Casta Diva
Uma pequena massagem de violino para olhos cansados e ecrãs desertos: Casta Diva, da ópera Norma (1831), de Vincenzo Bellini, com interpretação de Joshua Bell (2003). Esta versão não substitui a interpretação de cantoras como Maria Callas ou Montserrat Caballé. Esta ária de Bellini é muito apreciada na publicidade. Seguem dois exemplos distintos: o Stop the bullet Kill the gun, da Choice FM, de 2007, e On the Docks, de Jean Paul Gaultier, de 2013. No primeiro, a ária Casta Diva brilha com todo o seu esplendor, no segundo, o barroco é tão barroco que se torna difícil uma parte, por si só, sobressair.
Joshua Bell. Vincenzo Bellini: Casta Diva. Albúm: Romance of the Violin. 2003.
Marca: Choice FM. Título: Stop the bullet Kill the gun. Agência: Amv BBDO London. Direção: Malcolm Venville, Sean de Sparengo. UK, 2007.
Marca: Jean Paul Gaultier. Título: On the Docks. Agência: Ogilvy & Mather Paris. Direção: Johnny Green. França, Outubro 2013.
David Bowie, a máscara e o barroco em Veneza
A Louis Vuitton renova o convite à viagem. O primeiro destino foi Paris (http://tendimag.com/?s=invitation+au+voyage), agora é Veneza, num anúncio vincadamente barroco caracterizado pelo jogo das máscaras,numa turbulência colectiva onde nem sequer falta um esboço de levitação. Neste quadro, David Bowie é uma figura natural. O anúncio é de um belo efeito estético; não ofusca, porém, o anterior.
Marca: Louis Vuitton. Título: L’invitation au voyage. Agência : Direct. Direção : Romain Gavras. Novembro 2013.
A emancipação dos pés
Os pés merecem bom calçado. Suportam tudo e andam de rastos. Pés e Povo começam pela mesma letra. Mera coincidência. Mas os pés estão em vias de emancipação. O povo, não! A estética é crucial em qualquer processo de emancipação: o feio torna-se bonito graças a uma reciclagem do gosto. E os pés estão mais bonitos! E mais inteligentes. O anúncio da ShoeDazzle confirma-o. Proliferam as cinderelas. Quanto à inteligência, nada como ler este excerto do poema “dans ma maison”, de Jacques Prévert (Paroles, 1946). Em suma, não convém menosprezar os pés nem espezinhar o povo.
Marca: ShoeDazzle. Título: Hashtag. Agência : SelectNY. Direção : Maz Makhani. EUA, Junho 2013.
Jacques Prévert, excerto de “dans ma maison” (Paroles, 1946)
Eu não fazia nada
Isto é nada de importante
Às vezes de manhã
Lançava uns gritos animais
Zurrava como um burro
Com toda a força
E isso dava-me prazer
E depois brincava com os pés
São muito inteligentes os pés
Podem levar-nos longe
Quando queremos ir longe
E quando não queremos sair
Eles ficam a fazer-nos companhia
Quando há música dançam
Sem eles não se pode dançar
É preciso ser-se estúpido como o homem tantas vezes é
Para dizer coisas tão estúpidas
Como estúpido como um pé alegre como um tentilhão
O tentilhão não é alegre
Só é alegre quando está alegre
É triste quando está triste ou nem alegre nem triste
Aliás ele nem se chama assim
Foi o homem quem lhe deu esse nome
Tentilhão Tentilhão Tentilhão
Je ne faisais rien
C’est-à-dire rien de sérieux
Quelque fois le matin
Je poussais des cris d’animaux
Je gueulais comme un âne
De toute mes forces
Et cela me faisait plaisir
Et puis je jouais avec mes pieds
C’est très intelligent les pieds
Ils vous emmènent très loin
Quand vous voulez aller très loin
Et puis quand vous ne voulez pas sortir
Ils restent là ils vous tiennent compagnie
Et quand il y a de la musique ils dansent
On ne peut pas danser sans eux
Il faut être bête comme l’homme l’est souvent
Pour dire des choses aussi bêtes
Que bête comme ses pied gai comme un pinson
Le pinson n’est pas gai
Il est seulement gai quand il est gai
Et triste quand il est triste ou ni gai ni triste
Est-ce qu’on sait ce que c’est un pinson
D’ailleurs il ne s’appelle pas réellement comme ça
C’est l’homme qui a appelé cet oiseau comme ça
Pinson pinson pinson pinson
A Estética da Manteiga
Bernardo Bertolucci vulgarizou, nos anos setenta, a erótica da manteiga. Este artigo não visa, todavia, a erótica mas a estética da manteiga. Procurei, confiante, na obra de Andy Warhol, mas encontrei sopa, coca-cola e vodka. Resulta sempre alargar horizontes. No século XVII, a manteiga surge em primeiro plano nas naturezas mortas do pintor holandês Floris Gerritsz van Schooten (e.g., A natureza morta com copo, queijo, manteiga e bolo). Mais recentemente, no século XIX, Antoine Vollon pinta um vistoso pedaço de manteiga (Motte de Beurre, 1875-1885). Nos tempos que correm, a estetização mediática da culinária dá novo alento às saborosas naturezas mortas da idade barroca. Já não são quadros, mas vídeos, como este belíssimo anúncio da Lurpak em que o encanto da manteiga é de tal ordem que parece querer rivalizar com as latas de sopa Campbell’s.
