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Desigualdade de género nos videojogos

Women in Games Argentina. Novembro 2022

As mulheres são discriminadas negativamente quando participam em videojogos partilhados? É provável. Assim o sugere o teste promovido pela associação Women in Games Argentina apresentado no anúncio Switch Voices.

“La acción constó de un experimento en el cual tres gamers profesionales jugaron con un modulador de voz femenino para vivir en primera persona lo que sienten las mujeres cada vez que intentan jugar. / En el mundo del gaming, las mujeres son víctimas de insultos, menosprecios y hasta complots para eliminarlas del juego. / Esto afecta a las jugadoras que quieren divertirse y principalmente a las que buscan profesionalizarse, porque en esas condiciones su rendimiento y sus posibilidades de ascender en los rankings se torna mucho más complicado. / Para generar conciencia sobre esto, BBDO Argentina y Women in Games Argentina realizaron un experimentó en el cual tres gamers profesionales jugaron con un modulador de voz femenino para vivir en primera persona lo que sienten las mujeres cada vez que intentan jugar. El resultado fue el esperado: los jugadores bajaron notablemente su promedio de victorias y declararon como “imposible” jugar bajo esas condiciones” (https://www.adlatina.com/publicidad/preestreno-switch-voices-bbdo-argentina-women-in-games-y-la-violencia-de-genero-en-el-gaming; consultado em 05.11.2022).

Anunciante: Women in Games Argentina. Título: Switch Voices. Agência: BBDO Argentina. Direção: Christian Rosli y Joaquín Campins. Argentina, novembro 2022

Partindo do princípio

goofy self defense

Hoje, tive o privilégio de reouvir a expressão “partindo do princípio”. Eloquente! No que me respeita, partir por partir, prefiro partir do fim. O anúncio tailandês Who says tiny has to be weak?, da Kleenex, intriga-me. Focaliza-se no bullying. O anúncio parte de princípios: 1) o bullying é, sobretudo, físico; 2) a resposta é individual, da iniciativa da vítima. Em suma, a solução quer-se individual e física. Para lidar com o bullying, nada como a vítima tornar-se campeã de artes marciais: “follow Rika Ishige’s journey from former bullying victim to becoming Thailand’s top female ONE Championship athlete”.

Aproveito para disponibilizar um guia online de auto defesa: The Art Of Self Defense, da Walt Disney.

Marca: Kleenex. Título: Who says tiny has to be weak? Agência: J. W. Thompson BangKok. Direcção: Baz Poompiryia. Tailândia, Fevereiro 2018.

The Art Of Self Defense, Walt Disney Studios, Dezembro 1941.

Tolerância covarde

Ministère de l'Éducation Nationale

La mise au point é um anúncio promovido pelo Ministère de l’Éducation Nationale (França) dedicado ao bullying nas escolas. É, antes de mais, um anúncio sóbrio, o que é raro nos anúncios de denúncia. Sente-se a opressão quotidiana que sufoca as vítimas. O seu medo da próxima série de agressões, ao mesmo tempo iminente e imprevisível. Uma angústia escrita com letras de maldade. O bullying não é um quisto, é uma mancha que nos polui e nos degrada. A vítima podia ser nosso filho; o agressor, também. O anúncio centra-se na figura da testemunha que é incitada a falar. Apresenta duas vozes: a da vítima e a da testemunha. A voz da testemunha revela a dificuldade em assumir uma posição. Abordámos a questão da testemunha de bullying no artigo O Dilema da Testemunha (https://tendimag.com/2017/10/23/o-dilema-da-testemunha/).

Quando acordo maldisposto, surpreendo-me a pensar inconveniências. Por exemplo, que, em relação ao bullying, como em relação a outras formas de violência, há por parte de todos nós uma certa tolerância covarde. Mas se em vez de ocorrer na realidade, acontecer no ecrã, a reacção afigura-se-me outra: intolerância heróica, ou seja, o oposto. Tolerantes covardes na realidade; intolerantes heróicos face ao ecrã.

Anunciante: Ministère de l’Éducation Nationale. Título : La mise au point. França, Novembro 2017.

