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É a escala, estúpido!

Reparei hoje, não me lembra onde (Facebook, e-mail ou jornal), que está aberto o sétimo concurso do Programa Promove, destinado à dinamização das regiões do interior de Portugal, lançado pela Fundação “la Caixa” em parceria com a Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Passo a transcrever:

Objetivos
O Programa Promove tem por objetivo apoiar iniciativas inovadoras em domínios estratégicos para o desenvolvimento das regiões do interior com dinâmicas fronteiriças e que sejam replicáveis para outras regiões com características semelhantes.
A edição 2025 apoia três tipos de iniciativas:
Projetos-piloto inovadores;
Projetos de I&D mobilizadores;
Ideias com potencial para se tornarem projetos-piloto inovadores. (…)
Áreas geográficas
O presente Programa está aberto a entidades que pretendam desenvolver projetos apoiados localizados nas áreas geográficas seguintes:
Norte: municípios das NUTS III Alto Tâmega, Terras de Trás-os-Montes e Douro.
Centro: municípios das NUTS III Beiras e Serra da Estrela, e Beira Baixa.
Sul: municípios das NUTS III Alto Alentejo, Alentejo Central e Baixo Alentejo, e ainda municípios de Alcoutim, Castro Marim e Monchique, bem como as freguesias de São Marques da Serra do município de Silves, Alte, Ameixial, Salir e Querença / Benfim / Tôr do município de Loulé, e Cachopo e Santa Catarina de Fonte do Bispo do município de Tavira, da NUTS III Algarve.
Mapa [pdf]

Observando o mapa, não consigo evitar a uma pergunta:

Que motivos, substantivos, justificam que municípios como Chaves, Lamego, Vila Real, Bragança, Mirandela e Miranda do Douro se possam candidatar ao contrário de outros como Paredes de Coura, Ponte da Barca, Terras de Bouro, Cabeceiras de Basto, Mondim de Basto ou Vieira do Minho? No primeiro grupo, o rendimento bruto declarado médio por sujeito passivo era, em 2022, superior a 11400 euros; no segundo, inferior a 9600 (ver mapa 1 e tabela 1).

Mapa 1: Valor mediano do rendimento bruto declarado por agregado fiscal. Municípios. 2022

Fonte: Estatísticas do rendimento ao nível local – 2022. INE, 2024

Não consegui aceder a nenhum índice sintético de desenvolvimento desagregado por municípios. Recorro, como complemento, ao índice de envelhecimento, habitualmente associado às realidades, tendências e dificuldades da interioridade. Na tabela 1, não se observam diferenças significativas entre os municípios dos grupos acima referidos.

Poderia convocar outras variáveis, de índole económica, demográfica ou sociológica, mas não desejo demorar-me sobre o assunto. Não é água que me mova o moinho.

Então? Então, o busílis pode residir na escala e na demarcação. Já antes de Galileu se sabia que consoante a escala muda a realidade e Pierre Bourdieu enfatizou que dividir era decidir e dominar. Em suma, o território, com a exceção do Algarve, foi repartido por NUTS 3 e não por municípios.

Em Portugal, existem NUTS 3 que são mais heterogéneas dentro de si do que entre si. No Alto Minho, no Cávado e no Ave são enormes as disparidades entre os municípios do litoral e dos vales e os municípios do interior e de montanha. Por outro lado, não é menosprezável a proximidade destes últimos com, por exemplo, o Alto Tâmega e o Barroso e dos primeiros com a Área Metropolitana do Porto. A divisão por NUTS 3 tem destas artes!

Mapa 2: Índices de envelhecimento. Municípios. 2023

Fonte: PORDATA/INE

O problema da escala cruza-se com o da demarcação, da di-visão do território. Como se pode comprovar nos mapas 1 e 2, no Norte, a linha de clivagem ou a transição, entre o litoral e o interior não coincidem com as fronteiras entre as NUTS 3, por exemplo, do Alto Minho e do Cávado, por um lado, e, por outro, do Alto Tâmega e Barroso. Desenham-se, antes, no próprio seio das NUTS 3 do Alto Minho e do Cávado.

No Noroeste de Portugal, a divisão por NUTS 3 pouco se afasta da distribuição por distritos. A NUT 3 do Alto Minho corresponde ao distrito de Viana do Castelo e as NUTS 3 do Cávado e do Ave, com a ressalva da troca entre Mondim e Celorico de Basto, correspondem ao distrito de Braga. Formalizada há quase dois séculos, em 1835, a divisão do território nacional por distritos constitui uma relíquia do património histórico, ver arqueológico. Em princípio, nada a obstar. Uma unidade administrativa não precisa ser homogénea. Convém, todavia, precaver que, como diria Karl Marx, “o morto não se apodere do vivo”.

A adoção de um ponto de vista parcial, tendencioso, costuma tornar a leitura mais fácil, mas menos lúcida. Importa fazer um esforço de descentramento no sentido de partilhar o outro lado da questão.

Qualquer divisão do território nacional tem que adotar uma escala ou engenhar uma partição que coteje, cole, várias. Para o objetivo do referido concurso/programa (“o desenvolvimento das regiões do interior), a repartição por NUTS 3 não é de desconsiderar, antes pelo contrário. Resulta mais fina do que por NUTS 2. Por seu turno, a desagregação por municípios, além da difícil construção, complicaria a cartografia complicada e comprometeria a operacionalidade. Acresce que o principal argumento esgrimido contra a divisão por NUTS 3, a heterogeneidade interna, também vale para os municípios, com assimetrias internas apreciáveis, por exemplo, entre freguesias da montanha e do vale ou urbanas e rurais.

