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De cortar a respiração

Edvard Munch. Lovers in the waves. 1896

“Muchas veces escuchamos los latidos del corazón como metáfora de la vida (…) Pensamos que a partir de la pandemia la respiración tomó más relevancia, desde lo conceptual y desde lo simbólico. Respiro es un mensaje que toca una cuerda que resuena en la sociedad y cala profundo en nosotros (Martín Pezza: https://www.adlatina.com/publicidad/preestreno-enero-comunicacion-y-medife-toman-aire).

Respirar é mais do que inspirar e expirar. É sentir, desejar e comunicar. A associação à sexualidade e ao desejo é de tal ordem que Jean-Louis Tristani fala de um “estádio do respiro” distinto do “estádio oral “ (ver https://tendimag.com/202211/11/o-estadio-do-respiro/). Para além do erotismo, a respiração é decisiva na música, na fala, no imaginário… Simbolicamente, respira-se saúde e liberdade; a alma enche-se e o coração suspira; o diabo sopra e algumas situações sociais sufocam. Estreado esta semana, o anúncio argentino “Respiro” oferece um autêntico inventário do fenómeno a um ritmo de cortar a respiração. Recorda canções, danças, poemas, cenas de filmes, anúncios…

Para quem tiver tempo e curiosidade, acrescem dois vídeos: uma canção (em jeito de homenagem a Jane Birkin) e um anúncio (focado na poluição). Sugiro, enfim, o (en)canto “gutural” de Camille (https://tendimag.com/2022/11/11/o-estadio-do-respiro/). E pronto! Acabou-se-me o fôlego.

Marca: Medifé. Título: Respiro. Agência: Enero Comunicación. Direção: Tomás Posse. Argentina, agosto 2023

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Serge Gainsbourg & Jane Birkin. Je T’Aime, Moi Non Plus. 1969
Marca: ClientEarth. Título: Poisened Playgrounds. Agência: BMB London. UK, 2017

O desporto e a imagem

Ao João e ao Fernando

O golfe é um jogo em que não há necessidade de se apressar. Importa deixar entrar a riqueza do desporto (Catherine Lacoste)

O desporto constitui um dos maiores bancos de imagens da atualidade. Aproxima-se frequentemente de uma coreografia mais ou menos espontânea. O anúncio The Greatest Show on Earth, do canal SKY Sports, e o trailer de lançamento, Match Day, do videojogo EA SPORTS FIFA 23, investem nessa vertente.

Marca: SKY Sports. Título: The Greatest Show on Earth. Agência: Sky Creative. Direção: Daniel Kleinman. Reino Unido, agosto 2023
Marca: EA SPORTS FIFA 23. Título: Match Day. Agência: Wieden + Kennedy, Portland. Direção: Jungle. USA, agosto 2023.

Relaxar a eito! A maçã e a abóbora


Tinha saudades de um anúncio como este. Lacónico e inspirado, torna o pouco bastante e o inexpressivo eloquente. Imagem, música, duração e ritmo dão primorosa e discretamente as mãos. Ao arrepio da tendência pós-Covid, não aposta na oralidade, na conversa. Opção que não compromete a mensagem. Tudo fala pelos cotovelos, até a lentidão e o tédio, aparentemente assumidos como privilégios.

Marca: Apple / iPhone 14 Plus. Título: Relax, It’s iPhone – Tractor. Agência: Apple Marcom. Direção: Ivan Zacharias. Julho 2023
Brigada Victor Jara. Cantiga Da Deifa. Eito Fora. 1977

Todos diferentes, todos iguais

Túmulo de Sethi 1º. Vale dos Reis, oeste de Tebas. Detalhe do teto astronômico da Câmara Mortuária

Por que motivo, nas cidades por onde passamos, nos empenhamos a escolher doze postais diferentes – quando são destinados a doze pessoas diferentes? (Sacha Guitry. Pensées, maximes et anedoctes, 1ª ed. 1985, Le Cherche Midi, 2007, p. 117)

Vulgarizado pela Benetton, o mote “todos diferentes, todos iguais”, conquistou a publicidade e o espaço público. Os anúncios passam a apostar na diversidade das figuras convocadas em dimensões tais como o género, a idade, a raça, a posição social ou os padrões estéticos. Cada anúncio oferece um cardápio identitário. Em vez de bens cujo consumo se deseja, imagens a cuja adesão se incentiva. Num dispositivo pós-pavloviano, a projeção e a identificação tendem a sobrepor-se à salivação. Confrontado com tantas e tão díspares figuras, em alguma o espetador se reconhecerá (e doutras se de demarcará).

Marca: United Colours of Benetton. Título: ‘You can be everything’. Fall-Winter 2022 Campaign

“Todos diferentes, todos iguais” constitui uma equação complexa a alcançar. Tudo menos dada de antemão. Suscetível de várias formulações, a tónica pode ser colocada mais próxima de um ou do outro lado: unir mais do que separa ou separar mais do que une.

