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Ninguém é normal.

01. Nobody is normal. 2020.

A normalidade não existe. Apenas desvios à norma. Na literatura, abundam figuras de monstros que são bons e de bons que são monstros. Por exemplo, a Bela e o Monstro, de Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve (1745), Quasímodo, de Victor Hugo (1831) ou Dorian Gray, de Oscar Wilde (1890). No anúncio Nobody is normal, da britânica Childline  –  NSPCC (Sociedade Nacional para a Prevenção da Crueldade contra Crianças), todos são anormais por dentro e por fora.

02 Fonte de Diana de Éfeso. Tivoli. Villa d’Este

A metamorfose da figura feminina galardoada (ver figura 1) lembra, os justos que me perdoem, uma deusa grega, Ártemis, ou romana, Diana, na versão dita de Éfeso. “Bolsas” cobrem-lhe o peito (ver figuras 2 a 7). Há entendidos que alvitram seios, outros ovos ou testículos de touro. Sempre atributos de fertilidade, apanágio da “mãe natureza”. Entre as imagens de Ártemis de Éfeso, retenho a escultura no jardim da Villa D’Este, um colossal palácio maneirista construído no século XVI, em Tivoli, perto de Roma. As fontes de Villa d’Este são famosas (figuras 8 a 17). Os jatos de água provenientes das “bolsas” de Diana de Éfeso não enganam. Parecem seios, uma abundância de seios! Estes esguichos não são de ovos, nem de testículos de touro. Acode-me, que os justíssimos me perdoem, a lactação de São Bernardo (ver https://tendimag.com/2012/10/26/um-abraco-a-divindade-sao-bernardo-de-claraval/).

Anunciante: Nspcc. Título: Nobody is normal. Agência: The Gate. Direcção: Catherine Prowse. Reino Unido, Novembro 2020.

Galeria de imagens 1: Esculturas de Ártemis/Diana de Éfeso.

Galeria de imagens 2: Fontes da Villa d’Este, em Tivoli.

De monstro e de louco, todos temos um pouco

Sneagle

Gollum

    Existe um carácter específico na teratosfera moderna. Os novos monstros, longe de se adaptarem a quaisquer homologações das categorias de valor, suspendem-nas, anulam-nas, neutralizam-nas. Apresentam-se como formas que não se consolidam em qualquer ponto do esquema, que não se estabilizam. São, portanto, formas que não têm propriamente uma forma, andam antes à procura de uma” (Omar Calabrese, A Idade Neobarroca, primeira edição: 1987).

O anormal fascina o normal. Quasimodo, Frankenstein e o Homem Elefante são exemplos de uma anormalidade cativante que remonta, aliás, às calendas gregas. Na actualidade, a relação homem máquina abre a porta a um “novo” bestiário (ver Albertino Gonçalves, O Delírio da Disformidade. O corpo no imaginário grotesco.pdf). Dantes, incomodava-me a exposição de aberrações nos encontros científicos, nos circos e nas feiras. Negócio, espectáculo e público deploráveis. Entretanto, reconsiderei: sem monstros, o mundo fica deserto. Todos abrigamos um Alien, um RoboCop, um Hulk, uma Fiona, um Yoda, uma Catwoman, um E.T., um Doctor Mabuse, uma feiticeira, um Hynkel, um Gollum ou outra Coisa qualquer.

Ambuja Cement aposta no excesso para significar, com humor, a resistência do respectivo cimento. O protagonista do anúncio, Khali, é mais alto e mais forte do que seria de esperar. Vive inadaptado. Não há casa, parede ou soalho que o aguente. Um desastre! Um dia muda para uma casa construída com Ambuja Cement. A casa é agora mais forte do que o residente. E Khali passa a ter dores de cabeça. A publicidade indiana tem uma imaginação fértil.

Marca: Ambuja Cement. Título: Khali. Agência: Publicis Mumbai. Direcção: Ayappa. Índia, Outubro 2015.