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O tempo e a amizade que restam

Bruxelas. Fevereiro 2001

Seis e seis… Mais jovem do que há seis anos. Pelo menos, parece que assim pareço. Que o diga Bérénice! Mas o que conta são as sobras e os restos. Sobretudo, o tempo que resta. Agradeço a todos a gentil lembrança. É “uma pequena ajuda amiga”!

Serge Reggiani – Le temps qui reste. Autour de Serge Regianni, 2002
Joe Cocker – With A Little Help From My Friends (cover). With A Little Help From My Friends, 1968.

Leveza sobre rodas

70 ans de légèreté é um anúncio de sonho, acelerado e vertiginoso, com recurso inspirado à banda desenhada. Condiz com o país, a França, e com a marca, a Alpine, um ícone do mundo automóvel que completa 70 anos de existência. [Artigo sugerido: A civilização da leveza].

Marca: Alpine. Título: 70 ans de légèreté. Agência: BETC Etoile rouge. Direção: Antoine BARDOU-JACQUET. França, junho 2025

Caducidade: a contagem das folhas

“Mover-se como uma folha morta caída da árvore que o vento leva, sem se saber se é o vento que nos leva ou se somos nós que transportamos o vento…” (Michel Jourdan). As folhas despedem-se dos ramos que bradam aos céus, para visitar a terra e as raízes de onde beberam a seiva. As folhas soltam-se avulsas, discretas e anónimas. Mas certos dias, fetichistas, teimamos em contá-las. São dias especiais comemorativos da caducidade. Pois contemos mas por ordem decrescente. Ousemos adolescentar perdidamente, bolinar contra o vento como as caravelas.

Encantados pelas folhas suspensas nas águas cristalinas de M.C. Escher (Three Worlds, 1955), resgatemos três vultos clássicos da floresta musical: Nat King Cole (Autumn Leaves; Unforgettable; e Smile), Emilio Cao (Cain as Follas) e Yves Montand (Les Feuilles Mortes, a versão original, francesa, de Autumn Leaves).

Nat King Cole. Autumn Leaves. 1955
Nat King Cole. Unforgettable. 1951
Nat King Cole. Smile. 1954
Emilio Cao. Cain as follas. Amiga Alba E Delgada. 1992
Yves Montand. Les Feuilles Mortes. Yves Montand à l’Olympia. 1981

Embarque

Há precisamente um ano, na margem, o corpo à frente e a alma atrás, fui salvo por uma neurologista. Se estou neste mundo, devo-o a duas mulheres.

  • Diabo                À barca! À barca! andem já
  •                            que temos mansa maré!
  •                            Podem manobrar de ré!
  • Companheiro  Assim mesmo como está!
  • Diabo                Corre ali, seu Coisa-má
  •                            e acerta aquele atravanco
  •                            deixando livre esse banco
  •                            para a gente que virá
  •                            À barca! À barca! Seu nabo,
  •                            pois logo queremos ir!
  •                            Já é tempo de partir,
  •                            com louvores ao Diabo!
  •                            E puxa bem esse cabo,
  •                            põe logo o convés a jeito!
  • Companheiro  Será logo tudo feito!
  • (Gil Vicente, Auto da Barca do Inferno, SWAI-SP editora, 2015)
Carl Orff. Carmina Burana. Reie. 1935-1936. Munich String and Percussion Orchestra. Madrigal Choir Munich. Conductor: Adel Shalaby.
Manuel de Falla. Siete canciones populares españolas. Nana. 1914. Violoncelo: Brinton Averil Smith. Piano: Evelyn Chen. Rice University’s Shepherd School of Music. 2011.

Mais um dia, mais um ano

“Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés.

Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá- las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso” (Walter Benjamin, Teses sobre o conceito da história, 1940, tese 9).

Galeria: Devolução de grifo à natureza em Castro Laboreiro em março de 2022.

A exemplo do anjo de Paul Klee (figura 1), continuo a avançar com os olhos postos no passado. Mas, que me lembre, nunca antes abracei as ruínas com tanta ternura nem o futuro com tanta abertura. E, à semelhança do grifo devolvido à natureza em Castro Laboreiro (figuras 2 a 4), sinto-me cada vez mais devolvido à sociedade. Como um tronco de que irrompem portas e janelas (Figura 5). Não me lembro de receber tantos mimos e parabéns eletrónicos. A todos estou grato por este momento de confraternização.

