Deslizar
Deslizar não é andar nem voar. Voar e deslizar são figuras e sensações particularmente prezadas na actualidade. Foram, por exemplo, os desportos californianos (asa delta, parapente, surf) aqueles que mais cresceram desde meados do século XX (ver o artigo “O Desporto do Nosso Contentamento”, publicado em 2002). Este anúncio da Peugeot, dirigido por Filip Tellander, aposta no deslize, em diálogo ora com desportos radicais, ora com videojogos. Uma cartografia, entre outras possíveis, do prazer contemporâneo.
“Ce dont, dans sa diabolique pesanteur, le monde s’évertue à nous dépouiller, c’est de la passion, qui seule glisse au niveau de la Création” (Louis Calaferte, Droit de Cité, 1992).
Marca: Peugeot. Título: The Road to Sensations. Agência: BEPC. Direcção: Filip Tellander. França, Janeiro 2004.
Amor prevenido
O controlo automático de distância não se aplica apenas aos automóveis e respectivos peluches. Também separa os seres humanos. Aproximam-se, afastam-se, mas não se encontram. Como dois pólos magnéticos iguais. Uma tragédia shakespeariana na era da técnica! Com pequenas coisas se fazem grandes anúncios. A medida é o ser humano.
Marca: Volkswagen. Título: A Teddy Tragedy. Agência: adam&eveDDB. Direção: Matteo Pellegrini. UK, Fevereiro 2014.
Asas com rodas
Gostamos de asas. Basta escrever a palavra para a frase ficar mais leve. Gostamos também de passarinhos. E dos pobrezinhos. “Pobres dos pobres são pobrezinhos, almas sem lares, aves sem ninho…” (Guerra Junqueiro, Os Pobrezinhos, Os Simples). Mas “de quem eu gosto, nem às paredes o confesso” (Amália Rodrigues). Se calhar, do Leonard Cohen… “Oh like a bird on the wire / Like a drunk in a midnight choir / I have tried in my way to be free” (Bird on the Wire, Songs from a Room, 1969). Pelos vistos, ainda não perdi a mão à “difícil arte de cavalgar” (Dom Duarte) uma citação por linha.
Marca: Volkswagen. Título: Wings. Agência: Argonaut. USA, Janeiro, 2014.
(“Bird on the Wire” from Songs from the Road by Leonard Cohen)
Sem pestanejar
Há anúncios assim. Comparativamente longos, optam por se atardar em torno de um assunto lateral. O produto propriamente dito é abordado na parte final. O corpo e a conclusão do anúncio requerem, no entanto, algum tipo de ligação. É frequente a ligação entre o tema e o produto convocar as figuras do excesso e da excepção. Por excesso, a mulher, ofuscada pelo Honda, não conseguiria parar de pestanejar. O anúncio aposta, porém, na excepção: seduzida pelo automóvel, a mulher, contra a natureza humana, deixa de pestanejar. De qualquer modo, seja por excesso, seja por excepção, o produto, o automóvel, respira diferença e distinção, num piscar de olhos feito de luz e visão.
Existe um anúncio argentino, enternecedor, que também incide sobre o ato de pestanejar (para aceder: http://tendimag.com/2012/06/24/teus-olhos-risonhos-sao-mundos-sao-sonhos-alves-coelho/).
Marca: Honda. Título: Papadeos. Agência: DraftFCB, Puerto Rico. Direção: Alvaro Aponte Centeno, Porto Rico, Agosto 2013.
O carro e a paisagem
O segmento automóvel é um mundo à parte na publicidade. A excelência mora por estes lado. Os recursos ajudam. Este anúncio não tem nada de especial, a não ser a qualidade.
Marca: Citroen. Título: Citroen DCH13. Produção: Le rendez vous à Paris / Mac Guff. Direção : Laurent Nivalle. França, Abril 2013.
A condição de felicidade
A publicidade não é um espelho. Para além dos próprios espelhos, poucos ou nenhuns espelhos há. Nem sequer os “espelhos da alma”. Mas espreitando com um olhar engenhoso, alguma coisa se vislumbra. Os anúncios são um bom meio de acesso àquilo que as marcas, as agências, os media e os públicos identificam como valores, sensações e experiências a procurar, partilhar ou evitar. Por exemplo, a felicidade. O que é? O que a motiva? Como se reconhece e como se manifesta? Em suma, o que é “a condição de felicidade”? Este anúncio da Toyota dá para começar a treinar.
Marca: Toyota Rav4. Título: Make It Yours. Agência: Draftfcb Johannesburg. Direção: AK. República da África do Sul, Abril 2013.
Matrículas
Há meses, apresentei, com uma colega, uma comunicação sobre o papel dos banners na publicidade. Este anúncio da Car One é, neste domínio, particularmente criativo. As matrículas, como os estigmas em Erving Goffman, são indiscretas, fazem ecrã e viciam as situações. Caricaturam certas propriedades em desabono de outras. Desenham máscaras e palcos. Quando se é GIL (pascácio, na Argentina), FAT (gordo), GAY ou GOY (gentio; não judeu), como apagar estas letras? Como sombrear a indexação abusiva tornada reclame ofuscante? Nestas circunstâncias, um conselho: se pretende comprar um automóvel, compre um automóvel analfabeto.
Marca: Car One. Título: Patentes DEeafortunadas. Agência: Leo Burnett, Argentina. Direção: Alejo Rosemberg & Julian Castro – Nah!. Argentina, Dezembro 2012.
Arte a 225 km/h
Os anúncios a automóveis constituem um caso à parte. Costumam aventurar-se pelos caminhos da arte. Este Change Lanes, da Lexus, é um bom exemplo. Uma sequência estonteante de imagens a preto e branco, aqui e além salpicadas por uma sombra de cor ou por um banner fugaz. Mais a música, claro, eletrizante, dos Kill Memory Crash (Short, do EP Of Fire, de 2008). E é conteúdo quanto baste para excitar os neurónios.
Marca: Lexus. título: Change Lines. Agência: Team One. Direção: Melina Matsoukas. EUA, Janeiro 2013.



