Jejum guloso
Não faltam fatores de desigualdade. Alguns beneficiam de uma enorme visibilidade: o género, a raça… Outros, não sendo menores, permanecem discretos: de idade, de língua… Não tenho, contudo, memória de hegemonia tão aceite, entranhada e global como, atualmente, a da língua inglesa.

Como as demais, a hegemonia do inglês é solar. Conforme o lado, ofusca ou ensombrece. Jejuar resume-se a um gesto simbólico. Óculos escuros não apagam o sol, ainda menos uma peneira. Mas propicia-se mais do que dar luz à luz.
Christoph Weidiz. Dança mourisca.1530
O simbólico não é inócuo. Interfere na nossa visão do mundo, logo no nosso modo de (re)agir. Jejuar pode contribuir para rasgar horizontes e “dar novos mundos ao mundo”, torná-lo mais rico, complexo e diversificado. Dispensar o que nos enfarta pode revelar-se salutar e, até, estimular a gula. As sombras ganham vida e entregam-se a ritmos, sonoridades e coreografias admiráveis. Acomete-nos a vertigem da descoberta e vacila ligeiramente a dominação que nos submete.

A música é outra. O ar assobia pelas frinchas das janelas e o sobrado range novos ritmos. E noite dentro, em regime lunar, espelham-se nos vidros os nossos próprios fantasmas. Ressoam outras línguas, de uma estranheza que ressoa familiar. Por exemplo, o sefardita, mas também o mourisco e o luso-árabe.

Acontece-nos visitar poesias e canções cuja origem nem sonhamos: o “Belo Manto”, de José Peixoto e Sofia Vitória; a “Hortelã Mourisca”, de Amália Rodrigues; “O Pastor”, dos Madredeus…
E surpreendemo-nos a cismar: como nos empobrece a riqueza que nos dão!
A sentinela do espírito



Ao primo
“A memória é a sentinela do espírito” (William Shakespeare. Macbeth. 1605)
O meu avô e o meu padrinho costumavam trautear a canção Só a Noitinha (Saudades de ti), da Amália Rodrigues, quando jogavam as cartas, mormente à lerpa, nas traseiras do café. Repisavam os versos “bendita a hora em que o esqueci por ser ingrato e deitei fora as cinzas do seu retrato”, em modo de disco riscado. Fazia parte do jogo psicológico. Era uma cartada. “A cantiga é uma arma de pontaria”, já repetia José Mário Branco (ver Maçã electrónica. A publicidade é uma arma). O que não obstava que o avô, mais hábil na arte de cantar do que de enganar, perdesse quase sempre.
Capas negras
Por falar em Capas Negras (filme português de 1947): Amália Rodrigues e Alberto Ribeiro.
Morrinha

Em Moledo, sinto-me galego. Quando a chuva é miudinha, há quem lhe chame morrinha. Na Galiza, a morriña é um sentimento de melancolia com enxerto de saudade. Seguem dois cantos a Galiza distintos: Romeiro Ao Lonxe, dos Luar Na Lubre, e Un Canto a Galicia, de Júlio Iglesias, ao vivo com Amália Rodrigues.
O mundo na mão (extended version)

“Sopra, sopra, vento hibernal, não és tão desapiedado quanto a humana ingratidão” (William Shakespeare. Como vos agradar. 1623).
“ Bendita a hora que o esqueci por ser ingrato / E deitei fora as cinzas do seu retrato” (Amália Rodrigues: Só à noitinha).
Discriminação, exclusão, dominação, exploração são flagelos da humanidade. Preocupo-me, sobretudo, com a injustiça. Não poupa vivos nem mortos. “Personally, I can’t believe she’s not more well-known than she is” (https://www.youtube.com/watch?v=GOk2M6C9dck).

Estamos a falar de Odetta (1930-2008), compositora, cantora e activista social norte-americana. Talentosa, original e influente. No início dos anos setenta, cantou com Amália Rodrigues, Joan Baez e Maria Carta no Teatro Sistina, em Roma. He´s got the whole world in his hand (1957) foi uma das canções interpretadas. Acrescento duas: Hit or Miss (1970) e Another Man Done Gone (1956).
Ao original, o público preferiu o cover. Acontece! O Tendências do Imaginário sonha despertar a memória adormecida. Por um mundo maior.
Não resisto a recolocar dois anúncios com músicas de Odetta.
Perguntar não ofende