O dilema da testemunha

Burger king

Bullying Jr., da Burger King, é mais um anúncio-causa promovido por uma marca. Não deixa, porém, de ser interessante. O bullying envolve, pelo menos, três tipos de actores: quem o pratica, quem o sofre e quem o tolera. Neste anúncio, testemunhas de uma agressão a uma criança, nove em cada dez pessoas incomodam-se, mas não intervêm. Reagem, porém, perante um hamburger maltratado. O que significa este comportamento? Não sei, mas pode arriscar-se um palpite.

Um espectador compulsivo de uma situação de bullying depara-se com uma situação de duplo vínculo: intervém, expõe-se à violência, logo à justiça; não intervém, permite a violência, logo incorre em não assistência a pessoa em perigo. Subsistem mais opções: a tentativa diplomática e a comunicação às autoridades.

“Preso por ter cão, preso por não ter”. Em que assenta este dilema das testemunhas de bullying?  O cidadão moderno não tem direito ao uso da violência. Nem sequer a uma agressão verbal. Pode configurar um crime. Retomando Max Weber, o Estado detém o monopólio da violência legítima. Os fora da lei detêm o monopólio da violência ilegítima. Entre ambos, posiciona-se o cidadão domesticado, sem qualquer direito à violência, seja ela legítima ou ilegítima. Segundo Norbert Elias, o processo de esvaziamento do uso da violência por parte do cidadão remonta, pelo menos, à Idade Média. Este processo ainda continua.

O anúncio da Burger King coloca uma segunda questão: será, na nossa sociedade, mais razoável proteger os objectos do que proteger as pessoas? Todo o anúncio aponta nesse sentido.

Marca: Burber King. Título: Bullying Jr. Agência: David. Reino Unido. Outubro 2017.

Apolo e Dionísia

monica batendo cebolinha

Turma da Mónica. Mónica bate em Cebolinha.

Videojogos, anime, bullying e artes marciais. Acresce a inversão dos papéis de género: a irmã mais nova luta pelo irmão mais velho, todo ele bondade e virtude. Estes temas são caros às novas gerações. Confluem alegoricamente num carro not more nice, o “juvenil” Nissan Micra.

O anúncio da Nissan lembra a antropóloga Ruth Benedict, que, na esteira de Friedrich Nietzsche, opõe culturas dionisíacas, mobilizadas para a guerra, e apolíneas, apostadas na paz (Padrões de Cultura, 1934). Num estudo dedicado à cultura japonesa, por encomenda do governo norte-americano durante a Segunda Grande Guerra Mundial (O Crisântemo e a Espada, 1946), Ruth Benedict retoma, de algum modo, a mesma tipologia: a sociedade japonesa é percorrida por dois modelos culturais opostos, simbolizados pelo crisântemo e pela espada.

Não será um exagero convocar Friedrich Nietzsche e Ruth Benedict a pretexto da publicidade? O anúncio ilustra a relação entre o dionisíaco e o apolíneo, num contexto de inversão das relações tradicionais de género, designadamente em termos de violência.

Marca: Nissan. Título: No more nice car. Agência: In the Compagny of Huskies (Dublin). Direcção: Dermote Malone. Irlanda, Abril 2017.

Sociologia sem palavras 13. Laços familiares

Le vieil Homme et l'enfant imageMichel Simon é um dos grandes actores do cinema francês do século XX. Participou em mais de uma centena de filmes. Como ele próprio o admite, não era bonito, mas era bom. No filme Le vieil homme et l’enfant, de Claude Berri, um jovem casal envia, durante a Segunda Guerra Mundial, o filho para junto dos avós. O filme também existe em inglês, com o seguinte título: The Two of us. No excerto existem alguns diálogos: optei pela versão original. A mcdonaldização invade tudo, até a ciência, mas algumas das minhas raízes cresceram para baixo, o que, em tempos de inconsistência, ajuda a resistir. São tantas as raízes crescem para cima…

Claude Berri, Le vieil homme et l’enfant, 1966. Com Michel Simon.

