A publicidade parece desinibir-se, revisitando uma vocação excêntrica algo esmorecida. Seguem 4 anúncios exemplares: uma metamorfose (Bing your saturday to live), uma disformidade (Chocolate Like Nobody’s Watching), uma paródia (Beers To Come True) e uma alegoria (Care You Can Count On).
Marca: Skoda. Título: Bring Your Saturday to Life. Agência: Selmore Amsterdam. Direção: Joe Vanhoutteghem. Países Baixos, maio 2025
Marca: Toblerone. Titulo: Chocolate Like Nobody’s Watching. Agência: LePub. Direção: Martin Werner. Itália, abril 2025Marca: Balter Brewing Co. Títulos: Beers do come true. Agência: ATime&Place. Austrália, maio 2025
Marca: Allianz. Título: Care You Can Count On. Agência: Howatson+Company. Direção: Michael Gracey. Austrália, maio 2025
Et puis je jouais avec mes pieds C’est très intelligent les pieds Ils vous emmènent très loin Quand vous voulez aller très loin Et puis quand vous ne voulez pas sortir Ils restent là ils vous tiennent compagnie Et quand il y a de la musique ils dansent On ne peut pas danser sans eux Il faut être bête comme l’homme l’est souvent Pour dire des choses aussi bêtes Que bête comme ses pied gai comme un pinson Le pinson n’est pas gai Il est seulement gai quand il est gai Et triste quand il est triste ou ni gai ni triste (Excerto do poema Dans ma maison de Jacques Prévert. Paroles. 1946)
Marca: Bruxelles Mobilité. Título: Les pieds. Bélgica, 2021
A Fátima Guimarães e a Almerinda Van Der Giezen colocaram, respetivamente, as canções “Oh Love” e “These Days” interpretadas pela norueguesa Ane Brun. Uma voz a seguir! O prazer partilhado é um regalo exponencial. Acrescento, um pouco no espírito da época, um videoclip, também da Ane Brun: “Do You Remember”. Delirante e cheio de ressonâncias, como apreciam algumas amigas.
Ane Brun – Oh Love. It All Starts with One, 2011
Ane Brun – These Days. It All Starts with One, 2011
Ane Brun – Do You Remember. It All Starts with One, 2011
Sou, afinal, uma pessoa “prendada”! A Ana Paula Alves Pinto enviou-me uma nova relíquia: Silly Symphony – Flowers and Trees, do Walt Disney, um dos primeiros filmes de animação a cores (1932). Persistem, portanto, obras magníficas que datam de há quase um século. Apoquenta-me, contudo, a impressão de que, com meios como nunca para rasgar horizontes, nos esmeramos tanto a estreitá-los.
Silly Symphony: Flowers and Trees. Por Walt Disney. 30 de julho de 1932
“Conhecemos a verdade, não somente pela razão, mas ainda pelo coração; é desta última maneira que conhecemos os primeiros princípios, e é em vão que o raciocínio, que deles não participa, tenta combatê-los (…) E é tão ridículo que a razão peça ao coração provas dos seus primeiros princípios, para querer consentir neles, quanto seria ridículo que o coração pedisse à razão um sentimento de todas as proposições que ela demonstra, para querer recebê-las.” (Pensamentos, 1669, póstumo; artigo XXII: I)
Christian Schloe. Equilíbrio (partilha de Almerinda Van Der Giezen)
Temos dedicado alguma atenção a fenómenos de mistura cultural, tais como a orientalização do tango, do flamengo ou do fado. Hoje, é a vez da “arabização da canção francesa”, em franca expansão. As “chansons orientales”, como lhes chamam os gauleses, trepam ao topo das tabelas de vendas.
A relação entre a razão e o coração é complicada. A canção Le Coeur et la Raison realça o respetivo confronto. Lynda Sherazade, francesa de origem argelina, é a compositora e intérprete. A reedição em 2022 do primeiro álbum, Papillon, foi disco de platina e o último, Un peu de moi, lançado em abril de 2023, ascendeu ao nono lugar da tabela de vendas.
Goste-se ou não, estes híbridos têm o condão de nos aliviar do enjoo proporcionado por uma navegação cada vez mais orientada por integralismos e maniqueísmos.
