O quinto cavaleiro do Apocalipse

Sábado, tenho uma comunicação em Coimbra sobre as danças da morte medievais e as imagens das embalagens de tabaco actuais. Percorri o ferro velho anti tabaco. Encontrei, entre outros, estes dois anúncios
Odeia alguém? Encoraje-o a fumar. Fumar mata! Aguente o fardo até que o fumo faça efeito. Qual é a moral?
Marca: The Anti Smoking Society. Título: Couple. Agência: Mountainview. Reino Unido, 2000.
Os fumadores caem aos molhos que nem tordos. Acidente? Predestinação? Justiça? Fumar mata. Avulso ou por atacado. Qual é a moral?
Marca: Smokenders. Título: Balcony. Agência: McCann Erickson Johannesburg. África do Sul, 2003.
Pecado mundial
“OMS declara salsichas e enchidos tão cancerígenos como o tabaco”, eis o título da notícia no jornal Expresso de 26.10.2015 (http://expresso.sapo.pt/dossies/diario/2015-10-26-OMS-declara-salsichas-e-enchidos-tao-cancerigenos-como-o-tabaco). “Segundo documento, 50 gramas de carne processada por dia, o equivalente a duas fatias de bacon, aumentam a chance de desenvolver câncer colorretal em 18%” (http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/10/151026_carne_cancer_oms_fn).
Vamos trocar a aparência dos números. Porque os números também falam!
“Existem 42 152 novos casos de cancro colo-rectal estimados em 2013 em França metropolitana (23 226 homens e 18 926 mulheres). A taxa de incidência, normalizada, em 2012 é igual a 38,4 por 100 000 homens e 23,7 por 100 000 mulheres” (http://www.e-cancer.fr/Professionnels-de-sante/Les-chiffres-du-cancer-en-France/Epidemiologie-des-cancers). Seja, 0,000384 e 0,000237, respetivamente. Aplicando o aumento de 18% ao exemplo francês, a incidência sobe, nos homens, de 0,000384 para 0,000453 e, nas mulheres, de 0,000237 para 0,000280. Uma diferença muito inferior a um para 10 000: 0,000069 e 0,000043. Espero não me ter enganado nas contas.
Nos nossos dias, grassa uma obsessão pela alimentação. Alimentação pela boca, pelos ouvidos e pelos olhos. Sais de fruto, para sempre! Certo é que tanto adoramos a alimentação como a tememos.
Ao nível do planeta, especialmente em África, o mais preocupante é a falta de alimentação. A fome. Segundo a FAO (The State of Food Insecurity in the World: http://www.fao.org/3/a-i4030e.pdf), em 2012-2014, havia 803 milhões de pessoas subnutridas, ou seja, 11,3% da população mundial.
Morram as salcichas, pim! Morram os enchidos, pum! Viva a música, pim, pam, pum! Ave Mundi, pam!
Dissonâncias
“Neste limbo de indefinição tudo é possível, em particular recompor e contrabandear realidades. Resultam, assim, procedimentos correntes a aproximação de entidades distantes (por exemplo, humanos com cabeças de animais) ou a deslocação de objectos de uma ordem de realidade para outra, proporcionando, deste modo, combinações ou cotejos insólitos” (Albertino Gonçalves, O Delírio da Disformidade. O corpo no imaginário grotesco.pdf).
As dissonâncias provocam riso ou medo. Às vezes, riso e medo. São aberrações. Para ilustrar o modo como a parte (uma peça não genuína) pode alterar o todo, a Land Rover recorre a uma campanha baseada em dissonâncias óbvias e breves: um leão a cantar de galo, um crocodilo a latir e uma águia a balir.
Marca: Land Rover. Título: Genuine Parts – Lion. Agência: Y&R Johannesburg. África do Sul, Junho 2015.
Marca: Land Rover. Título: Genuine Parts – Croc. Agência: Y&R Johannesburg. África do Sul, Junho 2015.
Marca: Land Rover. Título: Genuine Parts – Eagle. Agência: Y&R Johannesburg. África do Sul, Junho 2015.
Contratempo
Uma mãe com HIV positivo expõe, sem parar, o bebé às sensações do mundo envolvente. Enquanto é tempo. Presente a presente, bênção a bênção, soma stress e desespero.
