas que se encadeiam. Recoloco “Mon Vieux” e “La Tendresse”. Fazem também parte do meu jardim de inverno.

Imagem: Frank, dezembro de 1941

Daniel Guichard – Chanson pour Anna. Mon vieux, 1974. Live 2015. Gravado no Teatro Sébastopol, em Lille.
Daniel Guichard – Reste. Notre histoire, 2012. Live 2019. Gravado no Teatro Sébastopol, em Lille.
Daniel Guichard – Prends-moi dans tes bras. Mon vieux, 1974. Live 2019. Gravado no Teatro Sébastopol, em Lille.
Daniel Guichard – Mon vieux. Mon vieux, 1974. Live 2015. Gravado no Teatro Sébastopol, em Lille.
Daniel Guichard – La tendresse. La tendresse, 1973. Live 2019. Gravado no Teatro Sébastopol, em Lille.

Cantável. Hervé Vilard

Nunca fui de cantorias, mas acontecia trautear uma ou outra canção. Na infância e juventude, abundavam as músicas particularmente cantáveis. As canções de Hervé Vilard destacavam-se: qualquer contexto ou pretexto servia para as cantarolar, desde “Capri c’est fini” a “Comme d’habitude” (cover de Claude François), passando por “Nous” e “Reviens”.

“Capri c’est fini” alcançou um enorme sucesso em 1965. Compositor e intérprete, Hervé Vilard tinha 19 anos. Faz parte do rol de cantores menos conhecidos do que as respetivas canções. A sua história de vida, plena de reviravoltas e atribulações, manifesta-se digna de ser conhecida (ver aqui , em francês). Mais um caso que sugere que a geração nascida após a Segunda Guerra ser caracterizada por uma adolescência particularmente marcante.

Hervé Vilard – Capri c’est fini. Single, 1965
Hervé Vilard – Nous. Single, 1978. Álbum Nous, 1979
Hervé Villard – Reviens. Je L’Aime Tant, 1981
Hervé Vilard – Comme d’habitude (cover de Claude François 1967), Les Chansons que j’aime, 1984

Dançar à chuva

A vida não é esperar que a tempestade passe, mas aprender a dançar à chuva (Séneca)

Estou a preparar uma conversa. Custa! Afortunadamente, resulta tarefa rara. Depois de abraçar a ignorância, foco-me, agora, na organização da comunicação propriamente dita. Tento, sobretudo, abreviá-la e simplificá-la. Esta transição alivia-me. Abre-me, por exemplo, a porta à alegria e energia da cantora francesa Zaz. Seguem três canções que dão vontade de dançar com as fadas à chuva.

Zaz – Je veux. Single, 2008. Álbum: Zaz, 2010
Zaz – La fée. Zaz, 2010. live session at the Songkick Paris offices, 2019
Zaz – Imagine. Isa, 2021

A Alma das Flores Secas

Dans mon jardin secret
Dans mon imaginaire
La vie est plus légère
On fait ce qu’il nous plaît

Tudo me lembra alguma coisa. As memórias, como flores secas no livro da vida, aguardam uma gota, eventualmente um esboço de lágrima, que lhes proporcione seiva. Tudo me lembra alguma coisa, não porque tenha uma biografia recheada. Rodeado mais por imagens do que por demónios, aproximo-me de um eremita que pasma solenemente e se expõe cada vez menos, despojando-se de atavios e venturas que lega aos insaciáveis. Mas existiram, mesmo assim, picos, momentos marcantes.

Pianista, compositora e cantora, Nara Noïan nasceu na Arménia e fez carreira em França. À semelhança de outras celebridades, como o também “arménio” Charles Aznavour, o “argelino” Enrico Macias ou o “grego” Georges Moustaki, entrega-se à “canção francesa” (e.g. “Dans mon jardin secret”) sem esquecer as raízes (e.g. “Mon Arménie”).

Nara Noïan – Dans mon jardin secret. Les Regrets Inutiles, 2015 (Clip Officiel, 2016).
Nara Noïan – Mon Arménie. Single, 2015

Mas a música que pretendo relevar é, sobretudo por causa do título, “Doucha – Soul”.

Nara Noïan & Vardan Hovanissian – Doucha – Soul. Nara Noïan. Cristal, 2014

Entre 1976 e 1982, estudei em Paris. Trabalhava, a tempo parcial, às sextas, sábados e durante as férias, num banco português. Amealhava o suficiente para escapadas mais ou menos longas. Só, bagagem ligeira, com roteiros e agendas flexíveis, explorava novas terras e gentes. O tempo dedicado a cada destino dependia do prazer da estadia.