Lynda Sherazade. Le Coeur et la Raison. Un peu de moi. 2023
Le Coeur et la Raison
J’ai laissé mon cœur parler Lui qui n’est pas facile J’l’ai laissé faire ce qu’il voulait Mais il fonce tout droit comme un imbécile Oui, il s’est mis à nu Il croit toujours au grand amour comme dans les films Il oublie ses blessures Il s’attend jamais au pire
Quand il aime, il est dépendant, ce fou devient accro Quand il aime, il est aveugle, il efface tous les défauts Quand il aime, il est égoïste, n’avance qu’en solo Quand c’est trop tard, c’est la raison qui soigne tous les bobos
Faut qu’j’me décide et ça fait mal Faut s’y tenir J’en ai marre, de faire des choix Faut qu’j’me décide et ça fait mal Choisir entre le cœur ou la raison J’suis pas capable
J’ai laissé la raison parler Elle qui ne lâche rien N’attend jamais d’être blessée Elle, elle pense au lendemain Agit à contre-cœur parfois Pour éviter les erreurs Elle connaît sa valeur Donc elle sécurise le cœur
Elle est forte et elle fait attention à tout Elle supporte, elle encaisse même tous les coups Elle le sait, ouais, souvent les histoires sont sans issue Quand elle s’emporte, le cœur est toujours là au rendez-vous
Faut qu’j’me décide et ça fait mal Faut s’y tenir J’en ai marre, de faire des choix Faut qu’j’me décide et ça fait mal Choisir entre le cœur ou la raison J’suis pas capable Faut qu’j’me décide et ça fait mal Faut s’y tenir J’en ai marre, de faire des choix Il faut qu’j’me décide et ça fait mal Choisir entre le cœur ou la raison J’suis pas capable
Le cœur ou la raison, le cœur ou la raison Le cœur ou la raison, le cœur ou la raison Oui, le cœur ou la raison Le cœur ou la raison, le cœur ou la raison
À barca, à barca, senhores! Oh! que maré tão de prata! Um ventozinho que mata E valentes remadores! … À barca, à barca segura, Barca bem guarnecida, À barca, à barca da vida! (Gil Vicente)
Antepassados do Surrealismo: o Maneirismo é o meu vídeo mais extenso e, porventura, predileto. Também é aquele a que mais me entreguei. Cristaliza anos de estudo e investigação. Não está perfeito, mas dou por encerrado o capítulo. Cada novo retoque implica horas de renderização. Esta versão aumentada inclui, no início, a curta-metragem Destino, idealizada por Salvador Dalí e Walt Disney, e, no fim, a apresentação Maniera: A Arte do Artista, entretanto produzida. Trata-se da minha rosa mais recente. Com pétalas, folhas e espinhos. Não é uma mercadoria mas possui o seu valor, e está ao alcance de todos e de ninguém em particular.
Após quatro meses de esforços e contratempos, o vídeo com a conversa Os antepassados do surrealismo: os maneiristas está disponível na Internet. Exigiu tanta dedicação que se tornou numa das minhas rosas. Não ouso convidar a assistir às quase duas horas. Quando muito, um breve relance, de preferência a uma das seis apresentações incorporadas. Sei que todos andam ocupados a cuidar de outros jardins.
O vídeo ganha em ser visualizado em alta resolução (1980p).
Antepassados do surrealismo: o maneirismo, por Albertino Gonçalves. Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa, em Braga, 27 de maio de 2023.
A universidade sofreu uma viragem no crepúsculo do segundo milénio. Os novos modos e as novas metas dos circuitos académicos não condizem nem com a minha formação nem com a minha vocação. Entre outros aspetos, incomoda-me ter que pedir, senão pagar, a estranhos para publicar. Nesses termos, perdi o interesse em publicar. Continuei a escrever mas relatórios de investigação/ação ou por convite, sem esquecer os apontamentos no blogue Tendências do Imaginário, um monstro híbrido de cultura e lazer, criado em 2011.
Não deixei, contudo, de investigar. Pelo contrário. Gosto de comunicar e ensinar, mas prefiro descobrir e aprender. A vida é um bom mestre. Ensinou-me, entretanto, que sou mortal. Tomei consciência de que boa parte dos conhecimentos que fui amealhando, dispersos em discos digitais, arriscam desparecer comigo. Pequeno ou grande, trata-se de um desperdício.
Capacitei-me da responsabilidade de cuidar da partilha. Optei, quase exclusivamente, por duas vias (alternativas aos blogues Tendências do Imaginário e Margens): a publicação de livros e a comunicação oral. Os livros são obras de Santa Engrácia. As comunicações costumo não as repetir, nem sequer as apresentações de livros. Em suma, grande vontade mas parcos os meios: para cada assunto, uma única comunicação, num dado local e data, perante um público reduzido. A passagem de testemunho reduz-se, portanto, a um momento pouco participado.
Posso não aderir a todas as mudanças, mas não me estimo retrógrado. Procuro aproveitar as novas tecnologias, designadamente, de informação e comunicação, que proporcionam um arremedo de solução para o afunilamento da partilha: filmar as conversas e disponibilizá-las na Internet. Assim sucedeu com as conversas O Olhar de Deus na Cruz: o Cristo Estrábico (29-11-2022) e Vestir os Nus: Censura e Destruição da Arte (18-02-2023), embora com insuficiente qualidade. Com um pouco mais de profissionalismo, resultou mais cuidado o registo desta última conversa.
Destino é uma curta-metragem animada da Disney estreada em 2003. Foi, no entanto, concebida por Walt Disney e Salvador Dalí. Vídeo fabuloso de inspiração surrealista, a sua projeção abriu a conversa Antepassados do Surrealismo: o Maneirismo. Estando em curso a montagem do vídeo da conferência, a sua incorporação no Tendências do Imaginário resulta oportuna. Fica, de algum modo, arquivada.
