O abismo
Em 2012, participei num documentário dedicado a uma árvore de Guimarães. Competia-me cuidar do simbolismo. A árvore é um ser cósmico vivo que acolhe a vida. Agarra-se à terra, bebe água, eleva-se no ar e consume-se no fogo. É uma ponte vertical entre as profundezas da terra e as alturas do céu. Há quem associe a árvore ao sagrado. E ao demoníaco, também. A árvore ergue-se como um marco da memória individual e colectiva. Quando regresso às origens, visito as árvores: a pereira e a tangerineira partiram sem avisar. Menos dois troncos de memória, menos dois anjos da guarda. Valem-me, para compensar, as rotundas e os semáforos. O anúncio Farewell to the forest, da Unilever, sublinha que, no mundo, a cada minuto, é desarborizado o equivalente a 36 estádios de futebol. Um abismo!
O antropólogo George Condominas publicou, em 1957, o livro Nous avons mangé la forêt (Comemos a floresta; Paris, Mercure de France). Estuda os Mnong-Gar dos planaltos do Vietname. Tinham o seguinte costume: num ano, desbastam uma parte da floresta onde semeiam, por exemplo, arroz; no ano seguinte, cortam outra parte da floresta. Ano a ano repetem a proeza. Até que, volvidos vários anos, regressam ao início onde os espera uma floresta recomposta. E recomeçam “a comer a floresta”… É possível explorar a floresta sem a destruir.
Futurismos
Nos anos setenta, a turma da disciplina de Sociologia da Arte, da Sorbonne, foi visitar a exposição dedicada ao futurismo no Centro de Arte e de Cultura Georges Pompidou (Beaubourg, Paris). Fui contrariado uma vez que existiam algumas ligações entre o futurismo e o fascismo, ambos de origem italiana. Marinetti, poeta fundador do movimento futurista (Manifesto Futurista, 1909) foi também uma das 119 pessoas presentes, em 1919, na fundação dos Fasci italiani di combattimento, o primeiro partido fascista europeu.
A exposição era impressionante. Aprendi a não confundir arte e ideologia. O futurismo mobilizou todas as artes e a sua herança permanece viva. Centra-se no presente e no futuro, privilegiando o movimento, a velocidade, a inovação e a máquina.
“La littérature ayant jusqu’ici magnifié l’immobilité pensive, l’extase et le sommeil, nous voulons exalter le mouvement agressif, l’insomnie fiévreuse, le pas gymnastique, le saut périlleux, la gifle et le coup de poing.
Nous déclarons que la splendeur du monde s’est enrichie d’une beauté nouvelle: la beauté de la vitesse. Une automobile de course avec son coffre orné de gros tuyaux tels des serpents à l’haleine explosive… une automobile rugissante, qui a l’air de courir sur de la mitraille, est plus belle que la Victoire de Samothrace” (F.T. Marinetti, Manifeste du Futuriste, Le Figaro, 20 de Fevereiro de 1909).
Os anúncios seguintes lembram o futurismo: cores contrastadas, decomposição e recomposição das imagens, exaltação dos movimentos, fascínio pela técnica… Repare-se na semelhança entre a personagem que foge no primeiro anúncio e a escultura de Umberto Boccioni (1913).
Marca: BGH. Título: Persecución. Agência: Del Campo Nazca Saatchi & Saatchi. Direcção: Jonathan Gurvit. Argentina, Julho 2015.
Marca: AZ Produções e Publicidade. Título: AZ o marketing futurista aqui. Agência: AZ Produções e Publicidade. Brasil, Fevereiro 2015.
O rapto de Europa
O Dia Internacional do Beijo já passou, mas ainda há remanescências. Naquele tempo, Zeus, transformado num touro, raptou a princesa fenícia Europa, levando-a para Creta. Tiveram três filhos, um dos quais Minos, rei de Creta associado ao Minotauro e ao labirinto de Dédalo. Mas Minos era, como diriam os franceses, minable (deplorável). O beijo deste anúncio não é minable, é, em francês, interminable. Até que o euro os separe.
Marca: Topline. Título: Kiss. Agência: Del Campo Nazca Saatchi & Saatchi. Direcção: Guarna. Argentina, 2009.
O avanço da inteligência
Anunciar o que não existe é obra de charlatão ou de génio? Com a Volkswagen nunca se esteve tão perto do que não existe. Uma ideia absurda mas performativa. Só a profecia tecnológica consegue dar vida ao nada. É a nossa síndrome do Prof. Pardal, a disparar mais rápido do que a sombra. Está na moda tudo ser inteligente: a lâmpada, a máquina, a casa, a cidade, o míssil… Até os parvos são inteligentes! E concluo à boa maneira francesa, citando Madame de Girardin: “Um homem inteligente a pé anda mais devagar do que um parvo de automóvel”.
