Afrodisíaco de Estado
As altas autoridades proibiram um print da Prada com uma adolescente sentada num carril de caminho ferro. Proibiram também um anúncio da Rexona em que três adolescentes dançam sem cinto de segurança no banco de trás de uma carrinha (ver artigo Zelai por nós). Estes e outros anúncios foram proibidos em nome da segurança das crianças e dos jovens. E a preservação da espécie, a produção de criancinhas, quem zela por ela?
Marca: Nestea. Título: Confession. Agência: Zulu Alpha Kilo. Direcção: JJ Adler. Canadá, Julho 2014.
Dois anúncios ilustram o descaminho sexual na publicidade. Em ambos, a bebida suplanta o amor e a sexualidade. No mais recente, Confession, da Nestea, o jovem concentra-se mais no iced tea do que na confissão de amor da companheira. O iced tea ergue-se como uma barreira na comunicação entre géneros. No anúncio Mobile Phone Call, da Cerveza Salta, a companheira perde atractivos à medida que cresce o apelo da cerveja. O resultado é a separação.
Marca: Salta. Título: Mobile Phone Call. Agência: KEPEL & MATA (Buenos Aires). Direção: Pablo Fusco. Argentina, 2010.
Por este andar, de bebida em bebida, o obelisco, ignição da vida, acabará por se resumir a uma torneira. Pelos vistos, a barriga cresce, mas a masculina! Proibir? Proibir ainda é feio. Basta condicionar: o anúncio só pode ser visionado por pessoas inférteis. Eis, volvidos sete séculos, um remake do milagre das rosas.

Concurso Dê Voz ao Cartoon, http://www.expresso.pt, 19 de Julho de 2008.
O aumento da natalidade é urgente. Para cimento dos casais, revitalização das aldeias, brincadeira das crianças, lotação das escolas… Em suma, para dar vida à vida. Mas todos estes efeitos são miudezas. É preciso ter filhos, dizem-nos, para sustentar a segurança social e garantir o futuro das reformas. Já se afirmava o mesmo há cinquenta anos. Haverá excitação mais excitante? Fazer amor sem preservativo nem contraceptivo para sustentar a segurança social! Este novo desígnio nacional é um autêntico afrodisíaco de Estado!
Assexia
Paula Rego. Pregnant rabbit telling her Parents. 1982.
Gosto da publicidade argentina. Os anúncios são impudicamente sexuados. Nada a ver com a “assexia” europeia. Quem acompanha a publicidade argentina e a publicidade europeia fica impressionado com o contraste. Curiosamente, a taxa de natalidade também é distinta: 17,3‰, em 2011, na Argentina; 8,5‰, ou seja metade, em 2012, em Portugal, 10,3‰, em 2012, na União Europeia. Permito-me um apelo aos nossos zelosos cuidadores empoleirados: acabem com o tabaco e com o arroz de cabidela, mas deixem o sexo!
Marca: PepsiCo Argentina. Título: Patinaje. Agência: BBDO Argentina. Direção: Luciano Podcaminsky. Argentina, 2012.
Amor adesivo
Há seres que de tanto se aproximar acabam colados. E de dois, se faz um. Acontece com CarlaLuís, no anúncio dos vinhos Alma Mora, e Brangelina, no anúncio da bebida Paso de los Toros. A mitologia grega habituou-nos a estas fusões: centauros, sereias, tritões… Nestes dois anúncios, a cola é o mel, o mel do amor. São ambos mais melosos do que um lago de gelatina. Nada como o golpe de misericórdia, o raio de Zeus que desfaz Brangelina e refaz Braulio e Angelina: “Cortá con tanta dulzura”. Por momentos, a atenção concentra-se na música Bailar pegados, canção espanhola interpretada por Sergio Dalma no Festival da Eurovisão de 1991. Sobra a sensação de que parte do segundo anúncio se inspira no primeiro. Mas, no mundo da vida, mais vale inspirar do que expirar.
Marca: Alma Mora. Título: CarlaLuís. Agência: La Comunidad. Direcção: Juan Cabral. Argentina, Novembro 2013.
Marca: Paso de los Toros. Título: Brangelina. Agência: Corporación JWT . Direcção: Javier Palleiro. Uruguai, Abril 2014.
Sergio Dalma. Bailar Pegados. Festival da Eurovisão de 1991
Abraço da Alma
A Coca-Cola borbulha emoções. Uma história bem contada faz vibrar o diapasão da sensibilidade. Juntando ídolos do futebol (filhos de um Deus maior), um deficiente fervoroso (filho de um Deus menor) mais o público (filho de um Deus banal), temos “um abraço da alma”.
