Redespertar
Dormir
E acordar de novo
Quando for velho e frágil
E fraco
[Quinquis, Setu (Sonho), 2022)
Diálogo entre a cadeira de rodas e a bengala:
Cadeira de rodas: – Agora que consegues andar, podias mudar de vida!
Bengala: – Como assim?
Cadeira de rodas: – Essa que tens não presta. Desperta enquanto é tempo. Aproveita a primavera!
Bengala: – Não vejo como.
Cadeira de rodas: Em vez de pasmar a observar os pássaros, dá asas ao desejo e reaprende a voar.

Nascida em Brest, em 1990, casada com Yann Tiersen, Emilie Quinquis é uma compositora, instrumentista e fotógrafa francesa que canta em língua bretã. Algumas das suas canções não ultrapassam as centenas de visualizações. Nestas circunstâncias, ao retê-la numa “corrente” tão diminuta, uma pessoa acaba por se sentir alguém. Seguem quatro músicas com Quinquis.
O bom pastor e a ovelha negra e manca

Estou a escrever um artigo que está a resultar mais complicado e extenso do que a encomenda. Aborrecido, perco a paciência.
Entretanto, desenfado-me com uma paper stop motion short com ressonâncias bíblicas, “Lost Sheep”, e compenso com os ecos nostálgicos da música de fundo: as canções “Rapaz da montanha” e “Já sabia”, do próximo álbum do Rodrigo Leão.
Imagem: Estatueta do Bom Pastor carregando um cordeiro, c. 300-350, das Catacumbas de Domitila, nos Museus do Vaticano
Origami mágico

Ontem, tive um momento de glória. Consegui a façanha de mostrar ao Fernando um vídeo japonês que ele ainda não conhecia. E adorou! Uma lança em África. Sinto uma ponta de orgulho. Convenha-se que o vídeo Origami, realizado pelo jovem japonês Kei Kanamori, é fantástico. Curto, com menos de três minutos, nele cabe um vendaval de arte e sonhos.
Cativa-me a palavra origami. Há quase vinte anos, ilustrei uma conversa em Viana do Castelo com uma compilação de anúncios publicitários batizada Origami Mágico (ver Lição Imaterial: https://tendimag.com/2020/03/13/licao-imaterial/).
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É realmente belíssimo, veloz, imaginativo, ritmado, e pensar que tudo cabe numa folha de papel. A palavra origami também me fascina, e o origami em si mesmo ainda mais. Sem perder uma única dobra, tudo é possível neste imaginário. E remontando às vertigens do barroco e às suas dobraduras, diria que o origami representa a precisa vertigem do efémero. Tudo se resume à mudança e à capacidade de se reinventar. Dispersa-se com o vento, consome-se no fogo e dissolve-se na água. É um ritual da alma e celebra o espírito na sua magia de renovação. Sem amarras. Preces e oferendas, dobras infinitas. (Almerinda Van Der Giezen, 25.03.2023)
A lenda do pintassilgo

Segundo uma lenda medieval, um pequeno pintassilgo voou até Jesus no momento em que Ele carregava a cruz para o Calvário. O pássaro tentou arrancar os espinhos da coroa que perfuravam a Sua testa. Ao puxar um dos espinhos, uma gota do sangue de Cristo caiu-lhe sobre a cabeça, tingindo as suas penas de vermelho.
Na realidade, os pintassilgos possuem uma mancha vermelha na cabeça e não evitam os cardos, constando entre as poucas aves que conseguem alimentar-se das respetivas sementes. A tradução de pintassilgo em francês é chardonneret; e em italiano, cardelino. Ora, o francês chardon e o italiano cardo significam, precisamente, cardo.
O pintassilgo aparece com alguma frequência nas pinturas junto ao Menino Jesus, quase sempre nas suas mãos. Alude, simbolicamente, à Paixão e à Redenção, funcionando como um presságio do sacrifício de Cristo.
Inteirei-me desta lenda graças à Virgem do pintassilgo, pintura renascentista de Rafael. O motivo do pintassilgo representava um desafio. Ora, sempre que o sentido de um detalhe numa grande obra me escapa, parto do princípio que o problema é meu. A solução foi rápida e fácil. Por acréscimo, deparei com meia dúzia de pinturas similares, algumas anteriores à Virgem do Pintassilgo de Rafael, as mais antigas remontando ao século XIV (ver galeria de imagens).
Galeria de Imagens: Virgem e Menino Jesus com Passarinho








