Um português na China
![]()
Deve ser isto a globalização mágica! “Uma noite no museu” e o português Paco Cruz a dirigir um anúncio chinês. Paco Cruz, com uma carreira notável, formou-se na Escola das Artes, da Universidade Católica do Porto.
Marca: Sprite. Título: Giveaway. Agência: Ogilvy & Mather Shanghai. Direcção: Paco Cruz. China, Maio 2017.
Tragédia quotidiana
De que mundo se fala, quando se fala do mundo? As notícias cobrem-no e recobrem-no com um manto todo esburacado. Há imagens que chocam. A presença do que, para nós, não existe é obscena. Preferimos a ausência do que existe. Com o filho inválido às costas, uma mãe percorre, a pé, dezenas de quilómetros para aceder aos cuidados de saúde. Será notícia? Trata-se de uma vítima improvável de um evento extraordinário por motivos plausíveis num espaço simbólico? Não, trata-se apenas de sofrimento desamparado, dia após dia, todos os dias. Nada acontece! A notícia releva do drama, a realidade da tragédia.
A próxima estação
A próxima estação pode chamar-se Alzheimer. Coloco artigos que ora valem pelo comentário, ora, como este, pelo anúncio. Em termos de narrativa e emoção, o anúncio La Misión, da Fundación Reina Sofía, bate-se com os orientais. E, pronto! Não preciso passear mais palavras.
Anunciante: Fundación Reina Sofía. Título: La Misión. Agência: Sra Rushmore. Direcção: Gabe Ibáñez, Maio 2017.
Estética da libertação

Ana Luísa Santos. Crisálida. Fotografia de Guto Muniz.
Há dias assim, em que se dispensam discursos que se desfazem em ideias; barrocos por fora, ocos por dentro. Basta uma ideia bem explorada, uma pequena centelha para acender a imaginação. O que sugerem as imagens do anúncio Incoming? Uma múmia? Uma crisálida? Uma clausura? Uma bandagem? Uma dança contemporânea? Um nu feminino? Uma manta simbólica para uma estética da libertação.
Carregar na imagem ou no seguinte endereço (http://www.culturepub.fr/videos/orange-incoming/) para aceder ao anúncio.
Marca: Orange. Título: Incoming. Agência: WCRS. Direcção: Daniel Barber. Reino Unido, 1995.
O elefante na sala de pós-produção: a library music em criações audiovisuais
Um evento interessante e original! A palestra é precedida por um momento musical (Bossa Nova) interpretado, ao violão, por Felipe Breier, aluno do Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura.
Oradora: Júlia Durand. É mestranda em Ciências Musicais na FCSH-UNL e bolseira de investigação no CESEM (Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical).
Título da comunicação: “O elefante na sala de pós-produção: a library music em criações audiovisuais”.
Resumo: Actualmente, o que é internacionalmente conhecido por library music é ouvido em inúmeros filmes, desde telejornais e documentários a vídeos de youtube e pornografia. Os sites que comercializam esta música categorizam-na segundo géneros, instrumentação, emoção e ambiente, e a sua produção está estreitamente relacionada com a procura e tendências das indústrias audiovisuais. Uma exploração dos sites mais utilizados revela o modo como a library music reflecte (e reforça) convenções musicais do cinema e televisão, algo que contribui para a sua depreciação e reputação de música estereotipada e “enlatada”.
Desgosto
O anúncio alemão Popel, da Sixt, é profético. Pleonasmo à parte, é prenúncio de um advento, de um futuro presente. Apresenta-se vulgar, molesto e desconfortável? A vulgaridade, a moléstia e o desconforto são sensações que nos (co)movem. A escolha de uma menina tão cândida como protagonista manifesta-se inconveniente? Na melhor nódoa cai o pano. Entretanto, o efeito aumenta. A eventual proibição, por mau gosto, do anúncio proporciona-lhe mais aura e impacto. Na Internet, o que é proibido é procurado. O anúncio provoca o público como se a provocação fosse um valor. O mau gosto é uma bandeira? Que me perdoem Max Weber e Pierre Bourdieu, mas a estilização e a estetização da vida ainda se confinam muito à casca e ao verniz, à ponta do iceberg. Tudo se passa como se o processo civilizacional, estudado por Norbert Elias, esboçasse uma inversão de marcha. A bestialidade acotovela a domesticidade do homem. Temos muito em que nos rever, mas também temos muito em que nos estranhar. A publicidade dispõe de uma galáxia para explorar.
