Lama, excrementos e porcos

Hieronymus Bosch. Temptations of St. Anthony. Detail. Ca. 1510-1520. The Nelson-Atkins Museum of Art. Kansas City.
Acontece desejar esquecer-me. De mim, claro! Rumo a um grau zero de reflexividade. Com o esplendor da técnica, há tanta mezinha para alívio da consciência interior. Mas é sonho impossível! Há sempre quem se lembre que existo, faço, penso, sinto e quero. Apetece mandar estes despertadores da subjectividade alheia chafurdar no charco da Dança do Cego, da Bugiada de Sobrado, em Valongo. Ou pegar “porcos bravos” no redondel de lama de Covas, em Vila Nova de Cerveira; de Romarigães, em Paredes de Coura (https://www.youtube.com/watch?v=3DPqOsEFfQY); ou de S. Julião, em Valença (https://www.youtube.com/watch?v=geibjf60xOE). Temo, porém, que, adubados e enlameados, revigorem o assédio e a impertinência.
Dança do Cego. S. João de Sobrado / Bugiada. Valongo.
Apanha do porco. Covas. Vila Nova de Cerveira.
Nos momentos sedentos de paz interior, costumo trautear uma canção, pouco conhecida, dos Doors: The mosquito (1972)!
The Doors. The mosquito. Álbum: Full Circle. 1972.
Que diria Kant?
“Há muito tempo que os museus deitam mão do marketing e da publicidade. E alguns, como a Tate Gallery of Liverpool, fazem-no com arte” (ver https://tendimag.com/2012/06/20/publicitar-arte/). Pois também há quem defenda que os anúncios publicitários podem ser arte (https://www.youtube.com/watch?v=B7F8L15gWPc). A publicidade, arte? Eis uma questão que ainda não saiu do adro. Alguns anúncios suscitam-me prazer, mormente estético. Olhar puro? Olhar bárbaro? Que diria o Kant? Entretanto, segue um mosaico de anúncios?
Argentu. Art of Advertisin. 2013. Amostra de excertos de anúncios.
A Cabeçada de Cristiano Ronaldo
Em 1978, passei três meses na Jugoslávia. Em Tuzla, uma professora de francês pediu-me para falar da Revolução do 25 de Abril aos alunos de uma escola secundária. Compareceram centenas. Na escola, abundavam os campos de ténis e de basquetebol. Anos depois, os tenistas e os basquetebolistas da ex-Jugoslávia constavam entre os melhores do mundo. Em Portugal, sucede algo semelhante. Não há recanto que não acolha um “campo da bola”. Os clarões nocturnos parecem naves extraterrestres a aterrar. Os resultados ultrapassam os da Jugoslávia. Os melhores treinadores e jogadores de futebol do mundo são portugueses. Nós somos assim, não desperdiçamos oportunidades. Desde há algum tempo, estamos a investir em empreendedores. Não se fala noutra coisa. O sino de Wall Street que se apronte!
Marca: Nike Football. Título: Follow Your Dreams – The Switch. Agência: Wieden + Kennedy. Direcção: Ringan Ledwidge. Internacional, Junho 2016.
O caso do planeta apagado
Coitados dos astronautas! O planeta sumiu. Pintaram-no com tinta preta. Toda a humanidade. Não sobrou um pincel.
À semelhança das farsas medievais, os anúncios da Orange não perseguem objectivos morais. Lembram o Principezinho e o reino do coração e da imaginação. “O importante é a Rosa” é uma frase do Principezinho que inspirou a canção homónima de Gilbert Bécaud. Desta vez, é interpretada por Amália Rodrigues. No planeta do Principezinho, se não imaginamos, não vemos.
Marca: Orange. Título: Planet. Agência: Publicis Conseil Paris. Direcção: Frederic Planchon. França, 2007.
Amália Rodrigues. C’est la rose l’important. Ao vivo, em França, em 1968.
E depois do adeus
Não se brinca com o fogo, com Deus, com os sentimentos, com a sombra… E com a morte? Num anúncio recente, uma viúva bebe chá com as cinzas do marido defunto (O cão que sabia demais). Neste anúncio, um cadáver é alvo de cosmética inconveniente. Sempre se brincou com a morte, realidade demasiado séria. Em tempos, não se brincou tanto quanto parece: as imagens medievais que, agora, consideramos engraçadas, como as danças da morte, não tinham, então, graça nenhuma. A relação actual com a morte é ambígua. Oscila entre o limpo e o sujo: a morte asséptica convive com a morte poluída. Por exemplo, a cremação de um morto e a exibição de cadáveres nos maços de cigarros.