O pintassilgo do Menino Jesus acabou por me lembrar uma canção, antiga e pouco conhecida, dos Pink Floyd: “Grantchester Meadows”.
Um sopro de fé
Sede vós mesmos o canto que ides cantar (Santo Agostinho).
Cantar é rezar duas vezes (Atribuído a Santo Agostinho).
Diversificar é preciso. Variar a língua, a geografia e a disposição. Depois da euforia italiana do Adriano Celentano (NOSTALROCK & NOSENSERAP) e da disforia neerlandesa da Sharon Kovacs (Fragâncias do Inferno), importa mudar o ponto cardeal. Acolher o murmúrio, senão o suspiro de fé intimista, da francesa Camille.
Há tempos, aludi à guturalidade na música (Prazer gutural). Camille representa um expoente do recurso à sonoridade corporal, durante e entre notas. Em muitas das suas interpretações, o acompanhamento confina-se à pluralidade expressiva dos sons emitidos pelo próprio corpo (ver O estádio do respiro e O Capuchinho Vermelho tem medo em casa).

As cinco canções que seguem, em espanhol, foram compostas para a banda sonora do filme musical Emilia Pérez, que, estrado em maio de 2024. acumulou vários prémios: Cannes, Globo de Ouro, Critic’s Choice Awards, BAFTA, SAG Awards, Óscars…
A interpretação de Camille desvia-se do padrão habitual. O canto aproxima-se, agora, de um murmúrio sussurrado e confidente, com uma voz meiga e suave, acompanhada apenas pelo piano.
Diversificar é preciso, para encontrar um pouco. Mas não, necessariamente. para se encontrar. Não me parece que seja exequível, nem desejável. Pelo que se pressente ou anteviu, o encontro consigo que fique para o fim, para o momento em que, segundo a ars moriendi, tudo conflui em jeito de despedida. Não resulta nada preocupante continuar inacabado e irresoluto, desde que, porventura, com o cuidado de respirar uma brisa de fé.
Por uma vez, acrescento, pela qualidade da exposição e do conteúdo, a entrevista de Camille ao programa 15′ de plus, da France Inter, de 11 de outubro de 2024.
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Morte Encalhada
Algumas fealdades são mais atraentes do que a beleza comum (Juliette Benzoni).
Testar um sentimento não é namoro que se evapore num ápice. Arrisca agudizar-se ou alastrar-se. A disforia das fragâncias do inferno de Sharon Kovacs pode ressoar, por exemplo, no videojogo Death Stranding, uma deambulação entre a vida e a morte num mundo catastrófico, com forças ocultas, ameaças assombrosas e seres disformes, embalado numa estética épica do feio e do mal, apostada em ambientes deslumbrantes e músicas envolventes.
A estreia do videojogo Death Stranding 2: On the Beach está anunciada para o próximo mês de junho. Segue um trailer.
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Sim, há seres disformes, ameaças assombrosas, mas estas novas gerações o que esperam do mundo afinal? Creio serem metáforas de tudo o que vivemos e do que receamos. É recriado um mundo apocalíptico, mas onde ainda peŕsiste o bem e o mal. Nem as asas são dispensadas, as brancas e as negras. E sobretudo, o amor tem o seu lugar incondicional, com novos heróis e heroínas a combater o mal. Ou o combatem ou são aniquilados. Tudo, pareceu-me, para salvar uma inocência renascida, o bebé protegido a todo o custo, ou seja, o fruto do amor e da vida. Um recomeço.
Não sou fã deste tipo de alegorias mas entendo a necessidade destes novos jovens que, na sua maioria, só vêem desalento, incertezas, guerras e genocídios aceites tacitamente, solidão e não pertença, o horizonte não é mais o mesmo. Necessitam cruzar portas imaginárias onde conseguem ver beleza, amor e uma verdadeira luta, não com o invisível das suas vidas, mas monstros e morte personificadas. Porque a vida só tem sentido encarando toda a obscuridade dos demónios, os de dentro e os de fora, e a morte só é vencida quando a vida faz sentido.
Faz sentido? (Almerinda Van Der Giezen, 22.03.2025)
Fragâncias do Inferno