Nas últimas décadas, o polo da diferença tem adquirido atratividade. Por vezes, em demasia, reduzindo-se as posições, paradoxalmente, a mais do mesmo, a um coro monofónico, pouco aberto e nada tolerante. Nesta di-visão exacerbada do mundo, cada qual vale por si, “sem fazer parte” de uma comunidade orgânica. Esfuma-se o fundo comum, bem como a interdependência e, a fortiori, o sentimento de união e partilha. Em suma, um mosaico estilhaçado a espelhar uma realidade fragmentada à beira do caos. Alguns anúncios proporcionam este efeito. sugerem esta impressão. Os protagonistas sucedem-se sem laços nem nexo. É certo que, à falta de mais, a própria marca, envolvente, assegura a junção, mas como uma espécie de interruptor que acende uma constelação babélica de clichés e flashes.

Esta aposta na diferença parece amiga das liberdades, das autonomias e das identidades. Os processos sociais revelam-se, porém, propensos a perversidades capazes de inverter o sentido das promessas, por mais óbvio que se manifeste. As coletividades inorgânicas, babélicas, carecem de alguma entidade, porventura providencial, que as cimente e acaba por se lhes sobrepor senão impor. Exterior ou estranha, quando não avessa, às diferenças, esta totalização tende a namorar o totalitarismo, tornando-se pouco “amiga das liberdades, das autonomias e das identidades”. Não se trata de uma fatalidade a agitar como um espantalho mas de um risco a não menosprezar.

Albrecht Dürer. Cristo entre os Doutores (Pormenor). 1506.

Convém admitir que boa parte dos anúncios publicitários visa conciliar diferença e igualdade. Encenam a interdependência na e pela diferença sobre um fundo de igualdade e universalismo. Os protagonistas não só se sucedem como dialogam e interagem de uma forma natural e compensadora. Assumida como mediação, a marca, mais do que mero interruptor, funciona, agora, como traço-de-união. O “pluri” e o “multi” abrem-se ao “inter” e ao “trans”. Recentes, os anúncios The Feeling of Good Times, da Heineken, e New Zealand runs on fibre, da Chorus, representam dois casos exemplares.

Marca: Chorus. Título: New Zealand runs on fibre. Agência: Saatchi & Saatchi New Zealand. Direção: The Bobbsey Twins From Homicide. Nova Zelândia, junho 2023
Marca: Heineken. Título: The Feeling of Good Times. Agência: Le Pub / Publicis Italy. Itália, junho 2023

Sensibilidade

Quando as palavras não sonham, as notícias não prestam, a música não dança, as pessoas não se abraçam, as sombras não se escondem, os minutos não passam e o depois não chega… segue os pássaros ou bebe um anúncio bem cheio, sem gelo, do Bruno Aveillan. Perde-te em Nova Iorque ou descobre AluLa. Sente! Sente os rostos, as mãos, os objetos e o que mais se oferecer.

Marca: Tiffany & Co. Título: Love (in) New York (Fashion Film). Agência: Ogilvy NY. Direção: Bruno Aveillan. 2022
AluLa, The World’s Masterpiece. UNESCO World Heritage Site. Agência: Leo Burnett KSA, Riyadh. Produção: QuadDireção: Bruno Aveillan. Arábia Saudita, 2021

Suave e aveludado

Os últimos dias foram de concentração. Entreguei-me à construção de materiais audiovisuais para o próximo encontro dedicado aos antepassados do surrealismo, em particular aos maneiristas da segunda metade do séc. XVI, programado para o dia 27 de maio, sábado, às 17:00, no Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa. Consistirá mais numa ilustração do que numa oratória. Esbocei ontem uma espécie de antestreia na disciplina de Sociologia da Arte, do curso de mestrado em Comunicação, Arte e Cultura. Um excelente teste com um mês de antecedência.

Vim descontrair para a beira-mar. Apetece-me partilhar um post que propicie uma atmosfera de repouso e indolência. Acodem-me os anúncios recentes da Velveeta, uma marca, como o nome sugere, de queijo “cremoso, suave e aveludado”. Um deleite minimalista com a ressonância, a ação, o compasso e o colorido certos para cativar a atenção, aguçar o desejo e distinguir a marca. Original e feliz! A que mais poderia aspirar uma publicidade?