Marca: National Jazz Awards. Título: Death becomes you. Agência: DDB Toronto. Direcção: Josefina Nadurata / James Davis / Jen Walker. Canadá, 2005.
O chá e o clister
A publicidade aprecia confrontar-nos com dilemas: bom/mau; belo/feio; leve/pesado… O anúncio Colonic da PG Tips propõe vários pares de oposição: dor/prazer; limpo/sujo; alto/baixo; e, sobretudo, infusão ou intrusão. Infusão do chá; intrusão do clister (enema).
Entre Deus e o Diabo, o cliente que escolha: ou clister, ou chá. Parafraseando Lenine, o maniqueísmo é a doença infantil da publicidade. O recurso à personificação do cliente mediante crianças, animais, peluches ou desenhos animados tende a aumentar o efeito de persuasão. Em suma, se sofre dos intestinos, se tem cólicas, nada como um chá verde!
Marca: TG Tips. Título: Colonic. Agência: Mother London. Direcção: Mark Denton. UK, Maio 2016.
Carpideiras
Qual é o efeito das novas tecnologias ao nível da tradição? Se fosse romântico, diria que é lamentável; se fosse futurista, diria que é promissor. A comunicação multimédia proporciona à tradição uma notoriedade nunca antes navegada. E como encarar os híbridos que baralham tradição e (hiper)modernidade (ver Balandier, George, Sens et Puissance, 1971)?
Muda a embalagem? Ao mudar a forma muda o conteúdo… E depois? Vivemos tempos de pós-tradição? Que interessa que uma prática ou um vestígio sejam ou não tradição quando o sábio, o político, o comissário ou o curador assim o entendem? Vertiginoso e efervescente, o presente é herdeiro de curta memória e alta reciclagem. A tradição é, como sempre, hóspede do presente.
O anúncio indiano Rudali, da Radio Mirch, é uma paródia, ou uma parábola, que mostra como uma tradição tão arreigada como o choro ritual das carpideiras é ameaçada, e vencida, pela música de uma estação de rádio. Em compasso lento, o filme regista como as carpideiras, contanto pagas, deixam de chorar. Preferem ouvir rádio (vídeo 1)! O prazer do ouvido substitui o simulacro da dor. Até a anciã adere.
Michel Giacometti filmou uma carpideira no Soajo. O documentário foi realizado para o programa “Povo que canta”, da RTP, em 1970 (vídeo 2).
Marca: Radio Mirch. Título: Rudali. Agência: McCann Erickson Mumbai. Índia, Dezembro 2015.
A Carpideira (lugar da Várzea, Soajo, Arcos de Valdevez). Autor: Michel Giacometti. Programa “Povo que canta”, RTP, 1970.
Cristo de Burgos

01. Cristo. Igreja da Irmandade das Almas de S. José das Taipas. Porto.
Uma amiga mostrou-me uma fotografia de uma pintura de Cristo com um “saiote” denunciando, aparentemente, traços femininos, ver andróginos. Por exemplo, as pernas. Encontra-se na Igreja da Irmandade das Almas de S. José das Taipas, no Porto. A inscrição, na base da cruz, identifica-o como “o Santo Cristo de Burgos” (Figura 1).
A imagem original do Santo Cristo de Burgos está, naturalmente, em Burgos, na catedral (Figuras 2 e 3). Data do séc. XIV. Uma lenda advoga que a escultura foi encontrada no mar, num galeão sem tripulação. Acompanhavam-no umas placas a pedir que fosse colocado em local magnificente e conveniente.
Até ao séc. XIX, esteve à guarda do Convento dos Eremitas de Santo Agostinho. Figura proeminente da Semana Santa, a escultura é articulada (Figuras 2 a 4). A zona das articulações é coberta com pele, o cabelo é verdadeiro, bem como as unhas. Consta que o cabelo e as unhas não param de crescer. Imagens do Santo Cristo de Burgos estão disseminadas por todo o mundo, nomeadamente ibero-americano.
Para fechar o ciclo e regressar ao início, observe-se a estátua do Santo Cristo de Burgos na Igreja de S. Francisco de Assis (Figura 6), nas Filipinas (Saraya, Quezon). Não sou competente para discernir a eventual androginia das imagens do Santo Cristo de Burgos. Certo é que, tirando o saiote, a imagem do Cristo de Burgos não se distingue das demais (Figura 5).
Mas a questão não é descabida. Carl Gustav Jung sustenta, apoiando-se em Georg Koepgen, a androginia não só de Cristo mas da própria Igreja.
