Saltos altos
Não sei se somos um país de sobressaltos. Mas somos um país de saltos altos. A começar pela Cinderela de Joana Vasconcelos. Os sapatos altos assumem, ao longo da história, diversas funções: rituais; higiénicas (protecção contra a lama e as imundícies das ruas); dramatúrgicas (expressão do estatuto social das personagens); publicitárias (adereço distintivo das prostitutas no Império Romano); de controlo (dificuldade de locomoção a quem se quer por perto); e corporais (compensação da natureza).
Nos séculos XVI e XVII, reis, rainhas, nobres e pessoas abastadas calçaram sapatos de saltos altos. Don Rodrigo de Moura Telles (1644-1728), ilustre arcebispos de Braga, é um bom exemplo. De baixa estatura, os sapatos de salto alto, de que existe um exemplar no Tesouro-Museu da Sé de Braga, ajudavam o arcebispo a aceder à mesa das celebrações. Durante séculos, o salto alto foi associado à nobreza. Era alto e altivo. Curiosamente, após a Revolução Francesa, os saltos altos quase desapareceram.
Enquanto moda, os saltos altos são cíclicos. Como a barba. Não deixam, porém, de se enquadrar na calibragem dos corpos iniciada na Idade Média: alto, direito, liso, fechado, leve e frontal. O salto alto contemporâneo não é altivo. Eleva, endireita, pula e avança. Não me recordo de um momento de moda com saltos tão altos. A princípio, parecia-me que as pessoas andavam com chapéus nos pés. Mas depressa me afeiçoei. Moda que perdura é a de as pessoas andarem sem nada na cabeça.
Para uma breve história do sapato de salto: História do Sapato de Salto.
Gárgulas impúdicas
Olhar para cima e deparar-se com um rabo prestes a defecar representa uma experiência estranha mas possível. Em Portugal, existem gárgulas impúdicas na Sé de Braga (figura 1), na Igreja Matriz de Caminha (figuras 2 e 3) e na Sé da Guarda (figura 4). Vigiam-nos um pouco por toda Europa: Espanha, França, Inglaterra, Alemanha… Algumas, além do rabo, exibem os genitais. Por exemplo, na Matriz de Caminha, numa casa do século XV em Bruniquel (figura 5) e na Igreja de St Pierre de Dreux (figura 6).
Estas gárgulas de rabo ao léu têm ar de se borrifar para o comum dos mortais. A fazer fé na alquimia grotesca, fertilizam-nos. A cartografia simbólica do corpo humano desvaloriza o baixo (os pés), o posterior (as costas) e o interior (as entranhas). Estas gárgulas perfazem um cúmulo grotesco: baixeza traseira incontinente.
O que significa tamanha vulgaridade numa igreja? O fenómeno não é inédito. As danças macabras atemorizam tanto as igrejas como os cemitérios dos sécs. XV e XVI. Nos edifícios beneditinas, multiplicam-se os sátiros e as carrancas. O próprio diabo é presença habitual na casa do Senhor.
Michel Maffesoli fala em homeopatia do mal, senão da morte. Mikhail Bakhtin, convoca os interstícios do lado sombrio da criação, o da potência dionisíaca. Entretanto, imunes a hermenêuticas, as gárgulas defecam chuva, a fonte da vida, a seiva do húmus.
Luta pelo prazer
Em 2009, Wim Mertens deu um concerto memorável no Theatro Circo, em Braga. Compôs, volvidos poucos anos, a obra When Tool Met Wood, especificamente para Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura. Struggle for Pleasure e Close Cover são duas músicas que integram o álbum Struggle for Pleasure (1983) produzido com os Soft Verdict, um grupo de composição variável dirigido por Wim Mertens. A qualidade do som e da imagem dos vídeos originais deixa a desejar. Mantive o primeiro, Struggle for Pleasure, mas recorri no segundo, Close Cover, a uma interpretação de 2009.
Soft Verdict / Wim Mertens. Struggle for Pleasure. Struggle for Pleasure. 1983.
Wim Mertens Ensemble. Close Cover. Struggle for Pleasure. 2009.
A porca e o parafuso
Nos últimos dias, tomei conhecimento de duas iniciativas: a plataforma SHAIR (www.shairart.com), associada à galeria Emergentes, implementada pela empresa DST (Domingos da Silva Teixeira); e a limitação do acesso a redes sociais nas escolas por decisão do Governo. A primeira abre, a segunda, fecha. Ainda bem! Se todos abrissem as portas, a ventania arejava demasiado os espíritos. Em termos atmosféricos, não há nada como o ar condicionado.
DST. SHAIR. Como Funciona. Março 2014.
A DST, empresa sedeada em Braga, é reputada pelo apoio à cultura e à arte. A presente iniciativa aposta na divulgação e na avaliação de obras de arte, cruzando um espaço online, SHAIR (digital), com uma galeria física (Emergentes), sita na Rua do Raio, em Braga. “O “conceito” da plataforma consiste na “oportunidade” dada a artistas de exporem as suas obras sujeitando-as à votação do público, e de um especialista convidado pela dst, sendo que as mais votadas serão, depois, expostas no espaço físico da Galeria Emergentes dst” (Lusa, 20 de Março). Para mais informação, ver o anúncio promocional (vídeo 1) e a reportagem da Tv Minho (vídeo 2).
Tv Minho. Março 2014.
“No final da semana passada, as escolas receberam um e-mail da Direção Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC) anunciando que o acesso a determinadas redes sociais e aplicações, tais como o Youtube, passava a estar “limitado a uma utilização máxima”, ou o Facebook, Instagram e Tumblr, que ficariam indisponíveis durante toda a manhã até às 13h30 e depois do almoço teriam também um “limite de utilização máxima”” (Lusa, 26 de Março de 2014). Pelos vistos, o motivo é técnico: “Questionado pela Lusa sobre a decisão de limitar aquelas redes e aplicações, o Ministério da Educação e Ciência (MEC) explicou que a DGEEC “verificou que a pressão sobre a rede decorria do acesso a determinados sites/aplicações que não são essenciais ao funcionamento das escolas e das atividades letivas”. Trata-se de garantir “as condições para o normal funcionamento da internet das escolas, quer para atividades letivas, quer para os serviços administrativos e similares”.
O problema é, portanto, técnico. Quer-me parecer que todos os problemas neste País são técnicos. E os nossos técnicos que são os melhores do mundo… Os melhores! E não há modo de casar o técnico com a técnica? A culpa deve ser, mais uma vez, do povo. Técnicos tão bons lá no alto e nós, cá em baixo, tão desaparafusados…
Sou injusto, mas a memória é vadia. Este problema técnico lembra-me o meu tempo do banco da escola. Lembra-me a proibição da Coca-Cola e dos livros. Lembra-me, também, a despropósito, o imposto dos isqueiros. Anda uma pessoa a desgastar neurónios para propor cursos oportunos e sustentáveis e a solução aqui tão perto: um mestrado em ciências da proibição.













