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Perdão

Presépio, de Orlando Correia.

Foram dias, foram anos / Foi a sorte apodrecida (Manuel Freire. “Pedro Só”. 1972. Poema de Fernando Assis Pacheco). Ver https://tendimag.com/2011/10/16/cronica-de-um-pais-depenado/.

Apareceu-me, de repente, um anjo que mais parecia o boneco da Michelin. Perguntou:

– Como vai a tua alma?

– A alma vai tão pequena que não vale a pena. Por amor ao próximo, convivo pouco, cada vez menos. Deslizo pelo mundo num tapete rolante. Não olho para a esquerda, não olho para a direita, pouco enxergo. Não cumpro o Pai Nosso. Tenho o motor do carinho e da tolerância encharcado. Cravou-se uma espinha na garganta da vida. Para cúmulo dos infernos, não desgosto da minha alma mesquinha! Um herói embalsamado. Que faço, meu anjo?

– Pede perdão!

Camilo Sesto. Perdoname. Donde Estes, Con Quien Estes. 1980. Ao vivo com Marta Sánchez.

A jangada

Cria cuevos

Carlos Saura. Cría Cuervos. 1976.

Temos uma percepção selectiva do mundo. O nosso “mapa mental” está distorcido: temos regiões hipertrofiadas e outras hipotrofiadas. Não somos míopes. Vemos bem ao longe e mal ao perto. Caricaturando, tudo o que é latino grita em bicos de pé e tudo que é anglo-saxónico entra pelos sentidos sem bater à porta. É o círculo da nossa quadratura cultural. Quem descura a humana diversidade empobrece. A Itália tem especificidades, a França e a Espanha, também. Não as considerar é não as ter. Não é uma honra, mas uma falha. “Vira costas a Castela” quem se habituou a viver dobrado, com a devida vénia. Face aos outros e face a si próprio. A Espanha tem um modo de musicar os sentimentos (e.g., Júlio Iglesias, Nino Bravo ou Luz Casal). Possuímos, ao nível da dança e da música, raízes comuns. Por exemplo, as influências celta e mourisca. Estas duas canções são espanholas, de meados dos anos setenta: Camilo Sesto, Quieres ser mi amante? (Camilo, 1974), e Jeanette, Porque te vas (da banda sonora do filme Cría Cuervos, de Carlos Saura, 1976). Bafejou-as a sina da popularidade? Sem dúvida. Não é estigma. Estiveram semanas a fio no primeiro lugar das tabelas. Tiveram sucesso em vários países, incluindo Portugal. Agora, soam um pouco a ferro velho.

Camilo Sesto. Quieres ser mi amante. Camilo. 1974.

Jeanette. Porque te vas. Cría Cuervos, de Carlos Saura. 1976.