Anabela Garelha e Salda Silva. Reutiliz’Art. Lamas de Mouro.

A um filho emigrante

João e Fernando no rio Minho.

“O que o pai calou aparece na boca do filho, e muitas vezes descobri que o filho era o segredo revelado do pai” (Friedrich Nietzsche, Humano, Demasiado Humano, 1878).

“O Filho de Deus tornou-se homem para possibilitar que os homens se tornem filhos de Deus” (C.S. Lewis, Mere Christianity, 1952).

Passaram trinta e um anos, toda e metade de uma vida. A primavera e o outono. Revejo-me como num espelho maior e melhor, com invulgar determinação em crer, querer, arriscar e criar. Quem tem a bênção de um filho não precisa renascer, simplesmente congratular-se e agradecer.

Como lembrança, acrescento, sem surpresa, quatro músicas. É o bem mais disponível, pessoal e rápido para enviar para a Holanda. Podem não entusiasmar de imediato, mas estou convencido que pertencem àquelas que se prestam a que as interrompamos a meio para voltar a escutá-las com outros ouvidos. Possuem a virtude de nos sintonizar à distância. Formam dois pares: um, “primaveril”, que abre com um bailado de Pina Bausch, o outro, “outonal”. Duas músicas para adormecer a Sara, outras tantas para a acordar.

João e Sara

Ígor Stravinski. A Sagração da Primavera. Parte 2 – O Sacrifício (Introdução). Estreia: 1913 (versão de 1947). Coreografia Pina Bausch. Artista: Pierre Boulez. Das TantzTheater Wuppertal. The Cleveland Orchestra.
Edvard Grieg. To Spring. Lyric Pieces Book III, Op. 43, nº 6. Wonderland.1886. Intérprete: Alice Sara Ott.
Scott Joplin. Maple Leaf Rag. 1899. Piano: Dario Ronch.
Fanny Mendelssohn (1799 – 1847; irmã de Felix Mendelssohn). “November”, The Year, cycle for piano (H. 385), 1841. Intérprete: Jae Hee Min.

Aniversário com corda partida

Corda partida. Hans Holbein. The Ambassadors. 1533. Detalhe. Ver: Objectos que falam.

A uma ex-aluna de doutoramento

Hoje, acordei incompleto.

Gaetano Donizetti Sonata for flute and harp (originally for violin and harp). Larghetto e Allegro. Flauta: Flute: Sonat Sozer. Harpa: Gizem Aksoy. 2017.

Uma das suas músicas:

Julien Doré. Le Lac. &. 2016. Vídeo oficial.
Albertino Gonçalves. Sociologia sem palavras 26. Música e comunicação não verbal. 13 de janeiro de 2018.

Um anjo sem repouso

Roberto Chichorro. Detalhe.

Ela é ela, a mulher, um anjo livre que voa sem repouso, ano após ano.

Para brindar, uma canção inesquecível, na versão mais célebre, de Elvis Costello (She, Notting Hill, 1999), e na versão original, de Charles Aznavour (Tous les visages de l’amour, tradução em francês de She, Seven faces of woman, 1974).

Elvis Costello. She. Notting Hill. 1999.
Charles Aznavour. Tous les visages de l’amour. Trad. francesa de Charles Aznavour, She, Seven faces of woman, 1974.

Fatiar a vida

Mordillo,

Fatiar a vida ano após ano até oxidar o tempo. Sobram, afortunadamente, momentos. Ínfimos, infinitos, pessoais. Feliz aniversário!

Aidan Gibbons: The Piano. Música de Yann Tiersen.
Yves Montand. Les feuilles mortes. 1949 ou 1950. Ao vivo no Olympia. 1981.

Aniversário

Juan Miró. Dancer. 1925.

O meu rapaz mais novo faz anos. Não sei que lhe dizer. Todos fazemos anos: uns mais devagar, outros mais depressa. A música pode calar o silêncio. Canções que gosto e ele não. Por acréscimo em francês. Mas dizem o que quero dizer, sem falar.

Grégoire. Mon enfant. Le même soleil. 2010.
Grégoire. Mon repère. Le même soleil. 2010.