“O Tango é uma tradição que se desloca. Este estado deslocado diferencia-o dos folclores fazendo dele uma cultura de viagem. Viagem dos imigrantes que escrevem o seu próprio romance, passo a passo, na cidade de Buenos Aires. Este romance é um livro aberto à estrutura destroçada. Mesmo nesta cidade, os Argentinos vivem como gente de viagem. Com um instrumento sob o braço ou uma melodia assobiada no canto dos lábios, eles põem em prática a teoria da viagem” (Nathalie Clouet : http://francoisheim.com/arpaban-tango.html).
Passar, mentalmente, pelo Rio da Prata comporta riscos. Por exemplo, o risco de conjeturar. Se “perguntar não ofende”, permito-me perguntar: se o tango canta as pessoas que se deslocam, que viajam, o fado quem canta e o que canta? A viagem dos que ficam?
Música “tradicional” portuguesa
Em período de férias, aumentam as festas e diminuem as visualizações portuguesas do Tendências do Imaginário . Não ultrapassam os 17%. A minha praia anda demasiado ruidosa. Anteontem, os metal, ontem, os indie, hoje os tecno. Apetecem-me outras músicas. Dedico este ramalhete de músicas “tradicionais” portuguesas aos visitantes dos demais países. A selecção é arbitrária, incompleta e a meu gosto. Procura dar uma ideia da riqueza e da diversidade da música portuguesa.
Amália Rodrigues. Malhão.
Mariza. Barco Negro. Ao vivo na Sydney Opera House. 2006. Música original brasileira.
Dulce Pontes. Canção do mar. Lágrimas. 1993.
José Afonso. Milho verde. Cantigas de Maio. 1971.
Raízes. Boiada. Música tradicional portuguesa. 1982.
Brigada Victor Jara. Vira de Coimbra. Tamborileiro. 1979.
Brigada Victor Jara. Se fores ao São João. Tamborileiro. 1979.
Brigada Victor Jara. Pézinho da Vila. Eito Fora. 1977.
Brigada Victor Jara. Ao romper da bela aurora. Eito Fora. 1977.
Júlio Pereira. Vira velho. Braguesa. 1983.
Tantas maneiras de dizer que te amo
Comunicar o amor não é uma arte, é a arte. O anúncio Label of Love, da marca Monoprix, é de uma simplicidade e de uma eloquência raras.
Marca: Monoprix. Título: Label of Love. Agência: Rosapark Paris. França, Maio 2017.
Querendo a memória, o mundo é grande. Há muitas canções que dizem o amor. Entre as mais célebres constam I Just Called To Say I Love You, do Stevie Wonder, ou Hello, de Lionel Richie. Sou latino. Gosto de ser latino. Tenho ouvidos para outras músicas. Por exemplo, Te Voglio Bene Assai, uma canção de 1839, atribuída a Raffaele Sacco, na interpretação de Lucio Dalla.
Lucio Dalla. Te Voglio bene assai. Canção original: 1839.
Ou Aranjuez, Mon Amour, com música de Rodrigo, escrita por Richard Anthony e interpretada por Amália Rodrigues.
Amália Rodrigues. Aranjuez, mon amour. 1968.
Ou Te Quiero, Te Quiero, de Nino Bravo, um famoso cantor espanhol vítima de um acidente de viação em 1973, com 28 anos.
Nino Bravo. Te Quiero, Te Quiero, álbum Te Quiero Te Quiero, 1970.
A idade das máscaras
O anúncio português Camané, da Mansarda, apresenta-se escorreito no seu preto e branco sóbrio. Um pouco enigmático na sua economia de gestos e palavras. Informei-me. Enigmático continuou. Pois que fique enigmático que não é coisa ruim.
“A MANSARDA pretende ajudar os profissionais que estão ou estiveram, durante uma parte significativa da sua vida profissional, ligados de forma principal ao mundo da língua, da arte e da cultura portuguesas e especialmente às artes performativas” (http://mansarda.pt/missao/).
“O spot da MANSARDA, que começará a ser divulgado ainda em Dezembro, pretende chamar a atenção para a necessidade de cuidar e valorizar os artistas nacionais, não apenas no auge das suas carreiras mas ao longo da sua vida (http://mansarda.pt/004garage/)”.
“A velhice não se mascara” (mote da campanha).
Cliente: Mansarda. Título: Camané. Agência: 004. Produção: Garage. Direcção: Ernesto Bacalhau. Portugal, Janeiro 2017.
Quando me sinto enigmado, gosto de ouvir o Rodrigo Leão, mesmo cantado em francês. O que é raro no País: nem compositores, nem interpretes. Acode-me a Amália. Muito cantou em francês e em França. Canções portuguesas e francesas. Seguem três canções: Um clássico da canção francesa, La vie en rose (1960); uma composição espanhola, cantada por uma portuguesa em francês, Aranjuez, mon amour (1967); e um fado em francês, Aïe Mourir pour toi (1960).
Rodrigo Leão. Jeux d’amour. Álbum Cinema. 2004.
Amália Rodrigues. La vie en rose. 1960.
Amália Rodrigues, Aranjuez, mon amour. 1967.
Amália Rodrigues. Aïe Mourir pour toi. 1960.

