O naufrágio da modernidade

BBK. Bihar. 2022

Nada como uma boa ideia, de preferência simples e com impacto. Muito impacto. Mesmo que seja num ventre mole. Muito mole. A iniciativa Bihar, uma escultura hiper-realista de uma menina a afundar-se na ria de Bilbao, promovida pela instituição financeira BBK (Bilbao Bizkaia Kutxa), conseguiu uma gigantesca notoriedade gratuita no horário nobre da comunicação social ao nível planetário. Antecipando o futuro, em particular a ameaça das alterações climáticas, a campanha nos media, Leão de Prata em Cannes, desdobra-se num anúncio (2:15) e numa curta-metragem (17:01).

Anúncio – Anunciante: BBK. Título: Bihar: Elegir el mañana. Agência: LLYC. Música: Ólafur Arnalds – Only The Winds. Espanha, março 2022.
Curta-metragem – Anunciante: BBK. Título: Bihar: Elegir el mañana. Agência: LLYC. Música: Ólafur Arnalds – Only The Winds. Espanha, março 2022.

Pôr a vida a pastar

Round like a circle in a spiral, like a wheel within a wheel / Never ending or beginning on an ever spinning reel (Abbey Lincoln, Windmills of your mind).

Com mobilidade reduzida, a relação com o mundo adquire outra feição. Resulta mais lenta e mais minuciosa. Pasma-se com as aventuras da gata, desde os primeiros namoros até ao aleitamento das crias, uma preta como o pai, a outra às listas tal e qual a mãe. Acompanha-se a melra que repete cinco vezes o mesmo voo desde o comedouro dos gatos até às bocas no ninho. Até as plantas se animam: sofrem os limoeiros com as invasoras, têm sede os morangueiros nos vasos e destaca-se a primeira folha avermelhada na cerejeira. Tudo entremeado com música. Hoje, jazz. Partilho três faixas do álbum over the years, de Abbey Lincoln: Windmills of your mind; What will tomorrow bring; e Tender as a rose.

Abbey Lincoln. Windmills of your mind. Over the years. 2000.
Abbey Lincoln. What will tomorrow bring. Over the years. 2000.
Abbey Lincoln. Tender as a rose. Over the years. 2000.

Remédio santo. Anúncio tailandês incrível

Salvador Dali. Galatea de las Esferas. 1952. Museu Nacional d’Art de Catalunya.

Entrei nos cinquenta e treze preguiçoso. Satisfaço-me com escutar música, ler, ver documentários e, principalmente, conviver, arte que estava em vias de esquecer. Que prazer ter o vício de escrever e não o fazer! Segue o anúncio tailandês The Wisdom of the East que conquistou um Leão de Ouro no festival de publicidade de Cannes. Sem comentários.

Marca: 5 Takabb. Título: The Wisdom of the East. Agência: PHENOMENA CO. Tailândia, junho 2022.

O ovo e a excrição

Quando o sábio aponta para a Lua, o idiota olha para o dedo (Provérbio chinês).

As pessoas não sabem ser fortuitas. Por generosidade ou por interesse, atendem apenas ao dar e ao receber, ao comum, à reciprocidade em circuito fechado. Sem excentricidade. Quem não se excede não sai do mesmo, por falta de comparência.

Sair ou não sair do ovo, eis a questão.

Excreve-te!

Fátima Mendonça. Sem Título. Acrílico.

Lou Reed. Strawman. New York. 1989. Live in Montreal, august 1989.
Georges Brassens. La mauvaise réputation. La mauvaise réputation. 1952.

Georges Brassens. La mauvaise réputation (Letra)

J’ai mauvaise réputation
Qu’je m’démène ou qu’je reste coi
Je pass’ pour un je-ne-sais-quoi
Je ne fait pourtant de tort à personne
En suivant mon chemin de petit bonhomme
Mais les brav’s gens n’aiment pas que
L’on suive une autre route qu’eux
Non les brav’s gens n’aiment pas que
L’on suive une autre route qu’eux
Tout le monde médit de moi
Sauf les muets, ça va de soi
Le jour du Quatorze Juillet
Je reste dans mon lit douillet
La musique qui marche au pas
Cela ne me regarde pas
Je ne fais pourtant de tort à personne
En n’écoutant pas le clairon qui sonne
Mais les brav’s gens n’aiment pas que
L’on suive une autre route qu’eux
Non les brav’s gens n’aiment pas que
L’on suive une autre route qu’eux
Tout le monde me montre au doigt
Sauf les manchots, ça va de soi
Quand j’croise un voleur malchanceux
Poursuivi par un cul-terreux
J’lance la patte et pourquoi le taire
Le cul-terreux se r’trouve par terre
Je ne fait pourtant de tort à personne
En laissant courir les voleurs de pommes
Mais les brav’s gens n’aiment pas que
L’on suive une autre route qu’eux
Non les brav’s gens n’aiment pas que
L’on suive une autre route qu’eux
Tout le monde se rue sur moi
Sauf les culs-de-jatte, ça va de soi
Pas besoin d’être Jérémie
Pour d’viner l’sort qui m’est promis
S’ils trouv’nt une corde à leur goût
Ils me la passeront au cou
Je ne fait pourtant de tort à personne
En suivant les ch’mins qui n’mènent pas à Rome
Mais les brav’s gens n’aiment pas que
L’on suive une autre route qu’eux
Non les brav’s gens n’aiment pas que
L’on suive une autre route qu’eux
Tout l’mond’ viendra me voir pendu
Sauf les aveugles, bien entendu!