Este anúncio, todo ele, assenta na memória. Houve quem se apressasse a carpir a erosão da memória com o advento do homem digital. Multiplicam-se, pelo contrário, os sinais do reforço da memória no domínio público.
Marca: Coca-Cola. Título: Abrazo. Agência: David. Direcção: Javier Usandivaras. Argentina, Março 2014.
Indefinição e instabilidade
Máscaras estilizadas, parcas em feitio e expressão. Repetitivas e incómodas. São disfóricas. A inquietação não precisa de grandes atavios para se instalar. Um monstro, quanto menos definido, maior o efeito, perdão, pior o efeito. A propósito da “coisa” (The Thing, John Carpenter, 1982), um ser de substância improvável, Omar Calabrese escreve: “a coisa não tem uma forma autónoma, mas as suas células imitam as dos seres que lhe passam mais perto, até as engolirem e se transformarem nelas. O que faz que, quando a coisa é enquadrada, seja na realidade ora um cão, ora um membro da expedição” (A Idade Neobarroca, Lisboa, Edições 70, 1999, p. 109). O monstruoso reconhece-se, mas desconhece-se. E quanto mais se desconhece, maior a monstruosidade. Em suma, um anúncio excelente!
Marca: Zona Jobs. Título: Lottery. Agência: McCann, Buenos Aires. Direcção: Turbo Trueno. Argentina, Fevereiro 2014.
Destapar o sol!
Com tanta nuvem taciturna, dava jeito destapar o sol. Quem se candidata a subir a uma escada tão alta como o défice para afastar as nuvens? E, já agora, com mais um ou dois degraus não daria para destapar o futuro? Coitado, parece uma ostra sem pérola! Em contrapartida, este anúncio é soalheiro e optimista, a condizer com a “fábrica da felicidade”.
Cliente: Coca-Cola. Título: Cielo. Agência: Young & Rubicam. Direção: Pucho Mentasti, Watta Fernandez. Argentina, 2009.
A Paixão das Mulheres
Às mulheres, dava jeito um par de mãos suplementar. Vale-lhes o Alto Palermo, um shopping em Buenos Aires. A maioria dos anúncios argentinos destaca-se pela expressividade. Mesmo quando enveredam pela oralidade, os anúncios tendem a sobrepor a ilustração à forma e à retórica. A chave do anúncio é ciosamente adiada para os últimos segundos. Entramos antes de abrir a porta; só com a porta aberta, sabemos onde entrámos.
Marca: Alto Palermo. Título: HandMa. Agência: Young & Rubicam. Argentina, Dezembro 2013.
Para alívio das mulheres, os homens são descartáveis. Uma libertação! A vocação dos homens consiste em ser ex. Por acréscimo, são fáceis de substituir. Abundam, com garantia de qualidade, em locais como o Alto Palermo, “pasión de mujeres”. Um número crescente de marcas prefigura novos tempos em que os homens se convertem em Adónis a tempo parcial, “galateios” à medida e gigolos baratos.
Marca: Alto Palermo. Título: Ex. Agência: Young & Rubicam. Direção: Brian & Nico. Argentina, Dezembro 2013.
Requiem desportivo
Eis um anúncio que não aspira à santidade. O protagonista é viciado em futebol. Não se enxerga! Confunde uma urna com uma claque e o cemitério com um estádio. Somos contemplados com dois minutos de equívoco. O que é obra! Raia o incómodo. Sem belas almas, mas com boa gente, o ser humano dança o tango no humor argentino. “Nem anjo, nem demónio”, oscila, pardo, entre a graça e o pecado. De vez em quando, cai bem um anúncio dissonante que não prega fé, esperança e caridade.
Marca: T&C Sports. Título: Requiem. Agência: Young & Rubicam. Argentina, Dezembro 2013.
O sexo e o género
A desigualdade na repartição das tarefas domésticas não é uma questão de sexo, mas de género. Não radica na biologia mas na cultura. O anúncio da Magistral mostra o que já sabemos: lavar pratos não atenta contra a integridade do homem. Não deixa de ser interessante esta vaga de anúncios que convocam causas sociais, independentemente do produto. Agora um detergente, logo uma lima para os cornos do diabo.
Marca: Magistral. Título: Hospital. Agência: Grey Argentina. Direção: Andrés Salmoyraghi / Julieta García Casalia / Matías Gutierrez. Argentina, Dezembro 2013.