Marca: Velveeta. Título: La Dolce Velveeta / Rider. Agência: Johannes Leonardo. Produção: Biscuit. Direção: Andreas Nilsson. USA, abril 2023
Marca: Velveeta. Título: La Dolce Velveeta / Breeze. Agência: Johannes Leonardo. Produção: Biscuit. Direção: Andreas Nilsson. USA, abril 2003
Marca: Velveeta. Título: Thats La Dolce Velveeta / Film. Agência: Johannes Leonardo. Direção: Harmony Korine. USA, janeiro 2022

Os sinos da consciência

O nu desapareceu praticamente da publicidade. O grotesco resiste. Os anúncios de consciencialização e sensibilização social proliferam. Oferecem-se como uma marca distintiva da nossa era. Visam interpelar e mobilizar os cidadãos, pelo pensamento, pelo sentimento e pela imagem, para problemas, causas e movimento de uma extrema diversidade quanto às origens, modalidades e finalidades. Segue uma mistura de exemplos recentes.

Anunciante: Disasters Emergency Committee. Título: Never Alone. Agência: Don’t Panic (Londres). Direção: Rick Dodds. Reino Unido, fevereiro 2023
Anunciante: My Black is beautiful. Título: Unbecoming. Agência: Cartwright. Direção: DAYDAY. USA, março 2023
Anunciante: CONAF/Gobierno de Chile. Título: Campaña de prevención de incendios. Agência: McCann Santiago. Chile, fevereiro 2023
Marca: Nescafé. Título: Jars. Agência: Courage Inc Toronto. Direção: Omri Cohen. Canadá, fevereiro 2023
Anunciante: Gouvernement du Québec. Título: Escape the control. Agência: Lg2. Direção: Nicolas Brassard. Canadá, fevereiro 2023
Anunciante: HandsAway & Consentis. Título: Décoder les femmes. Agência: TBWA (Paris). França, março 2023
Anunciante: NHS. Título: Ribbon dancer. Agência: M&c Saatchi (london). Direção: SI&AD. Reino Unido, fevereiro 2023

Virtualidades pouco virtuosas

Fotoprix. Breast. 1999

Cada vez se torna mais complicado distinguir a realidade do imaginário. Por vezes, somos mais estimulados pela cópia do que pelo original. Tomamos, inclusivamente, como reais realidades que nunca existiram. Jean Baudrillard fala em hiper-realidade. Estes três anúncios da Fotoprix são duplamente dúbios: pela ilusão e pela mensagem. Virtualidades pouco virtuosas.

Marca: Fotoprix. Título: Silicona. Agência: Casadevall. Direção: Xavier Rosello. Espanha, 1996
Marca: Fotoprix. Título: Breast. Agência: Young & Rubicam (Madrid). Direção: Xavier Rosello. Espanha, 1999
Marca: Fotoprix. Título: Ilusión. Agência: The Farm. Direção: Xavier Rosello. Espanha, 2002

Comparsas

Borsodi. Wave. Hungria, 2003

Simplesmente diferentes, incondicionais da cerveja Borsodi, paladinos da frescura alheios à boçalidade alheia.

Aproveito para sugerir a visita a dois artigos: Quando o vigiado se torna vigilante e Albert Camus: sinónimo de liberdade.

Marca: Borsodi. Título: Wave. Agência: Young & Rubicam. Direção: K U. Hungria, 2003
Marca: Borsodi. Título: Picnic. Agência: McCann. Direção: Albert Saguer. Hungria, 2014

Magia: A Fisioterapia e a Vida

O anúncio “Caring Makes Magic”, do Centro Médico Montefiore, de Nova Iorque, sensibiliza. Convoca duas histórias, que acabam por se cruzar no final de uma forma desconcertante mas eloquente, com protagonistas que vivem em dois mundos, sem se saber qual o mais real e o mais fantástico.

Physical therapy is often a slow process, but the rewards are powerful. In this year’s holiday spot, Montefiore Einstein shows the recovery of a toy store owner, how it impacts his life and many others – real and imagined.
Dual plotlines depict the sleepless nights and pain that a store owner has to endure, juxtaposed against characters atrophying in a holiday display within the man’s toy shop window. One boy complains: “My skates don’t work.” A vendor says there are “No cookies. No nothing.” Without the store owner, they are lost.
After pushing himself to recover and bonding with his physical therapist, we see our hero running up the stairs and, soon, back at his store. There, he brings the village back to life. Soon skates and sleds work. The fire at the roasted chestnuts stand ignites. Even the chestnut vendor’s hair grows back (…)
We see the store owner happily driving the train through his toy village and find the boy who had lived in the display suddenly outside the store window. Sound confusing? It kind of is, but it certainly gives us something to think about and a reason to watch again.
In the end, the key message – that “caring makes magic” – is driven home quite poetically (Kenneth Hein. Nearly three minutes of holiday delight offer dual story lines and one important message. The Drum: https://www.thedrum.com/news/2022/12/05/us-ad-the-day-montefiore-einstein-shows-the-power-healing-and-the-holidays).

Anunciante: The Montefiore Medical Center (New York). Título: A Holiday Village Discovers That Caring Makes Magic. Agência: Alto/Brooklyn. Direção: Frederik Bond. Estados-Unidos, dezembro 2022.