Fruta

Ontem, segunda, dia 22 de maio, foi alterada a data, para as 18 horas de sábado, dia 27, dos próximos encontros de futebol do S.L. Benfica e do F.C. Porto. Está em jogo a conquista, e a celebração, do título. Como é possível que uma decisão que interfere expressivamente na atividade de um País seja tomada de segunda para sábado? Os maneiristas afinal estavam certos: a razão, a estabilidade e a previsibilidade valem pouco; a vida depende do destino, do acaso, do último lançamento de dados.

A conversa sobre o surrealismo e o maneirismo começa, precisamente, no mesmo dia apenas uma hora antes. A divulgação foi iniciada na quinta-feira passada. Até então não teria custado antecipar o encontro uma hora, para as 16:00. Perde-se a vontade de projetar e promover o que quer que seja. Para compensar, o público, embora provavelmente mais reduzido, será, por filtragem, cinco estrelas.
Imagem: Giuseppe Arcimboldo, Cabeça reversível com cesta de frutas , 1590
Num país retangular que não cuida de se cuidar, o mais avisado é desviar a atenção. Por exemplo, para o rio, o mar, a brisa, as nuvens, as sereias, as amazonas e as musas. E fruta, muita fruta! Maçãs, melancias, maracujás. Com a espanhola Sandra Bernardo.
Ésquilo, o abutre e a tartaruga


Ando absorvido, acelerado e fragmentado. Excessivo na recuperação do tempo perdido, sinto-me a ultrapassar o ponto previsto pelo princípio de Peter. Quinta, 15, entrevista aos Porto Canal sobre os Farrangalheiros de Castro Laboreiro; sábado, 18, a conferência “Vestir os Nus”, no Museu D. Diogo de Sousa; ontem, 24, arguição da dissertação, excelente, de Sílvio Messias dedicada à figura do palhaço; hoje e amanhã, últimos retoques no capítulo “Castro Laboreiro: Acessibilidade e migrações até aos anos 1930”; na próxima semana, duas atividades previstas no âmbito do Fórum Cidadania: Pela Erradicação da Pobreza (BRAGA) de que sou membro; na quinta, 2 de março, gravação de entrevista sobre o nu na sociedade atual para o programa da A Voz do Cidadão, da RTP, a emitir sábado, 4 de março, às 14 horas; no sábado, de manhã, às 10 horas, aula “A arte do restauro: Alcance e dilemas”, no mosteiro de Tibães (ver programa anexo).

Mais tartarugas me vão cair, certamente, na cabeça. Poucas folgas para o Tendências do Imaginário e o Margens. A agenda lembra demasiado o ritmo e as variações de algumas composições espanholas. Sem a formosura das intérpretes Ana Vidovic e Alexandra Whittingham. Não me resta outra solução senão abrandar e fazer escolhas. Como se costuma dizer, já não tenho estofo nem pedalada para tanto.
A propósito da “queda de tartarugas na careca”, Jean-Martin Rabot, uma autêntica enciclopédia dos óbitos de celebridades, relata este derradeiro episódio de Ésquilo, completamente calvo, na ilha da Sicília.
Algumas aves quando pretendem quebrar um objeto duro, agarram-no, sobem alto e deixam-no cair. Um abutre pegou uma tartaruga e lançou-a contra o que lhe pareceu uma pedra a brilhar no solo. Era a cabeça de Ésquilo que caiu fulminado.

Dono do tempo?


“Agora não é mais dono do seu tempo?” Pergunta uma amiga. Na realidade, ando ocupado. Talvez para fugir do vazio, vou-me deixando ocupar. Os meus colegas e amigos também andam ocupados, mas com coisas importantes: meetings, calls, papers, media, projects, reports, classrooms, contracts, bureaucracies, protocols, platforms, virtualities, travels, budgets, referees, metrics, contests, prices, rankings, positions & propositions. As minhas ocupações resumem-se a minudências invisíveis: revejo e traduzo textos alheios, presto-me a ser organizador sombra ou suplente de última hora, preparo aulas e encontros na aldeia, entrego-me a investigações vadias, intermitentes e gratuitas, edito e reescrevo livros que nunca têm fim, cuido da saúde que bem precisa e convivo cada vez mais com os amigos. Vale-me isso e a música, minha musa e companhia. E insisto em pingar pensamentos e sentimentos neste blogue. É certo que, reformado, a maioria destas atividades, decididas ou aceites, são livres. Mas uma vez iniciadas deixam de o ser. Devoram recursos e tempo. Regressando à pergunta inicial: neste momento, sou menos dono do meu tempo, mas provisoriamente. Trata-se de uma perda a que não me resigno, que não sei se prefiro à riqueza de ter todo o tempo do mundo.
