Tag Archive | Antero de Quental

Abrigo

Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa…
E deixa-me sonhar a vida inteira!

(Antero de Quental)

Branda da Aveleira, 2003.
Verdi. La Traviata. Excerto.

e-ternamente

Michelangelo. Pietà. 1499. Pormenor.

NA MÃO DE DEUS

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despôjo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto…
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!

Antero de Quental. Os sonetos completos de Anthero de Quental. 1886.

Charles Trenet. Chanson d’automne. Poema de Verlaine. Ao vivo, 1968.

E deixa-me sonhar a vida inteira

Notre-Dame de Grasse, Musée des Augustins, séc. XV.

Notre-Dame de Grasse, Musée des Augustins, séc. XV.

Mais antiga do que a Pietá de Michelangelo, a Notre-Dame de Grasse é uma obra-prima da escultura medieval. Para a dizer, para falar com ela, só um poeta como Antero de Quental.

Notre-Dame de Grasse, Musée des Augustins, séc. XV. Pormenor.

Notre-Dame de Grasse, Musée des Augustins, séc. XV. Pormenor.

À Virgem Santíssima
Cheia de Graça, Mãe de Misericórdia

N’um sonho todo feito de incerteza,
De nocturna e indizível ansiedade,
É que eu vi teu olhar de piedade
E (mais que piedade) de tristeza…

Não era o vulgar brilho da beleza,
Nem o ardor banal da mocidade…
Era outra luz, era outra suavidade,
Que até nem sei se as há na natureza…

Um místico sofrer… uma ventura
Feita só do perdão, só da ternura
E da paz da nossa hora derradeira…

Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa…
E deixa-me sonhar a vida inteira!

Antero de Quental, Sonetos Completos, 1886

Notre-Dame de Grasse. Les Augustins, séc. XV. Pormenor.

Notre-Dame de Grasse. Les Augustins, séc. XV. Pormenor.

Vencidos da vida

Quem faz o simples, também é capaz de complicar. Os comportamentos e as feições dos animais deste anúncio produzido pela Albiñana Films espelham um desânimo encurralado. Estamos perante os novos “vencidos da vida”. De que sofrem? Do mal da cidade. Pelos vistos, o Audi Allroad V8 Quatro, também não. E as oportunidades, Senhor! As oportunidades! O maná contemporâneo dos desvalidos…

Marca: Audi Allroad. Título: Zoo. Agência: DDB Barcelona. Direção: Ramses. Produção: Albiñana Films. Espanha, 2004.

Uma vez que convoquei os “vencidos da vida”, gostava de lhes gritar, à distância de mais de um século, que a realidade não vence as ideologias. Mas o mais avisado é calar-me: a realidade não vence as ideologias, mas a vida, talvez…

Vencidos da vida. Da esquerda para a direita. De pé: Conde de Sabugosa, Carlos de Lima Mayer, Carlos Lobo de Ávila, Oliveira Martins, Luís de Soveral, Guerra Junqueiro, Conde de Arnoso. Sentados: Ramalho Ortigão, Eça de Queiroz, Conde de Ficalho e António Cândido.