“Koepgen fala do conflito apolíneo-dionisíaco da Antiguidade, cuja solução cristã consiste em “que na pessoa de Jesus o masculino esteja unido ao feminino”. “Somente nele se encontra esse lado-a-lado do masculino e do feminino em vigorosa unidade”. “Se no culto cristão a Deus se encontram reunidos homens e mulheres com direitos iguais, tem isso mais do que um significado casual: é a realização da androginia (…) tornada visível em Cristo (…) “A tensão e a lutas dos opostos do sexual se acha compensada em Jesus por meio da unidade andrógina”. A Igreja quanto à constituição é “hierarquicamente masculina, mas a alma da Igreja é de todo feminina” (…) Para Koepgen, pois, não apenas Cristo é andrógino, mas de modo considerável também a Igreja, conclusão cuja lógica não se pode negar” (Carl Gustav Jung. Mysterium Coniunctionis: Rex e Regina; Adão e Eva; A Conjunção. Editora Vozes, 04/03/2011, pp. 154-155).
Made in Italy

Milão
A Alzheimer Portugal (Associação Portuguesa de Familiares e Amigos dos Doentes de Alzheimer) lançou, recentemente, o anúncio Primeiro Encontro, encomendado à BBDO Milan e falado em inglês. Um anúncio italiano, para uma ONG portuguesa, em inglês, lembra um arco-íris multicultural. Convém considerar que os anúncios de sensibilização inscrevem-se, muitas vezes, de um modo próprio no mercado da publicidade. Milão? Tem uma boa imagem ao nível do calçado, da moda, do design e do futebol. A Piazza del Duomo abriga, para além da catedral, uma das “esferas públicas” nocturnas mais concorridas do planeta. Um produto italiano, em inglês, para uma organização portuguesa, a que público se destina? Estima-se que esta campanha para angariar donativos tem uma abrangência internacional.
Não desgosto do anúncio. Atendendo à sensibilidade do tema, apesar de comovente, não se desdobra em sentimentos e emoções. Apela à reflexão e à consciência. O olhar solicitado é proustiano. Prefere os pormenores aos detalhes. O todo refaz-se, não se desfaz. O todo é urdido por pontas soltas e retalhos. Desculpem este linguajar maneirista, “ao jeito italiano” (e.g. Omar Calabrese, A Idade Neobarroca, 1ª ed. 1978). Por outras palavras, o todo e as partes estão interligados: “je tiens impossible de connaître les parties sans connaître le tout non plus que de connaître le tout sans connaître particulièrement les parties” (Pascal, Blaise, Pensées, obra póstuma, 1670). O que Pascal entendeu por bem não dizer é que o todo e as partes se podem percorrer de várias maneiras: do todo para a parte, da parte para o todo, do todo para o todo, da parte para a parte e, também, por travessia. Quer-me parecer que, no anúncio, os pés descalços não são preditos pelo todo, convidam, antes, a imaginá-lo e a descobri-lo.
Anunciante: Alzheimer Portugal. Título: First Date. Agência: BBDO Milan. Direcção: Alessio Fava. Itália, Abril 2016.
A música do anúncio é um cover da canção Have You Ever Seen The Rain (1970), dos Creedence Clearwater Revival. Segue uma interpretação ao vivo.
Whiskey sábio

Auguste Piccard
Nada escapa à voracidade da publicidade. Nem sequer a ciência. O anúncio ao whiskey Hennessy reconstitui a primeira ascensão estratosférica em balão. Proeza de Auguste Piccard, físico, inventor e explorador suíço, fonte de inspiração para a personagem do Professor Tournesol, de Hergé. Cientista reputado, “cujas experiências não cabiam nos laboratórios”, consta, em cima à esquerda, da fotografia da Conferência de Solvay, em 1927, na companhia de, entre outros, Werner Heisenberg, Niels Bohr, Max Planck, Marie Curie e Albert Einstein.
Pergunto-me como, naquele tempo, sem rankings, nem factores de impacto, estes sábios conseguiram conhecer-se e encontrar-se.
Se Auguste Piccard subiu mais alto, o filho, Jacques Piccard desceu mais baixo! Foi o primeiro a atingir, em 1960, o ponto mais profundo do planeta: a fossa das Marianas (11 034 metros). O neto de Auguste Piccard , Bertrand Piccard, empreendeu, em 1999, o primeiro voo de balão à volta do mundo sem escalas (ver documentário sobre a família Piccard).
O que tem o whiskey Hennessy a ver com os Piccard? Nada, logo tudo! A publicidade é espantosa, não é?
Marca: Hennessy V.S.. Título: The Piccards. Agência:















