Eclipses

Existem fases para descarregar e fases para carregar. Em boa hora, carreguemos!
O anúncio Robo Dog, da Kia, constitui mais um exemplo da criatividade e da sensibilidade ímpares do realizador Noam Murro para humanizar máquinas e objetos. Da mais de uma dezena de anúncios de Noam Murro contemplados no Tendências do Imaginário, recoloco dois: Old Friends, para a Macy’s, e Monsters, para a Hummer.
Biomecanóides e robots
O meu rapaz mais novo está, há longos meses, a construir a perna de um robot. Fiquei a conhecer a complexidade dos nossos parceiros de um futuro que começou há décadas. O telemóvel é uma extensão biomecanóide? O anúncio Expedition, da Morotorola Droid, não tem dúvidas. Biomecanóides e robots não são uma ficção, cruzamo-nos com eles todos os dias. Seguem um excelente anúncio de Noam Murro e um clássico dos Kraftwerk.
Marca: Motorola. Título: Expedition. Agência: Mcgarrybowen (New York). Direcção: Noam Murro. Estados Unidos, 2010.
Kraftwerk. The Robots. The Man Machine. 1978.
A sereia académica

HR Giger. Biomechanoid 75. 1975.
Vale a pena dedicar uns minutos à publicidade produzida pelas universidades para cativar candidatos. O anúncio Launch Yourself, da Universidade de Leicester, antecipa duplamente o futuro: o futuro prometido pelas universidades e o futuro presumido dos candidatos. Que sugerem as imagens? O Homem de Leicester parece lidar apenas com objectos. Nenhuma interacção humana! O ambiente do Homem de Leicester é a técnica e o interlocutor o objecto. A alquimia académica transforma uma distopia sinistra numa utopia excitante.
O que realmente importa numa realidade costuma ser aquilo que ela não contempla (neste caso, a interacção humana). A Universidade de Leicester tem as suas razões: sabe-se, desde há décadas, que o objecto é o futuro do homem e que a interacção humana é cada vez mais mediada por objectos. Até a relação sexual é mediada pelo preservativo. “Queda e ascensão do preservativo, eis a história sexual da segunda metade do século XX” (Philip Roth, The Dying Animal, London, Penguin, 2001, p. 68).
Marca: University of Leicester. Título; Launch Yourself. Agência: TBWA / Manchester UK. Direcção: Yoni Weisburg. Reino Unido, Agosto 2018.
Máquinas desejadas
Mais um cheirinho a Old Spice. Regressa a aposta num protagonista biomecanóide. Uma figura com séculos, mas, hoje, particularmente infestante. À dita pós-modernidade associam-se duas multiplicidades: a do ser múltiplo e a do ser multiplicado. O ser multiplicado é o maná das identidades líquidas e fragmentadas: uma dúzia (pós-moderna) a agarrar o presente e apenas uma (moderna) a pagar impostos!
Comparando com o artigo anterior (http://tendimag.com/2014/07/25/pos-modernidade-vitoriana/), suspeita-se que, na pós-modernidade modernamente assistida, o que está em voga não é a carne (censurada), mas a máquina (desejada). A tragédia grega tem o coro, Pinóquio, o Grilo Falante e eu, o Demónio Céptico, demónio que me anda a tentar: “a pós-modernidade é, antes de mais, o pós-modernismo, e o pós-modernismo, um movimento intelectual profético, a grande narrativa contemporânea”.
Marca: Old Spice. Título: Soccer. Agência: Wieden+Kennedy USA. USA, Julho 2014.
Homens e Bestas 4. Charles Le Brun
Giambattista della Porta, Ticiano, Rubens, do quarteto anunciado, só falta Charles Le Brun (1619-1690). Foi primeiro pintor do rei Luís XIV e ocupou-se da decoração da Galeria dos Espelhos do Palácio de Versalhes. Nos seus desenhos, os seres humanos resultam abestalhados (ver galeria, figuras 1 a 23). No que agora nos diz respeito, herdeiros da modernidade, da racionalidade e da ciência positiva, confusões entre homens e animais só se for à luz de Charles Darwin. Não é verdade? Não, não é! No terceiro milénio, continuamos às voltas com os lobisomens (Figuras 24 e 25), com os vampiros (figuras 25 e 26), com os homens aranha (Figura 27), as mulheres gato e outras bestialidades do género (Figura 28). Se considerarmos as máquinas como as bestas do nosso tempo, ainda temos os ciborgues e os biomecanóides. Não esquecendo os mangás nem os animes, onde, à semelhança dos apóstolos evangelistas (águia, São João; touro, São Lucas; leão, São Marcos; e anjo, São Mateus), os heróis estão associados a animais (Naruto, raposa; Son Goku, macaco; figuras 29 e 30).
J.P. Goude: Garganta funda
É ingrato seleccionar anúncios de Jean-Paul Goude. A sua obra é extensa, única e variada. Pode-se começar com o Grace Jones, para a Citroen, e o La Femme et le Lion, para a Perrier. No primeiro, um clássico, a ousadia visionária lembra Dali e Grace Jones veste à perfeição o papel de uma biomecanóide. No segundo, dois felinos enfrentam-se até ao limite do possível; a mulher animal substitui a mulher máquina, e Jean-Paul Goude esmera-se num efeito gráfico que lembra Francis Bacon: a distorção do pescoço e da boca.
Marca: Citroen. Título: Grace Jones. Agência: RSCG. Direção: Jean-Paul Goude. França, 1985.
Marca: Perrier. Título: La Femme et le Lion. Agência : Ogilvy & Mather. Direção : Jean-Paul Goude. França, 1990.


































