Três dedos abaixo de cão
Tive um blogue chamado Marginália. Retomo parte do artigo Bestialidade (http://dobras.blogspot.pt/2010/08/bestial.html).
O grotesco não está de volta. Ele nunca nos deixou. Mas está no vento! Tal como “o feio, o porco e o mau”. Afirmar que ultrapassa os limites não passa de um pleonasmo. O grotesco está sempre a ultrapassar limites. Essa é a sua sina. Mas, por vezes, surpreende. Pela pujança e pelo insólito. É o caso do anúncio “slow motion” da Carlton Draught.
Marca: Carlton Draught. Título: Slow Motion. Agência: Clemenger BBDO. Direcção: Paul Middleditch. Austrália, Agosto 2010.
Não deixa de ser tentador, mas infundado, entrever neste anúncio alguma intertextualidade perversa, uma espécie de paródia do grotesco “hiper-realista” e degradante de algumas campanhas anti álcool, anti tabaco, anti obesidade e anti coiso. Atente-se, por exemplo, nos seguintes anúncios provenientes de campanhas anti álcool.
Anunciante: Binge Drinking Awareness. Titulo: Anti Binge Drinking NHS. Agência: Atticus Finch. Direcção: Chris Richmond. Reino Unido, Julho 2010.
Anunciante: Vinbúdin. Título: Don’t be a pig. Agência: Ennemm. Direcção: Sammuel & Gunner. Islândia. Maio 2008.
É provável que os promotores destes anúncios tenham razão. Mas ter razão não é o mesmo que ter a razão, e muito menos ser capaz de fazer bom uso dela. Afigura-se-me que uma campanha de sensibilização comunitária não pode dispensar o respeito pelo outro, seja este vítima ou infractor. Certos (ab)usos da razão despertam, de algum modo, velhos fantasmas, tais como as purgas dos totalitarismos do séc. XX ou os desmandos das Guerras da Religião dos séculos XVI e XVII, ambos propensos a conceber o outro como um animal ou um mostrengo. Mas há quem tendo (a) razão também a sabe utilizar, a preceito, com criatividade e bom gosto. É o caso do seguinte anúncio português premiado em Cannes.
Anunciante: Fundação Portuguesa de Cardiologia. Título: Balão. Agência: Ammirati Puris Limpas. Portugal, Julho1999
Um português na China
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Deve ser isto a globalização mágica! “Uma noite no museu” e o português Paco Cruz a dirigir um anúncio chinês. Paco Cruz, com uma carreira notável, formou-se na Escola das Artes, da Universidade Católica do Porto.
Marca: Sprite. Título: Giveaway. Agência: Ogilvy & Mather Shanghai. Direcção: Paco Cruz. China, Maio 2017.
Águia-real
“os Homens são como os animais: os grandes comem os pequenos e os pequenos picam os grandes!” (Voltaire, Le Sottisier, Paris, librairie des Bibliophiles, 1880).
O pensamento de Voltaire ajusta-se ao anúncio Freak Chain, da Mountain Dew. “Os grandes comem os pequenos” é um provérbio antigo consagrado numa gravura de Pieter Brueghel (https://tendimag.com/2012/03/02/o-telemovel-indiscreto-tecnologia-e-relacoes-conjugais/ ). Dizem que é o ciclo da natureza. Nos relevos dos braços das cadeiras do Coro Alto do Mosteiro de Tibães, os animais comem-se uns aos outros. Bebida energética ou naco envenenado, o bem ou o mal passa de boca em boca. Ao envenenar os lobos também se matam águias-reais. Uma ave de rapina que ainda não está extinta na serra da Peneda graças aos ventos de Espanha que vão trazendo novas águias (ver https://www.publico.pt/geral/noticia/aguiareal-a-historia-de-um-homem-e-da-sua-rainha-1613891).
Marca: Mountain Dew. Título: Freak Chain (reverse). Agência: BBDO (New York). USA, Abril 2016.
Estava em falta para com os Eagles. Segue a música “Desperado”, do álbum homónimo, de 1973.
Eagles. Desperado. Desperado. 1973.
Tentação
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“Um hoje vale por dois amanhãs, e mais, se tiver algo para fazer amanhã, faça hoje” (Benjamin Franklin, The Way to Wealth, 1757).
“Lembre-se que o tempo é dinheiro (…) Lembre-se que o dinheiro é de natureza prolífica e geradora. O dinheiro pode gerar dinheiro, e seu produto gerar mais, e assim por diante. Cinco shillings circulando são seis; circulando de novo são sete e três pence e assim por diante, até se tornarem cem libras”.
(Benjamin Franklin, Advice to a Young Tradesman, 1748).
O anúncio Ambition, da Sprite, tem dois protagonistas. Um, velho, parece uma reencarnação de Benjamin Franklin; o outro, jovem, lembra Eva a colher uma garrafa da árvore do prazer. Qual vai ser o destino da bebida?
Entre o dever calculista, moderno, e o prazer imediatista, pós-moderno, qual dos dois vingará? O prazer, que não dá ouvidos ao dever.
Gosto! Gosto de anúncios que nos distraem da catequese do bem e do sucesso.
Marca: Sprite. Título: Ambition. Agência: Hello. Direcção: Perlorian Brothers. Uruguai, Novembro 2015.