Marca: Lurpak. Título: Good Proper Food. Agência: Wieden + Kennedy (Londres). Direção: Vince Squibb. Reino Unido, Fevereiro 2013.
Uma Gota de Emoção
A Citroen, fiel ao símbolo do cavalo, convida-nos a uma praia que parece pertencer ao reino dos elfos. Uma criança amazonas persegue o prazer com o cabelo a ondular ao vento. A Nespresso, por sua vez, mostra-nos, em câmara lenta minuciosa, a musicalidade e o bailado do embate de gotas numa superfície líquida. Até apetece brincar aos estruturalistas: claro / escuro; ar / líquido; potência / emoção; leite / café… Juntando um descapotável e um expresso, temos ou um galão ou um irmão metralha.
Marca: Citroen. Título: Baby. Agência: H Paris. Direção: Tom Kuntz. França, Fevereiro 2013.
Marca: Nespresso. Título: Drop of Emotion. Agência: Soleil Noir, Paris. Direção: Maxime Bruneel. França, Fevereiro 2013.
O Grande Bebedor
A coletânea “ cápsulas de emoções”, integrada na exposição Vertigens do Barroco (Mosteiro de Tibães, 2007), contemplava anúncios publicitários neobarrocos sensacionais e emocionantes. É difícil encontrar anúncio mais barroco, mais exorbitante, do que o Big Ad, da Carlton Draugh (2005). Lembrete: carregar em HD no canto superior direito.
Fun is not a straight line
Dois anúncios franceses magníficos, um a uma marca de automóveis (Citröen), o outro a uma marca de pneus (Michelin). Estreados com 7 anos de diferença (2000 e 2007), ambos convocam “estruturas elementares do imaginário” (para parafrasear E. Durkheim e G. Durand): o herói demoníaco (G. Lukacs); a travessia; a recta e o plano vs. a curva e a ruga; a magia na liminaridade… Descobrir as diferenças constitui um bom passatempo de férias!
Marca: Bfgoodrich. Título: The Bridge. Agência: BDDP & Fils. Direção: Frédéric Planchon. França, 2000.
Marca: Citroen C Crosser. Título: New Road. Agência: H Paris. Direção: NoBrain. França, 2007.
A Beleza do Reflexo
Eis um trabalho barroco (pérola imperfeita, em português antigo) sobre um pioneiro da pintura barroca, Caravaggio, e um artista neobarroco, Vik Muniz, às voltas com a figura de Narciso. A autora não depositou o seu trabalho no blogue do curso (Comunicação, Arte e Cultura). Enviou um pdf. Pois, vou colocá-lo no meu blogue para, de vez em quando, o revisitar: Sociologia e Semiótica da Arte – Narciso
We Robots
Personagens fabulosas, carnavalescas. Extensões do corpo, hologramas, levitação, bocas, controlo remoto e corrida de galgos mecânicos num deserto de sal. Música dos Swedish House Mafia. Este anúncio da vodka Absolut é um saboroso cocktail grotesco servido numa taça barroca.
Marca: Absolut. Título: Greyhound. Agência: TBWA\Chiat\Day. Direção: Carl Erik Rinsch. EUA, Março 2012.
A Fotogenia do Mal
O Mal é fotogénico ou são os retratos que tendem a favorecê-lo? Atente-se nestes dragões românicos a devorar um homem, na Igreja de Saint Pierre em Chauvigny.
Repare-se na expressão barroca deste sátiro do órgão do Mosteiro de Tibães.
Surpreendamo-nos, enfim, com esta escultura contemporânea de um demónio mais que barroco (ver http://9gag.com/gag/2529769).
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