De Adriano Celentano para Sharon Kovacs. Do verso para o reverso, do segundo para o terceiro milénio, do luminoso para o sombrio, de Itália para Holanda. A música e as letras tornam-se mais tensas, pesadas e disfóricas. Estranha-se e custa a entranhar, mas acaba-se por saborear, senão venerar, como se aprecia o molho de alho ou o sumo de limão bem feitos.
NOSTALROCK & NOSENSERAP

Ávidos de certezas num mundo problemático. A busca de um univocidade extemporânea. No que me respeita, procuro variar, senão contrapor. Após uma série de músicas sensatas e melífluas, apetece-me convocar um par de compositores e cantores excecionais e contrastantes. Um, desenvolto e divertido, dispõe bem, o outro, nem por isso. Ambos resultam marcantes e portentosos.
Começo com o Adriano Celentano, o “homem com molas”, como lhe chamam no seu país, a Itália, pelo seu modo frenético de dançar. Compositor, cantor, artista e realizador, iniciou a carreira em 1957, alcançando o planalto nos anos sessenta a oitenta. Mediático, com um humor apurado e energia em palco, não deixa ninguém indiferente. Quem nasceu no milénio passado, provavelmente há muito que não ouve falar dele, mas não o esqueceu. Como memória em vez de arquivo, segue uma mão cheia de canções.
Prenda do Dia do Pai. Um anúncio japonês
No Dia do Pai, recibi uma prenda que não podia ser mais acertada: um anúncio japonês comentado.

“Numa ambiciosa campanha publicitária, o McDonald’s Japão uniu forças com três gigantes do J-Pop: as cantoras Ado e Hoshimachi Suisei e a dupla YOASOBI. O resultado é um videoclipe vibrante que combina as músicas Yoru No Pierrot, Into The Night e BIBBIDIBA, com uma animação original para criar uma harmonia explosiva.
O vídeo descreve a jornada de três personagens que, inspiradas por um concerto ao vivo, embarcam no mundo da música. Depois de vários altos e baixos, o clímax ocorre num palco vazio, o pesadelo de qualquer artista. No entanto, descobre-se que o McDonald’s, simbolizado pelas suas batatas fritas icônicas, acompanhou e partilhou os momentos da banda nas redes sociais. A genuinidade dessa jornada conquistou milhares de fãs. Embora não haja uma plateia física, todos estão unidos, assistindo à performance online.
Entre as reações do público, a animação inclui representações das próprias Hoshimachi Suisei, Ado e YOASOBI. A narrativa reflete a trajetória de Ado e Suisei, cujos rostos são desconhecidos pelo público e cujas carreiras foram exclusivamente impulsionadas por plataformas digitais, até atingirem o sucesso global. A campanha sublinha como a presença online se tornou um pilar essencial para o sucesso na indústria musical contemporânea, onde a conexão digital frequentemente substitui a interação física.” (Fernando Gonçalves).



Vadia. Voz encorpada

“Dá-te por feliz por eu não ser deus” [mas antes um diabrete fogoso]!
Compositora e intérprete, natural de Oakland, California, Vadia Rhodes possui uma voz e uma prestação bastante aproveitáveis. Resulta, porém, muito pouco conhecida.
Esta discrepância constitui razão acrescida para partilhar a interpretação das canções Be Glad I’m Not God e My Kind Of Fire.