Naquele tempo, se me perguntassem para que viera ao mundo, a resposta seria “para dar e receber amor”, mais prosaicamente, para namoriscar. Nem para estudar, nem para trabalhar, nem para viajar, nem sequer para defender a Pátria. Um impenitente colecionador de afrodites.

O que me atraía num lugar não eram tanto os monumentos, as paisagens e os lazeres, mas as pessoas, especialmente as mulheres.

Com 18 anos, parti em agosto rumo à Itália e à Jugoslávia e regressei no final de outubro. Atardei-me duas semanas em Veneza graças a uma jovem professora de biologia, uma semana na ilha de Hvar com uma turista francesa e mais de uma semana em Tuzla por artes de uma estudante de medicina.

Tuzla foi uma experiência única. À meia-noite, bati, sem aviso prévio, à porta de um colega do curso de Sociologia. No dia seguinte, parecia que toda a gente me conhecia. Nos cafés, ao pagar a conta, já estava paga por algum curioso que desejava satisfazer a curiosidade. Fui, inclusivamente, convidado para dar uma palestra sobre o 25 de Abril, em francês, numa universidade local.

A interação com Snježana (em bósnio: branca como a neve) era sui generis. A comunicação resultava difícil: falava sobretudo alemão, que eu não dominava [embora tenha frequentado um curso no edifício da Universidade de Filosofia, mas o que me movia não era a aprendizagem da língua; retive apenas algumas expressões de utilidade indiscutível tais como “Du bist sehr schön  [ou hübsche]” (Tu és muito bonita). Em suma, a salvação era a linguagem gestual.

Garantira-lhe que permaneceria em Tuzla o tempo que me aprouvesse. Quando anunciei o regresso a Paris, não parava de dizer “laž” [láj], mentira. Retorquia, contristado, “nema laž” (nenhuma mentira). As aulas tinham iniciado havia três semanas e estava a ficar sem dinheiro…

Snježana costumava chamar-me “dusha”, palavra, essa sim, que me intrigava. O amigo hospedeiro acabou por me esclarecer: alma, coração, ente querido. Como o título da música de Nara Noïan! Tudo me lembra alguma coisa. Até uma simples palavra de outros mundos.

O colecionador de namoricos resume-se agora a um (re)contador de estórias. Resgatar folhas secas para colorir um jardim que nem sequer cuida de (p)reservar.

Há quase meio século. Fotografado por Álvaro Domingues

Amores humanos e lugares sagrados

O Canadá é um berço ímpar de intérpretes musicais: Neil Young, Leonard Cohen, Diana Krall, Celine Dion, Alanis Morissette… Chantal Chamberland destaca-se como um desses talentos. Ousa dar um toque pessoal, com um muito ligeiro sotaque québequois, a canções que nos convencemos ser indissociáveis das celebridades que as imortalizaram, tais como Joséphine Baker, Charles Trenet, Jacques Brel ou Yves Montand.

Imagem: No Mosteiro de Tibães. Fotografia de Maria Fátima Machado Martins

Guimarães também é berço. Da Nação e de excelentes artistas visuais.

Antigo emigrante em França, adoro entreter-me a faire des bricoles. Desta vez, deu-me para sobrepor duas séries relativamente extensas: uma lista com canções interpretadas pela Chantal Chamberland e uma galeria com fotografias da Maria Fátima Machado Martins. Preguiçoso, confinei a seleção às fotografias partilhadas que tirou no Mosteiro de Tibães, um recanto privilegiado para atividade e retiro. A Chantal Chamberland tanto canta em inglês como em francês. Por agora, abracei a segunda língua. Condiz mais com a minha cara. Quando se produz um regalo, importa assiná-lo!

A cada fotografia corresponde uma canção, identificada na respetiva legenda. Insinua-se uma certa dissonância entre ambas: as canções prendem-se com amores humanos e as fotografias com lugares sagrados. Na verdade, amores humanos e lugares sagrados não são de todo incompatíveis.