O Ceptro e a Misericórdia

EverynoneLosers02-580x325O canal de música Vh1 acaba de lançar um anúncio (um vídeo musical com a canção I Will Survive de Gloria Gaynor) que é, à primeira vista, um manifesto contra o bullying. O próprio conceito resulta alargado: vítima, hoje; patrão, amanhã. Um bullying a dois tempos, invertido e compensado, como apraz ao nosso sentido de justiça. “Quem com ferro mata, com ferro morre”. Este anúncio não parece relevar de uma campanha anti bullying consequente. A vingança, serve-se fria? Quantas vítimas de hoje serão patrões amanhã? Sentam-se, como mártires contemporâneos, à direita do Poder? O bullying é uma fatalidade contra a qual nada se pode fazer a não ser estetizá-la?
Alto e pára a crítica! Por que motivo haveria o Vh1 de lançar uma campanha efectiva contra o bullying? É, por acaso, uma entidade oficial ou oficiosa financiada para o efeito? Não são as audiências que movem o Vh1? A miscelânea entre lucro e misericórdia corrente na publicidade “responsável” traz-nos vesgos e confusos. Torna-se cada vez mais penoso destrinçar o dedo de Deus do rabo do Diabo. São Bartolomeu nos valha! Em suma, um anúncio bem concebido e bem realizado, com um não sei quê de polémica que o vai tornar viral. Acrescento um segundo vídeo, dos Everynone, contra o bullying, num registo social e estético distinto.

Marca: Vh1. Título: I will survive. Agência: Delcampo Saatchi & Saatchi. Direcção: Agustin Alberdi. Argentina, Abril 2014.

Losers. Por Everynone e Époché Films. Música: Keith Kenniff. Produtores: Jon Messner, Alexandra Brown e Brielle Murray. 2011.

 

Acordar o silêncio

BullyingTenho andado ocupado a falar. Quinta, sobre o público dos eventos da Capital Europeia da Cultura, no Centro Cultural Vila Flor, sábado sobre as funções e os públicos dos museus, na Casa do Professor, sexta sobre o bullying, no Agrupamento de Escolas de Briteiros. Assim como há impressoras, também há papagaios multifunções. . É engraçado como o acto de falar tem um lado pré-capitalista que o aproxima da economia dos caçadores-recolectores: não se leva nada e com nada se fica, a não ser a leveza dos tesouros simbólicos. Importa falar, mesmo quando as palavras não são de ouro. Em Briteiros, chegou-se à conclusão que o silêncio é um obstáculo e a comunicação, uma solução. Encontrei hoje, por coincidência, este anúncio a sugerir o mesmo: quando o silêncio, seja lá de quem for, é cúmplice, importa dar o alarme.

Anunciante: CKNW Orphans’ Fund. Título: Car Alarm. Agência: Taxi, Vancouver, Canada. Direção: Curtis Wehrfritz. Canadá, Janeiro 2013.

Bullying de Estado

Adesf. Anti-smoking-one-thing-leads-to-another-lungs

Adesf. One Thing Leads to another – lungs. Neogama bbh. Brasil. 2012.

Há bons anúncios contra o tabaco. Também há boas razões para os promover. Não obsta que a maior parte configura práticas de bullying de Estado. Bullying legal de massas. Maltratam e assustam. O medo é a equação, e o medo é medonho.
Caro fumador, agradecia que respondesses a uma simples questão:
Depois de ver este anúncio do Department of Health do Reino Unido, o que te apeteceu fazer?

    1. Nada.
    2. Deixar de fumar.
    3. Uma ecografia torácica.

Se respondeste A, o anúncio foi, no teu caso, um desperdício. Para o Estado. Já para a agência de publicidade, foi um negócio e para a instituição anunciante, uma prova de desempenho.
Se respondeste B, o anúncio foi um sucesso, para ti e para o Estado.
Se respondeste C, o anúncio teve um efeito perverso. Aumentou a despesa do Estado.

Anunciante: Department of Health. Título: Mutation. Agência: Dare. Direção: Simon Ratigan. Reino Unido, Outubro 2012.