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Imundície

Adriaen Brower. Youth Making a Face. 1632-1635

Tudo é passível de nos atrair. Até a porcaria. O mau gosto sabe-nos bem. Por exemplo, no carnaval ou nas anedotas. O anúncio Xmess, da Plenty, é um atropelo de imundícies. E o público ri, regala-se, à espera da porcaria que segue.

Adriaen Brower. O sentido do olfato (deveres paternos desagradáveis), c. 1631.

O baixo faz cócegas ao diafragma até à gargalhada. Não existe obra dedicada ao grotesco que não aborde esta tentação. Nada que resista à arte do papel higiénico. Salva-se, deslocada, a música Love Hurts, dos Nazareth.

Marca: Plenty. Título: Xmess. Agência: AMV BBDO (London). Direção: Steve Rogers. Reino Unido, Novembro 2020.

O cachimbo e o apagador de velas

Jan Steen. The Way you Hear it is the Way you Sing it (As the Old Sing, So Twitter the Young) c. 1665

O pessoal foi para Flandres. Detesto viajar. Fiquei como guardador de gatos e de sonhos. Tornou-se costume enviarem-me fotografias de obras de arte passíveis de me interessar. Por exemplo, esta pintura do neerlandês Jan Steen (1626-1679). À direita, um adulto coloca o cachimbo na boca de uma criança. Dados ao anacronismo, esta imagem choca-nos. Podemos, naturalmente, corrigir a arte e a realidade. Não era a primeira vez. Talvez, uma palhinha ou uma flauta fossem bons substitutos (ver Vestir os Nus: https://tendimag.com/2012/11/13/vestir-os-nus/).

O tabaco, fumado com cachimbo, é um tema recorrente na obra de Jan Steen. Retive cinco quadros (ver galeria). Quem observa estas pinturas fica com a impressão de uma associação do consumo de tabaco à ostentação e ao conforto. Na mesma época, outros artistas pintaram fumadores. Por exemplo, O Fumador (1635-36), de Joos van Craesbeeck, ou Os Fumadores (1637), de Adriaen Brouwer (figuras 6 e 7). Naquela época, fumar nem sempre compensava. Havia cidades, por exemplo, na Áustria e na Alemanha, que proibiam o consumo de tabaco, administrando penas severas (ver Antitabagismos. Uma nota histórica parcelar: https://tendimag.com/page/6/?s=tabaco).

Imaginemos! Por esse tempo, eclodiu o barroco, o pintor teórico, a pintura de segredo, os efeitos de ilusão e as anamorfoses. Neste contexto, como diria René Magritte, os cachimbos não são cachimbos. Os cachimbos de Jan Steen, Joos van Craesbeeck e Adriaen Brouwer são apagadores de velas. Isso mesmo! Não há nada como imaginar a realidade, para sossegar as almas.