A felicidade e o sucesso
Um novo anúncio da Johnny Walker costuma ser um acontecimento. A máxima mudou: mais do que caminhar, convida-nos a caminhar felizes, porque a felicidade é fator de sucesso. Este anúncio cativou-me por vias travessas: a música é do cantor belga Plastic Bertrand, um caso à parte da canção francófona. “Ça plane pour moi” estreou em 1977. Um anúncio dos Estados Unidos com música de um cantor francófono? Admirável! Se o anúncio fosse português, nenhuma hesitação: qualquer coisa anglo-saxónica sem mácula latina, por exemplo, os Kraftwerk, os Queen ou os Kiss. Nós somos assim. Gostamos do que somos e escolhemos os outros! Avançados no tempo como o velho do Restelo… O anúncio da Johnny Walker apregoa que a felicidade ajuda a progredir e a ter sucesso. A fazer fé nos inquéritos, os portugueses constam entre os povos menos felizes da Europa. Se calhar, é este fado lusitano que nos afasta do progresso e do sucesso. E se fosse o contrário? O nível de sucesso a espalhar tristeza neste país encalhado?
Um último apontamento: a felicidade da Johnny Walker rima com velocidade. Mas tudo acaba em voo.
Marca: Johnny Walker. Título: Joy will take you further. Agência: Bartle Bogle Hegarty. Direcção: Max Malkin. USA, setembro 2015.
Espinafres
A leveza não é o único valor relevante na sociedade contemporânea. A potência, associada eventualmente à energia, à velocidade e ao sexo, também é um valor apreciável. O valor da potência destaca-se na publicidade em segmentos tais como os automóveis, as sapatilhas e as bebidas energéticas. Nos anúncios da NOS e da Burn (censurado), temos duas versões dos efeitos da “poção mágica”.
Marca: NOS. Título: With This NOS I Will. Agência: Mistress UK. Direcção: Ryan Hope. UK, Maio 2015.
Marca: Burn. Título: The morning. Agência: Fullsix. Direcção: Murat Gomullu. Itália, 2007.
A amizade
Um amigo enviou-me este anúncio da Super Bock. Imagens, texto e voz magníficos, dedicados à amizade, uma graça que não se decreta. Os sentimentos e as emoções constituem o último reduto da nossa pessoalidade e liberdade. Mas não escapam ao controlo médico, psicológico, judicial e político. Nada parece escapar ao poder! Nem sequer um abraço, um desejo, um sorriso ou uma lágrima. Tantos são os meios, os motivos e os peritos.
Marca: Super Bock. Título: O que se Passa com a Amizade? Agência: Havas Worldwide / O Escritório. Portugal, Abril 2015.
Borbulhas
Não há paciência para tanta levitação. Mas a publicidade insiste. Nos anúncios a bebidas gaseificadas, as borbulhas refrescam, tonificam e, sobretudo, libertam. A não ser mais pela recorrência, convém registar o ato, o modo e a missão: bebe, descola e voa!
O homem contemporâneo sonha! Sonha em desprender-se. Sonha que é líquido num vaporizador. Sonha que é múltiplo, com plataformas ambulantes. Sonha que é mais arcaico do que as árvores do Paraíso. O homem sonha como nunca sonhou. Sonha com os prodígios do ecrã, com a circum-navegação, com galerias de espelhos, pós-narrativas e guerras de Titãs. Joga às escondidas na floresta da vida, líquido, plural, arcaico e sonâmbulo. Com os pés no ar!
Marca: Lipton. Título: Tiny Bubbles. Agência: DDB New York. Direcção: Style War. USA, Fevereiro 2015.
Afrodisíaco de Estado
As altas autoridades proibiram um print da Prada com uma adolescente sentada num carril de caminho ferro. Proibiram também um anúncio da Rexona em que três adolescentes dançam sem cinto de segurança no banco de trás de uma carrinha (ver artigo Zelai por nós). Estes e outros anúncios foram proibidos em nome da segurança das crianças e dos jovens. E a preservação da espécie, a produção de criancinhas, quem zela por ela?
Marca: Nestea. Título: Confession. Agência: Zulu Alpha Kilo. Direcção: JJ Adler. Canadá, Julho 2014.
Dois anúncios ilustram o descaminho sexual na publicidade. Em ambos, a bebida suplanta o amor e a sexualidade. No mais recente, Confession, da Nestea, o jovem concentra-se mais no iced tea do que na confissão de amor da companheira. O iced tea ergue-se como uma barreira na comunicação entre géneros. No anúncio Mobile Phone Call, da Cerveza Salta, a companheira perde atractivos à medida que cresce o apelo da cerveja. O resultado é a separação.
Marca: Salta. Título: Mobile Phone Call. Agência: KEPEL & MATA (Buenos Aires). Direção: Pablo Fusco. Argentina, 2010.
Por este andar, de bebida em bebida, o obelisco, ignição da vida, acabará por se resumir a uma torneira. Pelos vistos, a barriga cresce, mas a masculina! Proibir? Proibir ainda é feio. Basta condicionar: o anúncio só pode ser visionado por pessoas inférteis. Eis, volvidos sete séculos, um remake do milagre das rosas.

Concurso Dê Voz ao Cartoon, http://www.expresso.pt, 19 de Julho de 2008.
O aumento da natalidade é urgente. Para cimento dos casais, revitalização das aldeias, brincadeira das crianças, lotação das escolas… Em suma, para dar vida à vida. Mas todos estes efeitos são miudezas. É preciso ter filhos, dizem-nos, para sustentar a segurança social e garantir o futuro das reformas. Já se afirmava o mesmo há cinquenta anos. Haverá excitação mais excitante? Fazer amor sem preservativo nem contraceptivo para sustentar a segurança social! Este novo desígnio nacional é um autêntico afrodisíaco de Estado!







