Um sopro de fé
Sede vós mesmos o canto que ides cantar (Santo Agostinho).
Cantar é rezar duas vezes (Atribuído a Santo Agostinho).
Diversificar é preciso. Variar a língua, a geografia e a disposição. Depois da euforia italiana do Adriano Celentano (NOSTALROCK & NOSENSERAP) e da disforia neerlandesa da Sharon Kovacs (Fragâncias do Inferno), importa mudar o ponto cardeal. Acolher o murmúrio, senão o suspiro de fé intimista, da francesa Camille.
Há tempos, aludi à guturalidade na música (Prazer gutural). Camille representa um expoente do recurso à sonoridade corporal, durante e entre notas. Em muitas das suas interpretações, o acompanhamento confina-se à pluralidade expressiva dos sons emitidos pelo próprio corpo (ver O estádio do respiro e O Capuchinho Vermelho tem medo em casa).

As cinco canções que seguem, em espanhol, foram compostas para a banda sonora do filme musical Emilia Pérez, que, estrado em maio de 2024. acumulou vários prémios: Cannes, Globo de Ouro, Critic’s Choice Awards, BAFTA, SAG Awards, Óscars…
A interpretação de Camille desvia-se do padrão habitual. O canto aproxima-se, agora, de um murmúrio sussurrado e confidente, com uma voz meiga e suave, acompanhada apenas pelo piano.
Diversificar é preciso, para encontrar um pouco. Mas não, necessariamente. para se encontrar. Não me parece que seja exequível, nem desejável. Pelo que se pressente ou anteviu, o encontro consigo que fique para o fim, para o momento em que, segundo a ars moriendi, tudo conflui em jeito de despedida. Não resulta nada preocupante continuar inacabado e irresoluto, desde que, porventura, com o cuidado de respirar uma brisa de fé.
Por uma vez, acrescento, pela qualidade da exposição e do conteúdo, a entrevista de Camille ao programa 15′ de plus, da France Inter, de 11 de outubro de 2024.
*****
Degenerescência

Vejo pouco televisão. O meu ecrã é o do computador e os canais são o YouTube ou o Prime. Mas ontem cedi à conjuntura: jogos em Camp Nou e São Bento. O Benfica perdeu e Portugal não ganhou. Mais valia ter fechado os olhos e reouvir o Ezio Bosso, compositor, pianista e maestro italiano que faleceu com 48 anos de doença neurodegenerativa diagnosticada aos 39 (ver Quando a alma fecha a porta).
| Io li conosco I domani che non arrivano mai Conosco la stanza stretta E la luce che manca da cercare dentro Io li conosco i giorni che passano uguali Fatti di sonno e dolore e sonno per dimenticare il dolore | Conheço os amanhãs que nunca chegam Conheço o quarto exíguo E a luz que não logra penetrar Conheço os dias que se repetem Repletos de sono e dor e sono para esquecer as dores |
| Ezio Bosso | Ezio Bosso (tradução livre) |
Anch’io ho fatto questa esperienza, ma la luce insisteva ad entrare da una fessura.
Artimanhas do marketing

Desencadear uma campanha negativa em torno de um produto pode proporcionar uma chave de ouro para o seu sucesso. Aconteceu recentemente com a estratégia de lançamento da série Medusa da Netflix na Colômbia. Um caso que, por acréscimo, evidencia as potencialidades das fake news.
“Medusa, la serie que expone los secretos más oscuros de una poderosa familia de Barranquilla, llega a Netflix. Por ello, Sancho BBDO realizó su lanzamiento, donde tomó un giro inesperado cuando la historia trascendió la pantalla y se convirtió en un caso “real”.
Como parte de la estrategia de lanzamiento, la agencia creó un universo donde la ficción superó la realidad con una demanda simulada que exigía a Netflix la cancelación del estreno de Medusa y, para potenciar esta estrategia contrató a Abelardo De La Espriella, el abogado más reconocido del país, para liderar dentro de la campaña de publicidad la supuesta batalla judicial. Quien gracias a su trayectoria y personalidad se convirtió en el único personaje capaz de generar el efecto deseado: “transformar el estreno de la serie en un escándalo legal que capturara la atención de todo el país”.
Así, De La Espriella asumió el rol de defensor de la familia protagonista de la serie y exigió la cancelación del estreno, argumentando que la producción vulneraba la privacidad y exponía información sensible. La exigencia de De La Espriella se viralizó en redes sociales, para activar la simulada censura de toda la publicidad exterior de la serie y que el tráiler desapareciera de plataformas digitales.
El resultado: un debate nacional, innumerables teorías sobre la identidad de la familia que intentó frenar el estreno y un tema que se convirtió en tendencia. La incertidumbre y la conversación crecieron exponencialmente, haciendo que la serie fuera más esperada que nunca.
“Cuando me propusieron el proyecto y lo estudié detenidamente, me encantó la idea de participar en una campaña tan creativa e innovadora como ficcionar una batalla judicial para promocionar una superproducción como Medusa”, expresó De La Espriella.”
Medusa se estrenó el 5 de marzo en Netflix. (https://www.adlatina.com/publicidad/nuevo-sancho-bbdo-y-netflix-transforman-una-historia-de-ficcin-en-un-caso-real).
Face a Face. Entrevista a Michel Maffesoli
Infeliz aquele que não tem mestre.
Os mestres são aqueles que nos mostram o que é possível no domínio do impossível
(Paul Valery).
Michel Maffesoli foi meu professor em 1981, o primeiro ano que deu aulas na Sorbonne e o meu último como aluno.
Festa das Varas do Fumeiro e Procissão das Chouriças
Melgaço é terra de alvarinho, mas também de fumeiro. Os seus presuntos e enchidos destacam-se entre os mais reputados do País desde há muitos séculos. A Festa das Varas do Fumeiro, em Aranhas (Penamacor), e a Procissão das Chouriças, em Valado dos Frades (Nazaré), oferecem-se como tradições inspiradoras.
Carregar nas imagens seguintes para ver os respetivos vídeos.