Marca: Sixt. Título: Popel. Agência: Jung Von Matt. Alemanha, Maio 2017.
Imagens da música
Com uma dúzia de capas de discos faz-se um anúncio e escolhe-se música: The Rolling Stones, The Doors, The Cure, Nirvana… O anúncio Sounds like you foi dirigido por Michel Gondry para a Pandora. Acrescento o vídeo The Man Who Sold The World, na versão dos Nirvana. Quantas capas ficaram de fora neste anúncio? Por exemplo, a capa de The Man Who Sold The World (1970) de David Bowie.
Marca: Pandora. Título: Sounds like you. Direcção: Michel Gondry. USA, Maio 2017.
Nirvana. The Man Who Sold The World. MTV Unplugged. 1994.
Nós somos imagens que passam
No anúncio Hunt, da Telefónica, meio mundo anda a ecranizar a outra metade. Na verdade, andamos a ecranizar-nos uns aos outros. Nada escapa: nem a sapatilha aerodinâmica, nem o cabelo inteligente. Ecranizamo-nos pela frente, ecranizamo-nos por trás. É uma partilha compulsiva de imagens de si e do outro, numa ecranização global. Somos, em termos de imagens, uns arroseurs arrosés. A geração do pós-anonimato ou, se se preferir, da pós-intimidade. Nous sommes les enfants des Lumière(s). “Nós somos imagens que passam, num mundo transformado em ecrã”. O que me irrita, solenemente!
Anunciante: Telefonica Movistar & Motorola.Título: Hunt. Agência: McCann Erickson Madrid. Espanha, Fev. 2010.
Les frères Lumière. L’Arroseur arrosé. 1895.
Absurdo ternurento
Os heróis ecologistas não têm a vida fácil, arriscam acidentes insólitos. Mas Melissa viaja segura num Kia. Os acidentes do anúncio Hero’s Journey são catástrofes absurdas, tão absurdas que se tornam risíveis. O anúncio do Kia Niro lembra os cartoons. Por exemplo, o Bip Bip (The road runner), de Chuck Jones ou A corrida mais louca do mundo (Wacky races) e Tom e Jerry, ambos criados por William Hanna e Joseph Barbera. Opto pelo absurdo ternurento de Tex Avery: Drag-a-long Droopy (1954).
Marca: Kia. Título: Hero’s Journey. Agência: David&Goliath. Direcção: Matthijs Van Heijningen. USA, Fevereiro 2017.
Tex Avery. Drag-a-long Droopy. 1954.
Originalidade aplicada
O Brasil é uma potência do audiovisual. A originalidade desfruta de boas condições. Encontrei em iniciativas brasileiras uma qualidade relativamente rara que denomino originalidade aplicada. Quando uma inspiração não se reduz a um fogo-de-artifício, mas se traduz por uma pragmática consequente, estamos próximos da originalidade aplicada.
Há meio século, coloriam-se os filmes a preto e branco. Lembro-me do Jour de fête, de Jacques Tati (1949). A Getty Images Brasil propôs-se não colorir mas sonorizar o filme mudo Nosferatu (1922). Um projecto e uma obra únicos! O resultado compensa. Segue o trailer (pode aceder ao filme Nosferatu sonoro completo no endereço: http://www.nonsilentfilm.com/en/).
Anunciante: Getty Images Brasil. Título: The Non Silent Film. Agência: Almap BBDO Brasil. Brasil, Abril 2017.