Nesta ótica, o que pode suscitar reservas? A ponderação da inclusão/exclusão de determinadas NUTS 3 e e a estranheza de não se ter feito para o Minho o que se fez para o Algarve.

Sobra, mesmo assim, a impressão de que, sem ofensa, no caso de alguns municípios, “andam os rotos a ver passar os esfarrapados”. Particularizando, os municípios do arco interior do Minho [ ver pdf anexo: As gentes do Minho] debatem-se, nesta como noutras iniciativas e circunstâncias, com uma situação desconfortável de “duplo vínculo”: “presos [excluídos] por ter cão e presos [excluídos] por não ter”.

Incomoda-me ter desperdiçado algum tempo com este arrazoado. Nada ganho pessoalmente, a não ser mais uma inconveniência. Aliás, até perco: ao fazer download de um pdf, avariei uma pen, por sinal, com muita informação exclusiva.

Vindima

Melgaço. Rotunda das Vindimas

“As mulheres cortavam, as crianças despejavam as cestas cheias, os homens erguiam sobre as trouxas os vindimeiros, e o som cavo do bombo ia abafando pelas valeiras fora o repenicado do harmónio e o tlintlim dos ferrinhos. O sol erguera-se já congestionado, e mordia a pele como um sinapismo. Suava tudo. E quem não tinha as molas dos rins bem oleadas, ou se via pela primeira vez ajoujado com quatro arrobas às costas, vivia a eternidade num segundo” Miguel Torga, Vindima, 1945).

Faz precisamente quarenta anos, em junho de 1982, que defendi na Sorbonne as provas de mestrado (DEA) em Antropologia Social e Cultural, com uma dissertação intitulada Voyages à l’intérieur de l’économie rurale (Panorama des clivages d’avant 1970), parcialmente reproduzida no artigo “O Campesinato entre o diabo e o bom Deus: Panorama de algumas clivagens configuradoras da economia agrária”, na revista Cadernos do Noroeste, Vol. 8 (1), 1995, 113-144. Defendi, também, o projeto para doutoramento La viticulture en Alto Minho: Agriculture et développement régional. Quem diria! Foram membros do júri, para além do meu orientador, Robert Cresswell, Louis-Vincent Thomas e Michel Maffesoli. Identificava-me, na altura, como sociólogo rural. E nos concelhos de Melgaço e Monção as marcas de alvarinho contavam-se pelos dedos das mãos. Se a memória não me engana: Palácio da Brejoeira, Cepa Velha, Deu-La-Deu, Soalheiro, Dona Paterna e pouco mais. Sempre gostei de farejar o futuro no presente, aventurando-me por florestas relativamente virgens.

Três meses depois, em Setembro de 1982, ingressei como docente na Universidade do Minho. Regressei ao País e a minha vida, os meus horizontes e as minhas prioridades mudaram substantivamente. A “especialidade” deslocou-se da sociologia rural para a sociologia dos estilos de vida e o tema de investigação desviou-se da inserção do camponês no mercado para a condição do emigrante na sociedade de origem (ver “O Presente Ausente: O Emigrante na Sociedade de Origem”, Cadernos do Noroeste, vol. I – nº1, 1987, pp. 7-30; e “O Presente Ausente II: A Sociedade de Origem face ao Emigrante”, Cadernos do Noroeste, vol.II/2-3, 1989, pp. 125-153). Em suma, concebi dois projectos para doutoramento: um primeiro, na Sorbonne, que acabou reciclado e um segundo, na Universidade do Minho, conduzido a bom termo (ver Imagens e Clivagens: os residentes face aos emigrantes, Porto, Afrontamento, 1996).

A cópia do primeiro projecto de doutoramento encontra-se num estado deplorável. Decidi digitalizá-la antes que ficasse ilegível. Passo a guardá-la no Tendências do Imaginário, meu armazém actual. Trata-se de um resquício arqueológico de um percurso pautado por desvios, pausas, rupturas e recomeços, que se oferece como exemplo de um projecto trabalhoso, devidamente defendido e posteriormente abortado. Em suma, uma colheita velha de uma cepa nova.

Seguem, em pdf o projecto de doutoramento La viticulture en Alto Minho: Agriculture et développement régional (1982), assim como o artigo “O Campesinato entre o diabo e o bom Deus: Panorama de algumas clivagens configuradoras da economia agrária” (1987). Acresce a reportagem “O minhoto Gosta é de Festa” e é assim que nasce o vinho alvarinho, da TVI24, publicada no dia 2 de Outubro de 2021. Carregar na imagem seguinte para aceder ao vídeo.

Cacho de uvas de casta alvarinho

Mulheres da Raia: O Contrabando no feminino

Mulheres da Raia 2 jpg

Tenho um carinho especial pelo documentário Mulleres da Raia. Revela uma sensibilidade humana e estética rara. Tem sequências que são autênticas pérolas. Por exemplo, quando a mulher da imagem seguinte conta o motivo por que aprendeu a ler. Uma investigação social com câmara de filmar e mulheres de ambos os lados. Tive a honra de apresentar Mulleres da Raia em Monção e Melgaço. Recentemente, moderei uma mesa redonda com quatro mulheres que integram o documentário. Um momento feliz! Recomendo vivamente este documentário. No que me respeita, vou revê-lo com interesse e prazer no dia 9 de Abril, às 19 horas, no Auditório do Instituto de Educação, com a presença da realizadora Diana Gonçalves. Uma iniciativa do curso de mestrado em Comunicação, Arte e Cultura.

Mulleres da Raia - Women from the border. Film still III. Por Diana Gonçalves.

Mulleres da Raia – Women from the border. Film still III. Por Diana Gonçalves.