“Thank you for watching our Orange Babies’ advert. There’s no reason for another baby to be born with HIV. With the right treatment, education and support the mother-to-child transmission of HIV rate is less than 1.7%. With your donation, Orange Babies can help more children experience the wonder of a very ordinary life. Orange Babies is a Dutch NGO that is dedicated to help pregnant women with HIV and their babies in Africa” (Orange Babies).
Anunciante: Orange Babies. Título: Borrowed Time. Agência: Quirk. Direcção: Cindy Lee. África do Sul, Março 2015.
Coro dos anjos
Este anúncio sul-africano da Cadbury foi concebido antes da expulsão do paraíso, enquanto Adão e Eva comiam a maçã. Não há som, nem imagem, que não seja abençoado.
Nas igrejas, existe um coro alto e, naturalmente, um coro baixo. Estes trigémeos cantam no coro do meio, o mais aconchegado e aprazível. Enquanto o chocolate circular, não param de cantar. Cadbury, uma tentação que se propaga de geração em geração.
O realizador deste anúncio é um caso sério no mundo da publicidade. Nascido na Namíbia, palpita-me pelo nome, Adrian de Sa Garces (ou Garcias), ter ascendência portuguesa. Relembro Aesthetics, um anúncio extraordinário que dirigiu em 2006 para a BMW.
Marca: Cadbury. Título: Triplets – Feel the joy. Agência: Ogilvy & Mather (Johannesburg). Direção: Adrian de Sa Garces. África do Sul, Setembro 2014.
Loiras sem malte
Todas as sociedades têm alvos predilectos de riso colectivo. Na nossa, as “loiras” funcionam como pára-raios da toxicidade humorística socialmente aceite. Estou à espera do primeiro anúncio censurado por atentar contra o bom nome das “loiras”. É só para rir! Mas o riso não é inócuo. “O riso é um prazer maligno” (Nietzsche). A única piada que não agride é aquela que se destina a outrem. Enfim, o riso não presta vassalagem à razão, o que deixa mais indefesas as vítimas. No limite, contra o riso não há argumentos. Entretanto, as “loiras” globalizaram-se. Tal como o galo de Barcelos. No fim do primeiro anúncio, surge um galo de Barcelos. O Nando’s foi fundado por um lusodescendente.
Seguem dois anúncios. A protagonista do primeiro é uma “loira” 54DD; do segundo, uma “loira” analfabeta funcional.
Marca:Nando’s. Título: Chips. Agência: Black River, Johannesburg. Direção: Cindy Lee. República da África do Sul, 2008. [Gravado em 18.08.2026]
A Bengala Branca
Fazer um anúncio é criá-lo. Não há outro modo. No Reconsider, da Ireland/Davenport, a atenção oscila entre os sítios e o visitante. De sensação em sensação, tece-se uma trama de prenúncios. A bengala branca é a chave final: o visitante é cego. Há tanto prazer para além do ver! Curiosamente, no anúncio, o som resume-se à música e à voz. Uns não vêem, outros não ouvem. “Avózinha, para que é esse silêncio tão grande? É para te ver melhor”. Naturalmente.
Anunciante: South African Tourism. Título: Reconsider. Agência: Ireland/Davenport, Johannesburg. Direcção: Dean Blumberg. República da África do Sul, Maio 2014.
Tenho bastante admiração pela agência Ireland/Davenport, da República da África do Sul. Produziu, em tempos, um dos mais belos anúncios da história da publicidade: Aesthetics. Vale a pena rever.
Anunciante: BMW. Título: Aesthetics. Agência: Ireland/Davenport, Johannesburg. Direcção: Adrian de Sa Garces. República da África do Sul, Novembro 2006.
Detalhes
Passamos parte da vida a habituar-nos: ao mundo, aos outros, a nós próprios. Passamos outra parte a desabituar-nos: do mundo, dos outros, de nós próprios. A memória gagueja, mas adquire importância. Aprendemos a fixar os detalhes. Por eles, se chega ao todo. Neste anúncio da Volkswagen, por entre tanta procura e tanta informação, sobressai um simples detalhe.
Marca: Volkswagen Golf. Título: Blind Man. Agência: Ogilvy & Mather. Direção: Greg Gray. República da África do Sul, 2007.





