Eles e elas. Involução

As relações de género, como todas as relações, conhecem fases e oscilações. Várias figuras podem ser revisitadas no espaço e no tempo. No anúncio da Hiunday, o efeito Axe passa dos desodorizantes para os automóveis. A mulher, tendência Eva, é desejo e tentação a um passo do pecado. No anúncio da William Lawson’s, a mulher, tendência Maria, serva do lar vestida de noiva, é afastada por uma fratria masculina de bebedores de Whisky. Mudam-se os tempos, renovam-se as vontades.
Marcadores e post its

Os marcadores são úteis para relevar detalhes que arriscam permanecer diluídos. Por exemplo, as mulheres notáveis nas fotografias coletivas da campanha “Highlight the Remarkable”, da Stabilo Boss (artigo Mulheres protagonistas, colocado em 10 de julho de 2018).
Por seu turno, os post its prestam-se ao registo de pequenos apontamentos, tais como as lições de “civilidade pueril” publicadas por Erasmo de Roterdão em 1530 (artigo Boas maneiras: os conselhos de Erasmo, colocado em 10 de julho de 2019).
Imagem: Sonia Delaunay – Figurino para “La danseuse aux disques”, 1923
Adaptação

O anúncio indiano “Har Koi Peera Lahori Zeera 2.0”, da Lahori Zeera, aproxima-se mais da teoria da evolução de Lamarck do que da de Darwin: os seres humanos adaptam-se em vida aos novos requisitos ambientais, inclusivamente decorrentes das suas próprias inovações, tais como a bebida direta pela garrafa em todas as circunstâncias.
Dança animal na publicidade 2. Camaleão
Se a dança do orangotango, da dinamarquesa Rynkeby, é musculada, a do camaleão, da britânica Berocca, é estilosa, se não dengosa. Compreende-se: a bebida com “Berocca, contendo vitaminas B1 e B2, ajuda a libertar energia e ácido pantoténico, o que contribui para o desempenho mental”. Bebidas diferentes, efeitos e danças diferentes. A canção, Beware Breaks, é de Panjabi MC (2002).
Imaginação maneirista




Galeria: Obras de René Magritte
Costumo pensar para mim. Evito pensar para os outros. Quando muito, nos outros. A minha epistemologia é umbilical. Gosto de pensar realidades que não são realidades. “À maneira”. O anúncio Looks Like Guinness, da Guinness, é um exercício de “estética alimentar”. Figuras “a branco e negro” repetem-se como uma série de Andy Warhol. Lembram-me, sobretudo, René Magritte. Descortinar a pintura de René Magritte num anúncio a uma cerveja requer imaginação, a imaginação de um maneirista.
Androides

L’homme qui veut dominer ses semblables suscite la machine androïde. Il abdique alors devant elle et lui délègue son humanité. Il cherche à construire la machine à penser, rêvant de pouvoir construire la machine à vouloir, la machine à vivre pour rester derrière elle sans angoisse, libéré de tout danger, exempt de tout sentiment de faiblesse, et triomphant médiatement par ce qu’il a inventé. Or, dans ce cas, la machine devenue selon l’imagination ce double de l’homme qu’est le robot, dépourvu d’intériorité, représente de façon bien évidente et inévitable un être purement mythique imaginaire. » (Simondon, Gilbert. 1958. Du mode d’existence des objets techniques. Paris, Éditions Aubier-Montaigne, p. 10).
O Extremo-Oriente habituou-nos a anúncios absurdos e hilariantes. Pela imagem e pela narrativa. O anúncio filipino Band, da RC Cola, é um bom exemplo deste género de grotesco. Os androides, fruto de uma imaginação desinibida, asseveram-se, simultaneamente, desconcertantes, ávidos e cordiais.
Sensação de viver

“O coração tem razões, que a própria razão desconhece” (Blaise Pascal).
O anúncio português “E a vida sorri”, da Olá (1986), e o anúncio britânico “Food dancing”, da Sainsbury’s (2017), recordam um anúncio português da Coca-cola: “Sensação de viver” (1989). Velocidade, comunicação, parceria, alegria e emoção. Nos dois últimos anúncios, a dança acompanha, envolvente, a música. O que cativa nestes anúncios? O intelecto ou o afecto? O pensamento ou o sentimento? A razão ou a emoção? Seria curial acreditar que quanto mais se pensa mais se sente. Mas não é verdade. Conhecer pela razão e conhecer pelo coração não são as duas faces da mesma moeda.
A comercialização da Coca-cola em Portugal remonta a 1977. Proibida durante o fascismo, assim permanece durante os três primeiros anos da democracia. Pelos vistos, a coca-cola tinha paladar político. Lembro as grades de coca-cola despachadas, clandestinamente, de Espanha para a dispensa. Mas a proibição da coca-cola não abrangia as ex-colónias. Os regressados sentiram a falta.
Our first work for Sainsbury’s celebrates the real power of food – not just a set of ingredients on a plate, or Instagram eye-candy, but something that lies at the heart of living well, bringing us joy and making us feel good. In doing so, it pours meaning back into Sainsbury’s endline “live well for less” (Wieden + Kennedy: http://wklondon.com/work/food-dancing/).