Chantal Chamberland – J’ai deux amours (Joséphine Baker, 1930). Soirée, 2014. Fotografia do Mosteiro de Tibães por Maria Fátima Machado Martins
Chantal Chamberland – Que reste-t-il de nos amours? (Charles Trenet, 1943) Soirée, 2014. Fotografia do Mosteiro de Tibães por Maria Fátima Machado Martins
Chantal Chamberland – Les feuilles mortes (Yves Montand, 1949). Serendipity Street, 2003. Fotografia do Mosteiro de Tibães por Maria Fátima Machado Martins
Chantal Chamberland – Ne me quitte pas (Jacques Brel, 1959). Serendipity Street, 2003. Fotografia do Mosteiro de Tibães por Maria Fátima Machado Martins
Chantal Chamberland – Dis moi (The Beatles, 1966). Soirée, 2014. Fotografia do Mosteiro de Tibães por Maria Fátima Machado Martins
Chantal Chamberland – Je l’aime à mourir (Francis Cabrel, 1979). Autobiography, 2015. Fotografia do Mosteiro de Tibães por Maria Fátima Machado Martins
Chantal Chamberland – Mon mec à moi (Patricia Kaas, 1988). Soirée, 2014. Fotografia do Mosteiro de Tibães por Maria Fátima Machado Martins

Já faltou mais!

Má sorte a daqueles que lhes censuram o nome! Velhos não são os trapos, velhos somos nós! Como as crianças são crianças, os jovens, jovens e os adultos, adultos. Cada qual com a sua dignidade e distinção. De eufemismo em eufemismo, a sociedade disfarça realidades e coteja fantasmas.

Rembrandt, Bust of an Old Bearded Man, Looking Down,1631

Segue uma mão, aprazivelmente enrugada, de canções vintage francesas ainda não contempladas no Tendências do Imaginário.Todas com letras notáveis. Cantar a velhice faz bem aos pulmões, ao coração e à cabeça. Uma maneira, como qualquer outra, de partilhar e agradecer. Obrigado!

Herbert-Félix Thiéfaine – La ruelle des morts. Suppléments de mensonge. 2011
Bénabar – La Coquette. Les risque du métier. 2003
Zas – Si je perds. Recto verso. 2013
George Brassens – Marquise. Les Trompettes de la renommée. 1962. No programa “Cinq colonnes à la une”, da RTF, do7 de dezembro de 1962.
Georges Moustaki – La vieillesse. Ballades en Ballade: Racines et Errances. 1975

A razão e o coração

“Conhecemos a verdade, não somente pela razão, mas ainda pelo coração; é desta última maneira que conhecemos os primeiros princípios, e é em vão que o raciocínio, que deles não participa, tenta combatê-los (…) E é tão ridículo que a razão peça ao coração provas dos seus primeiros princípios, para querer consentir neles, quanto seria ridículo que o coração pedisse à razão um sentimento de todas as proposições que ela demonstra, para querer recebê-las.” (Pensamentos, 1669, póstumo; artigo XXII: I)

Christian Schloe. Equilíbrio (partilha de Almerinda Van Der Giezen)

Temos dedicado alguma atenção a fenómenos de mistura cultural, tais como a orientalização do tango, do flamengo ou do fado. Hoje, é a vez da “arabização da canção francesa”, em franca expansão. As “chansons orientales”, como lhes chamam os gauleses, trepam ao topo das tabelas de vendas.

A relação entre a razão e o coração é complicada. A canção Le Coeur et la Raison realça o respetivo confronto. Lynda Sherazade, francesa de origem argelina, é a compositora e intérprete. A reedição em 2022 do primeiro álbum, Papillon, foi disco de platina e o último, Un peu de moi, lançado em abril de 2023, ascendeu ao nono lugar da tabela de vendas.

Goste-se ou não, estes híbridos têm o condão de nos aliviar do enjoo proporcionado por uma navegação cada vez mais orientada por integralismos e maniqueísmos.

Lynda Sherazade. Le Coeur et la Raison. Un peu de moi. 2023

Le Coeur et la Raison

J’ai laissé mon cœur parler
Lui qui n’est pas facile
J’l’ai laissé faire ce qu’il voulait
Mais il fonce tout droit comme un imbécile
Oui, il s’est mis à nu
Il croit toujours au grand amour comme dans les films
Il oublie ses blessures
Il s’attend jamais au pire

Quand il aime, il est dépendant, ce fou devient accro
Quand il aime, il est aveugle, il efface tous les défauts
Quand il aime, il est égoïste, n’avance qu’en solo
Quand c’est trop tard, c’est la raison qui soigne tous les bobos