Dança animal na publicidade 4 e 5. Galinhas
O anúncio “French Cancan”, da empresa criadora de aves Le Gaulois, foi denunciado pela Protection Mondiale des Animaux de Ferme (PMAF) por sugerir que as galinhas são criadas num ambiente festivo, digamos numa espécie de Moulin Rouge, “o que contrasta dramaticamente com a vida sombria das galinhas criadas intensivamente em edifícios industriais”.
No anúncio “Chicken”, da Mercedes-Benz, as condições ultrapassam em exigência a dança do varão. As galinhas movem-se sem sair do sítio. Amortecem os impulsos exteriores, afastando-se apenas delicadamente uns ligeiros centímetros em torno de um ponto fixo.
Acrescento uma nota a pensar em quem se estima responsável pela saúde moral alheia. Se o primeiro anúncio sugere uma mentira que justifica censura, este presta-se a interpretações suscetíveis de lhe reconhecer ressonâncias eróticas. Pode, assim, atentar contra os bons costumes, mormente a proteção devida às crianças, cada vez mais imaginativas e sugestionáveis. Talvez seja de ponderar restringir o horário de transmissão.
Enfim, as galinhas, que cacarejam, esgaravatam, põem ovos e criam pintainhos, destacam-se como uma figura importante do imaginário infantil. Qualquer perversão corre o risco de comprometer o desenvolvimento psicossocial das crianças. Fica o desafio! O anúncio estreou há 11 anos e já ultrapassou 30 milhões de visualizações. Talvez ainda se vá a tempo de (r)emendar…
Este texto é um exemplo da deriva, ou flatulência, mental a que se pode expor um espírito ocioso.
Dança animal na publicidade 3. Girinos
Um bailado com girinos! Por que não? Em criança, como o menino do vídeo, também pasmava a observar o movimento gracioso dos ” cabeçudos” nas águas mais paradas do rego perto de casa. Vale a pena esperar 25 segundos pela espantosa coreografia coletiva que culmina o anúncio “Tadpoles”, da Freeview. A canção You Really Got Me, dos The Kinks, estreou em 1964.
Petiscos

Quando um anúncio antigo me chama a atenção, acode-me quase sempre uma dúvida: será que já o coloquei? Tenho que pesquisar para confirmar. Na verdade, o Tendências do Imaginário ultrapassa os 4100 artigos e a memória não ajuda.
Desta vez, confirma-se: já tinha publicado o anúncio “Sushi”, da Sony, em fevereiro de 2021. Mas fruto das inconstâncias e das filtragens da Internet, o vídeo está indisponível e a imagem ausente; apenas o texto e as legendas (ver https://tendimag.com/2021/02/19/a-estetizacao-dos-alimentos/). Entendo não restaurá-lo, preservando-o como testemunho da vulnerabilidade digital. Limito-me, portanto, a retomá-lo.
A estetização dos alimentos

A culinária é uma arte efémera? Existe uma estetização dos alimentos? Isto condiz com a febre de partilha de fotografias de comida na Internet? A pintura de alimentos é antiga (ver imagem). Atesta-o a quantidade de quadros com naturezas mortas. Existem excelentes anúncios com comida. O anúncio Sushi, da Sony, destaca-se. Vale a pena espreitar!
*****

Pelos vistos, tenho uma aparência de mimalho. O que não significa que dispense mimos. Talvez seja fama sem proveito! Poucas pessoas possuem consciência disso. A Beatriz é uma das excepções. Não só me visita com alguma regularidade como costuma trazer numa cesta de Capuchinho uma prenda irresistível: um belo quindim com receita à maneira. O meu bolo preferido, nem mais, nem menos!
Placebomania e Mentes Perdidas

Pasmo na varanda, um cigarro nos dedos, a ver os melros a roubar a comida do gato. O quintal parece um aeroporto. Aterram por trás do limoeiro e das hortênsias. Ali permanecem escondidos alguns segundos. Seguem-se uns saltinhos até à manjedoura. Não dispensam este ritual de abordagem, embora saibam que só correm o risco de ser capturados pelo olhar.
Neste enlevo, costumam surgir-me as ideias mais parvas.
No mundo atual, os problemas multiplicam-se, reais e graves. Mas as sociedades e as organizações democráticas parecem contentar-se com placebos. Estes “panos quentes” custam, contudo, tanto ou mais do que os remédios. Quem os suporta, os mais vulneráveis, não sente fatalmente os resultados esperados. Tudo isto é má medicina.
Como tudo me lembra alguma coisa, pensei nos Placebo. Deixei os melros sossegados, ignorei os debates da televisão a transbordar de placebos e coloquei um cd. Placebos por placebos…
Esta ideia de placebomania não passa de um exercício mental. Um convite à reflexão. Não é para engolir como comida de gato.

