Compensação

Tenho resistido a partilhar esta compilação de anúncios da marca de tabaco Hamlet. O meu grilo falante diz-me para não o fazer: na União Europeia, a publicidade ao tabaco está proibida desde 2005. Hoje, não lhe vou dar ouvidos: o sentido de humor, esse ainda não está proibido e há aproveitar enquanto é tempo. Os anúncios Hamlet têm um humor very british.
A festa da Bugiada e Mouriscada de S. João de Sobrado
Sobrará, ainda em férias, alguma disponibilidade para dar uma vista de olhos a um documentário extenso?
Fiz parte da equipa do projeto Festivity, coordenado pela Rita Ribeiro, que concretizou, em 2023, um livro e, em 2024, um documentário, ambos dedicados à festa da Bugiada e Mouriscada, que ocorre na véspera do S. João, na freguesia de Sobrado, concelho de Valongo. Trata-se de uma festa grandiosa e incrível, ímpar do ponto de vista estético e da adesão popular.
Seguem o documentário Bugiada e Mouriscada de Sobrado: a festa e quem a faz e o capítulo “Os serviços da tarde na Festa de S. João de Sobrado: A bênção escatológica num mundo às avessas”, do livro São João de Sobrado. A festa da Bugiada e Mouriscada.
Casamento nos anos setenta. Cortejo Histórico de Melgaço 2024

O tema do casamento nos anos setenta foi o segundo a surgir para o Cortejo Histórico de Melgaço de 2024, logo a seguir ao tema da lenda da Senhora da Orada. Entre outros aspetos, manifestava-se estimulante a possibilidade de incluir o vetusto carro dos Bombeiros Voluntários de Melgaço que chegou a ser utilizado para o transporte de noivos: um Buick vermelho modelo 1928.

Sobre a história deste automóvel pode consultar-se o artigo de Manuel Igrejas, “O Carro dos Bombeiros Voluntários de Melgaço / Um lugar onde nada acontecia XI”, publicado no jornal Voz de Melgaço e retomado no blogue Melgaço, do Monte à Ribeira (https://iasousa.blogs.sapo.pt/o-carro-dos-bombeiros-voluntarios-de-240186).

Não se regatearam esforços para restaurar o Buick de modo a que estivesse pronto para desfiliar no dia 10 de agosto. Lamentavelmente, não se logrou recuperar uma peça. Foi substituído por um Mercedes vintage.

Definido o tema, a implementação e concretização coube às juntas do Agrupamento de Freguesias de Parada de Monte e Cubalhão, da freguesia de Cousso e da freguesia da Gave. Contaram com o apoio da associação CUBO D’QUESTÕES, ASSOCIAÇÃO JUVENIL, de Parada do Monte, e, naturalmente, da equipa da Câmara Municipal.

Abraçaram o desafio com entrega, criatividade e sentido de oportunidade. Previa-se, inicialmente, um cortejo com os carros dos noivos e dos convidados engalanados a preceito. Adicionou-se a encenação da própria cerimónia do casamento, com espera da noiva, padrinhos, meninas das alianças, celebração, beijo da noiva, chuva de arroz e arremesso do ramo. Nem sequer faltou a pose para as fotografias.
A apresentação culminou com o baile, uma valsa bem dançada, empolgante e envolvente, a que até o padre aderiu (sugere-se o vídeo publicado pela Voz de Melgaço: https://www.facebook.com/jornalvozdemelgaco/videos/1023897019126966?locale=pt_PT). Fechou, assim, com chave d’ouro o casamento nos anos setenta e, por coincidência, o próprio Cortejo Histórico.
Além do entusiasmo e do espírito de iniciativa, convém sublinhar a criatividade e o sentido de oportunidade dos organizadores e dos participantes. Quando se aguardava um casal jovem, tipo Barbie e Ken, surgem vários casais perto das bodas de ouro, que, com à-vontade e alegria contagiantes, representaram, vestiram as personagens, com uma competência e um brio raros em muitos profissionais do teatro. Uma última palavra para o guarda-roupa, os adereços e a caraterização. vestuário e os adereços. Deveras adequados, em alguns casos configuravam autênticas relíquias.

Os organizadores, os participantes e o público não esquecerão, certamente, tão cedo o casamento nos anos setenta em Melgaço. Ultrapassando as expetativas, consubstanciou uma iniciativa simpática, no sentido etimológico da palavra: teve a virtude de atrair, juntar e mover vontades.

Seguem:
- Uma galeria com fotografias provenientes, sobretudo, de Ana Macedo, Miguel Bandeira e Município de Melgaço
- Um exemplo de notícia de casamento nos anos setenta;
- O texto que serviu de base para a apresentação durante o cortejo;
- Um artigo sobre os ritmos sazonais e os estilos de vida dos melgacenses residentes e emigrantes por volta dos anos setenta.
Galeria de imagens: Casamento nos anos setenta. Cortejo Histórico de Melgaço 2024

















































Notícia de casamento no jornal Voz de Melgaço de 1971

O casamento nos anos setenta. Texto para a apresentação durante o cortejo
Quem não conheceu Melgaço nos anos setenta dificilmente o conseguirá imaginar. Correspondeu a uma época de mudanças e excessos.
O concelho nunca antes teve tantos emigrantes. A partir de meados dos anos sessenta, aos homens juntaram-se as mulheres. Nesta conjunção, nunca vieram tantos emigrantes de férias, que, agora em família, Agora em família, se concentram no verão, principalmente no “querido mês de agosto”. A sua presença alcançou o auge de densidade, mobilidade e visibilidade.
Entretanto, Melgaço despedia-se de uma economia assente na agricultura, com as antigas hierarquias a descoser-se sem que novas as substituíssem claramente. Em termos de estrutura e organização, os anos setenta configuraram um período de transição propício à indefinição, à turbulência e à competição social.
O ciclo anual oscilava entre duas fases com tipos e ritmos de vida contrastados. Tudo crescia e acelerava no verão para abrandar e esmorecer abruptamente em seguida durante o resto do ano. Uma tempestade de verão! Tudo parecia rebentar pelas costuras: os bancos, as repartições, os comércios, as feiras, os cafés, as praças e as estradas. Agendam-se e afunilam-se os compromissos e os afazeres de todo o ano em meia dúzia de semanas: negócios, contratos, obras, atos religiosos, casamentos, batizados e até os namoros! Não havia dia ou noite sem festas nas proximidades. Depois de um prolongado e monótono inverno, o inverso, a inquietude. Tudo urge e se multiplica. Aspira-se à ubiquidade: estar em todo o lado ao mesmo tempo. Omnipresença, efervescência, aceleração e velocidade.
Entre as festividades, os convívios e as cerimónias, destacam-se os casamentos. Faustos e fartos, proliferavam. Propiciam um momento de reencontro de parentes e amigos, a residir dentro ou fora do concelho. Oferecem-se, ainda, como um palco apropriado para a afirmação, a distinção e a ostentação social, tanto dos noivos e das suas famílias como dos convidados, de preferência muitos e com prestígio. Tudo frisava o exagero: o vestuário, o cortejo, o banquete, as prendas… Criaram e cresceram empresas que não tinham mãos a medir: restaurantes, cabeleireiras, esteticistas, floristas… Até lojas especializadas em prendas!
Os casamentos impõem-se como um espetáculo notável. Registam-se, apreciam-se e comentam-se os convites, a cerimónia, as roupas, o vestido e o ramo de noiva, os padrinhos, o valor das prendas, as fotografias, o cortejo, a quantidade, qualidade e matrícula dos carros, o destino da lua-de-mel, o local, a ementa, a animação e a generosidade do banquete.
“Primeiro de agosto, primeiro de inverno”. Por volta da Nossa Senhora da Assunção, é altura de fazer as malas. Melgaço esvazia-se e entorpece. A agitação e a estúrdia cedem à contenção e à modorra.
Os anos setenta um intervalo no decurso de uma história que não se repete. Tudo o que sobe desce. Incha, desincha e passa. Tamanha excitação e extravagância são difíceis de sustentar. A situação, sobretudo, económica e financeira, do País foi periclita, a relação entre os emigrantes e a sociedade de origem altera-se e a demografia, principalmente o envelhecimento, não dá tréguas. Em suma, uma dinâmica que resulta menos de feição a excessos e euforias.
(Albertino Gonçalves)
Artigo sobre os ritmos sazonais e os estilos de vida dos melgacenses residentes e emigrantes por volta dos anos setenta
Walking in the (b)rain

Volta e meia, a Apple promove anúncios que visam a prevenção contra ameaças totalitárias. Por exemplo, “Data Auction” (https://tendimag.com/2023/01/08/pela-translucidez/) ou “1984” (https://tendimag.com/2017/10/30/o-martelo-da-revolta/). A maçã da sapiência contra o Big Brother! Na verdade, somos observados, filtrados e manipulados a toda a hora em qualquer lugar. No anúncio “Flock”, câmeras de vigilância metálicas substituem os corvos do filme de Hitchcock. É motivo para acrescentar: They are walking in the (b)rain.
Van Gogh ilustrado

Alireza Karimi Moghaddam, nascido no Irão em 1975, é conhecido pelas mais de centena e meia de ilustrações que procuram exprimir a postura e o espírito de Van Gogh na vida e na tela. Reside desde 2021 em Lisboa.
Segue uma galeria e um vídeo com, respetivamente, 24 e 185 imagens.
Imagem: Alireza Karimi Moghaddam
Galeria de imagens: Fancy Van Gogh – ilustrações de Alireza Karimi Moghaddam sobre Van Gogh























A Inteligência da Inteligência Artificial
Acordei com quatro minutos de inteligência humana na caixa de correio. Partilho-os. Com a dificuldade de ser em francês, mas a inteligência não escolhe línguas. Carregar na imagem seguinte para aceder ao vídeo.

Quanto mais menos

Pouco me interessei pela sociologia do trabalho e das organizações. O suficiente mesmo assim para me atrever a afirmar a seguinte lapalissada: quando uma organização possui colaboradores em demasia, “sem ter que fazer”, corre o risco de inventar tarefas que, além de desnecessárias, resultam contraproducentes. Conseguirá o piano traduzir esta evidência?
A irradiação dos animes

Os animes constituem um dos fenómenos mais caraterísticos desta viragem de milénio. Crescem, apuram-se e expandem-se, projetando-se noutros mundos muito para além do ecrã, incluindo a chamada “alta cultura”. Pelo menos, assim o sugere o seu embaixador no lar partilhando mais um evento: a magnífica interpretação do Requiem for Attack on Titan, uma seleção de músicas da série de anime Ataque dos Titãs (uma adaptação série de mangá homónima), pela Grissini Project Orchestra, no Stocholm Concert Hall, a partir de 2 de novembro de 2023. São 19 minutos a que, pela excecional qualidade, vale a pena assistir.
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Aberturas da série de anime Attack on Titan (2013 a 2023)
Animação
Tenho em casa um nipófilo adepto dos animes. Costuma prendar-me com novidades e curiosidades. No passado mês de abril, estreou a série Kaiju. No. 8. O genérico de abertura é deslumbrante. Ao contrário da generalidade dos animes, quase dispensa o figurativo. Formas, movimentos, sons e cores insinuam-se, esboçam-se e atropelam-se a um ritmo estonteante, para antecipar sensações e emoções em vez de conteúdos, narrativas e significados. Uma aposta original e arriscada que tudo indica ter resultado.
As caraterísticas do genérico de abertura de Kaiju. No. 8 lembram-me um vídeo com anúncios a automóveis que produzi há décadas (Dobras e Fragmentos – A turbulência dos sentidos na publicidade de automóveis, 2007). Resultou uma colheira “bem apanhada”. Destaco, especialmente, o anúncio See How It Feels, da BMW (2007). Tempos em que bibia a beleza do mundo!
Seguem o anúncio See How It Feels, da BMW; o vídeo Dobras e Fragmentos – A turbulência dos sentidos na publicidade; e o texto homónimo correspondente ligeiramente ligeirament diferente do publicado no livro Vertigens (mais imagens e a cores).