Faut qu’j’me décide et ça fait mal
Faut s’y tenir
J’en ai marre, de faire des choix
Faut qu’j’me décide et ça fait mal
Choisir entre le cœur ou la raison
J’suis pas capable

J’ai laissé la raison parler
Elle qui ne lâche rien
N’attend jamais d’être blessée
Elle, elle pense au lendemain
Agit à contre-cœur parfois
Pour éviter les erreurs
Elle connaît sa valeur
Donc elle sécurise le cœur

Elle est forte et elle fait attention à tout
Elle supporte, elle encaisse même tous les coups
Elle le sait, ouais, souvent les histoires sont sans issue
Quand elle s’emporte, le cœur est toujours là au rendez-vous

Faut qu’j’me décide et ça fait mal
Faut s’y tenir
J’en ai marre, de faire des choix
Faut qu’j’me décide et ça fait mal
Choisir entre le cœur ou la raison
J’suis pas capable
Faut qu’j’me décide et ça fait mal
Faut s’y tenir
J’en ai marre, de faire des choix
Il faut qu’j’me décide et ça fait mal
Choisir entre le cœur ou la raison
J’suis pas capable

Le cœur ou la raison, le cœur ou la raison
Le cœur ou la raison, le cœur ou la raison
Oui, le cœur ou la raison
Le cœur ou la raison, le cœur ou la raison

(Lynda Sherazade)

E se regressasses antes de partir…

Jean-Jacques Goldman, ativo a solo desde os anos 1980, vendeu mais de 30 milhões de discos. Autor, compositor, intérprete, produtor e guitarrista é um dos músicos mais genuínos e populares da França. É mais avisado vê-lo e ouvi-lo do que comentá-lo. Segue o vídeo com a interpretação ao vivo da canção Puisque tu pars.

Jean-Jacques Goldman. Puisque tu pars. Entre gris clair et gris foncé. 1987. Live “Un tour ensemble” 2003.

Filhos da Mãe: Les Enfoirés

“Les gens qui rêvent font des révolutions” (Les Enfoirés)

No bar do Instituto de Ciências Sociais, apenas os três funcionários. Com as memórias sentadas à minha volta, apetece-me sentir a nortada no rosto e a generosidade ao alcance dos dedos. Despeço-me rumo a Moledo. Caminho, pasmo e janto sardinhas com alface, tomates e pimentos colhidos na horta do Sr. João. No restaurante, apenas se ouve o zumbido da televisão que, como uma mosca, revolve o mesmo lixo: a comissão de inquérito para lamentar. Em casa, carrego baterias, as baterias da fé. Com os “filhos da mãe” (Les Enfoirés; motherfuckers).

Exemplo raro de generosidade, Les Enfoirés (http://www.enfoires.fr) é um coletivo de artistas criado em 1985 por Coluche com o objetivo de contribuir para a sua principal iniciativa de solidariedade: Les Restos du Coeur. Seguem quatro canções. Uma sequência com trinta interpretações dos Enfoirés está disponível no seguinte endereço: https://www.youtube.com/watch?v=XcmG2RZYxDs.

Coluche, por Catherine Wernette

Didier Barbelivien & Olympe & Stanislas / Les Enfoirés. Elle était si jolie (cover de Alain Barrière, 1963). 2014
Celine Dion & Maurane / Les Enfoirés. Quand on a que l’amour (cover de Jacques Brel, 1956). 1996
Les Enfoirés. Ta Main (cover de Grégoire, Toi+Moi, 2008). 2010
Les Enfoirés. Rêvons. 2023 Enfoirés un jours, toujours. 2023

Os dias melhores. Maxime Le Forestier

Correggio,. Ascensão da Virgem, Catedral de Parma. Detalhe.1530-34

No decurso de uma conversa sobre a universidade, um colega precisa que podem existir memórias sem afeto mas não afetos sem memória. Cultivador de afetos com memórias, cuido rejuvenescer sentimentalmente ao convocar, aproximar, experiências longínquas. O quarto e último vídeo, Les Jours Meilleurs, de Maxime Le Forestier, fornece uma boa ilustração do fenómeno.

Maxime Le Forestier. Comme un arbre dans la ville. Mon frère. 1972
Maxime Le Forestier. Mon frère. Mon frère. 1972
Maxime Le Forestier. Mourir pour une nuit. Mon frère. 1972
Maxime Le Forestier & Calogero. Les jours meilleurs. Les jours meilleurs. 1984. Concert Alcaline, 2014.