Marca: Volkswagen. Título: Special Feature. Agência: DDB Argentina. Direcção: Rodrigo Garcia Saiz. Argentina, Maio 2015.
Fotogenia
Por que motivo Einstein mostra a língua? É um dos mistérios do século XX, agora desvendado pela Sony graças a uma alta tecnologia de reconstituição fotográfica. Afinal, Einstein está a colar envelopes de correio, sendo a língua o humidificador. Quem pensou noutro motivo, pecou. Noutra fotografia célebre, o riso de Marilyn Monroe ofusca o sorriso da Gioconda. Funciona, segundo a Sony, como um recurso para se livrar de apuros. Quem pensou numa virtude, errou! Ambos os casos convocam a sedução: Einstein seduzido pela gula, Marilyn, sedutora por conveniência.
Marca: Sony Cybershot. Título: Einstein. Agência: Del Campo Nazca Saatchi & Saatchi, Argentina. Direcção: Marcelo Burgos. Argentina, 2011.
Marca: Sony Cybershot. Título: Marilyn. Agência: Del Campo Nazca Saatchi & Saatchi, Argentina. Direcção: Marcelo Burgos. Argentina, 2011.
Infinitamente nada
O argentino Guillerme Mordillo, “catedrático honorário do humor” pela universidade espanhola de Alcalá de Henares, é um cartoonista que se distingue pelos desenhos coloridos sem sombra de palavra. O seu humor terno está bem patente nestas duas imagens.
O elefante e a girafa dão à luz um híbrido desconsolado. Bauman diria que é fruto da liquidez das fronteiras. Ser funâmbulo no arco-íris não é para todos. É só para quem perde a razão, para “quem vê com o coração”. Os amantes são os principezinhos da pós-modernidade. Como diria Pascal, somos infinitamente pequenos pelas nossas capacidades, mas infinitamente grandes pelos nossos desejos. Não somos geómetras com a flecha apontada ao sonho. Não “inventámos a felicidade” (Max Weber), namorámo-la.
Libertação masculina
Multiplicam-se os anúncios que exaltam a masculinidade. Este anúncio da Renault é um exemplo. O homem liberta-se da família, do trabalho e dos compromissos. Com que propósitos? O que é, na óptica da publicidade, um homem livre? O que faz? Evade-se, vai a uma churrascaria, faz desporto, combate, procura a natureza, caça e, sobretudo, conduz um automóvel. Com que símbolos? O cão, o fogo, a espada, o cavalo, a águia e o automóvel.
A agência Publicis explica:
“La mayoría [de los hombres] tiene responsabilidades, su casa está tomada por la familia y el trabajo, todos los días los esperan con nuevos desafíos -por no decir problemas-… En este contexto, el nuevo Renault Fluence es un espacio de libertad para hacer o para ir adonde quieran, comer lo que quieran, jugar a lo que quieran, escuchar la música que quieran, atender o no el teléfono, en resumen el nuevo Renault Fluence es el símbolo de libertad masculina”.
Este anúncio associa, declaradamente, o Renault Fluence ao género masculino. E as mulheres? Não conduzem? Não compram? Espera-se que sejam atraídas pela “masculinidade” do automóvel?
Marca: Renault. Título: Símbolo de libertad Masculina. Agência: Publicis Buenos Aires. Direcção: Nico Perez Veiga. Argentina, Dezembro 2014.
Bofetada intercultural
O pós-moderno, dividido, hesita; o (pré)moderno, convicto, conquista. “El indio no duda”. Quanto à violência gratuita, ela é a pimenta da culinária publicitária. Alongando a análise, nestes dois anúncios a bofetada parece representar um choque de culturas.
Marca: Bodega Uxmal. Título: El indio no duda (moto). Agência: Carlos & Dario. Direção: Matias Scartascini. Argentina, Novembro 2014.
Marca: Bodega Uxmal. Título: El indio no duda (amigas). Agência: Carlos & Dario. Direção: Matias Scartascini. Argentina, Novembro 2014.
Ideias quase tuas
Gosto de ideias. De vadios e vadias. Não gosto que as atrelem a um poste de vaidade. Não me interessam as ideias de trazer ao peito. Engomadas. As ideias gostam de se amachucar. Não gosto de ideias sólidas. Prefiro vê-las esguias, a fintar catálogos, formulários, protocolos, dicionários e citações. Gosto de ideias que dançam com o erro na corda bamba. Gosto de ideias que valem mais que o dono. Gosto das minhas ideias, sobretudo quando são quase tuas. Não gosto de ideias roubadas. Quem rouba ideias não as tem.
Este anúncio argentino estreia amanhã. Podes vê-lo hoje.
Marca: TEDxRíodelaPlata. Título: Ideas quasi tuyas. Agência: Ponce. Direção: Rosca. Argentina, Setembro 2014.