Tédio e lentidão

A um amigo que me ofereceu histórias de imagens, de Robert Walser.

A lentidão é um luxo, o tédio um tormento. Onde está a fronteira?

Regresso às “minhas” músicas; deixo os “tops of the pops” para outras oportunidades. Hoje, estive a ouvir o álbum Astral Weeks (1969), de Van Morrison. Coloco as três últimas faixas.

Van Morrison. Madame George. Astral Weeks, 1969
Van Morrison. Ballerina. Astral Weeks, 1969
Van Morrison. Slim Slow Slider. Astral Weeks. 1969.

MDOC – 01-07 agosto: O Mundo em Melgaço

Participo e recomendo.

” Encontro com foco no cinema de não-ficção, o MDOC Festival Internacional de Documentário de Melgaço vai trazer-nos, de 1 a 7 de agosto, o ponto de vista de criadores sobre diferentes realidades e preocupações que atravessam o mundo contemporâneo. O festival pretende promover e divulgar o filme documentário e contribuir para um arquivo audiovisual do território” (http://mdocfestival.pt/pt/mdoc) /

“Organizado pela Câmara Municipal de Melgaço e pela Associação AO NORTE, pretende promover e divulgar o cinema etnográfico e social, refletir com os filmes sobre identidade, memória e fronteira, e contribuir para um arquivo audiovisual sobre o território” (http://mdocfestival.pt/pt/apresentacao).

Carregar na imagem para aceder ao vídeo. Ligar o som.

MDOC – Festival Internacional de Documentário de Melgaço – 01 a 07 agosto 2022

Mais um dia, mais um ano

“Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés.

Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá- las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso” (Walter Benjamin, Teses sobre o conceito da história, 1940, tese 9).

Galeria: Devolução de grifo à natureza em Castro Laboreiro em março de 2022.

A exemplo do anjo de Paul Klee (figura 1), continuo a avançar com os olhos postos no passado. Mas, que me lembre, nunca antes abracei as ruínas com tanta ternura nem o futuro com tanta abertura. E, à semelhança do grifo devolvido à natureza em Castro Laboreiro (figuras 2 a 4), sinto-me cada vez mais devolvido à sociedade. Como um tronco de que irrompem portas e janelas (Figura 5). Não me lembro de receber tantos mimos e parabéns eletrónicos. A todos estou grato por este momento de confraternização.

Anabela Garelha e Salda Silva. Reutiliz’Art. Lamas de Mouro.

Top of the pops com rugas 5. Michel Colombier, Vangelis e Francis Lai

Insisto em recordar e publicar músicas, agora, instrumentais. Paisagens sonoras dos anos sessenta e setenta especialmente apropriadas para ouvir depois da penitência da fisioterapia.

Michel Colombier. Wings (Emmanuel). 1971.
Vangelis. La petite fille de la mer. L’apocalypse des animaux .1973.
Francis Lai. Générique (de “Bilitis”). 1977.

Top of the pops com rugas 4. The Rolling Stones, Supertramp e Pavlov’s Dog

The Rolling Stones. Angie. Goats Head Soup. 1973.
Supertramp. Hide in your shell. Crime of the century. 1974. Ao vivo em Paris, 1979.
Pavlov’s dogs. Julia. Pampered Menial. 1975.

Tops of the pops com rugas 3. Led Zeppelin, Deep Purple e The Doors

Georges Moustaki canta: “nunca estou só, com a minha solidão (je ne suis jamais seul avec ma solitude). Eu digo: nunca estou só, com os meus fantasmas sonoros”.

The Doors. Riders on the storm. L.A. Woman. 1971.
Deep Purple. Sweet Child in Time. Deep Purple in Rock. 1970.
The Doors. Riders on the storm. L.A. Woman. 1971.