Destino. Curta-metragem. Estúdios Walt Disney. 2003. Animação concebida por Walt Disney e Salvador Dalí em 1945
Nas pinturas que Jacopo [Pontormo] tinha até então executado na capela, quase parecia ter regressado ao seu estilo inicial, mas não o fez na pintura do retábulo, que, a pensar em novas ideias, concluiu sem sombras e com uma coloração tão clara e harmoniosa que dificilmente se consegue distinguir a luz do que está parcialmente sombreado e o que está parcialmente sombreado das sombras. Esta pintura em painel contém um Cristo Morto deposto da cruz para ser conduzido para o túmulo; no quadro, Nossa Senhora desfalece, na presença das duas Marias, que são concebidas de uma forma tão diferente das primeiras que pintou que se vê claramente como este génio sempre investigou novos conceitos e formas extravagantes de trabalhar, nunca ficando satisfeito com nenhum. Em suma, a composição deste painel é completamente diferente das figuras da abóbada, e também a coloração (…) Na parede com a janela, estão duas figuras em afresco, ou seja, de um lado a Virgem e do outro o anjo que faz a anunciação, mas ambas estão torcidas ao jeito (…) da fantasia bizarra deste génio que nunca se contentava com nada suscetível de ser reconhecido. E para conseguir fazer as coisas à sua maneira, sem ser incomodado, nunca aceitou que ninguém, nem o próprio patrono, visse a obra enquanto a estava a pintar. E tendo-a, assim, pintado à sua maneira, sem que nenhum dos seus amigos lhe pudesse apontar nada, foi finalmente exposta e vista com espanto por toda Florença (Giorgio Vasari. “Jacopo da Pontormo”, The Lives of the Artists (1ª ed. 1550). New York. Oxford University Press. 1991. pp. 408-409).
O maneirismo, menosprezado durante séculos, resulta pouco conhecido. Trata-se, porém, de um dos estilos mais inovadores e ousados da história da arte. Sendo raras as publicações que lhe são consagradas, o vídeo Maniera – A Arte do Artista, uma amostra anotada de obras, representa um contributo, contanto modesto. O fundo musical é composto por folias, tipo de dança de origem portuguesa em voga no século XVI).
Acompanham o vídeo um apontamento, para contextualização, e uma galeria com uma seleção de imagens, para melhor visualização e eventual descarga.
Maniera: A Arte do Artista, por Albertino Gonçalves, julho de 2023
Faltou à conversa “Os Antepassados do Surrealismo: o Maneirismo” (Braga, 27 de maio de 2023) uma apresentação genérica dedicada ao maneirismo, correspondente à que foi projetada para o surrealismo. Segue uma espécie de justificação autocrítica escrita no dia seguinte.
Ontem teve lugar a conversa “Antepassados do Surrealismo: o maneirismo”. Estavam previstos 60 minutos, durou 2 horas. Mais do que riqueza, este prolongamento revelou impreparação. Se tivesse ensaiado antes, teria cortado algumas partes e abreviado outras. A justeza, a fluidez e a naturalidade constroem-se, treinam-se e testam-se.
O que aconteceu? Uma notícia intempestiva corroeu a motivação: os jogos do F.C. Porto e do S.L. Benfica, em que se decidia o campeonato, foram remarcados coincidindo com a conversa. Manifesta-se difícil imaginar maior desvio de público. Este percalço irritou-me. É certo que a vida é feita de acidentes de percurso. Faltavam cinco dias e a divulgação já estava em curso. Sensível a contrariedades imponderadas, embirrei e bloqueei. Uma conversa não se justifica se não partilhar algo de original. Não é óbvio partilhar sem público. Acresce o combustível do prazer. Estavam em causa a partilha e o prazer.
Capaz de me entregar sem reservas a um desafio, também me desligo ao mínimo estorvo ou desagrado. A conversa ganhava naturalmente com uma seleção de imagens dedicada ao maneirismo em geral. Tarefa que pouco estimulante, releguei-a para o fim. Com o contratempo do futebol, se pouco me entusiasmava, deixou de o fazer. Amuei e passei a dispensar. Como pitada de indulgência, convenha-se que, atendendo à diversidade, complexidade e dificuldade de descodificação das obras maneiristas, uma mera projeção abreviada de uma dúzia de imagens arriscava revelar-se incipiente e, porventura, mais confusa do que esclarecedora. Quando o público acusou a falta dessa apresentação, a resposta foi imediata, desconcertante e honesta: talvez houvesse interesse, mas não vontade.
Em suma, procedi mal! Tanto a conversa como o público mereciam algumas horas de dedicação adicional. Nem sempre sou racional. Acontece-me ser improcedente, inconstante, caprichoso e casmurro. O público merecia, de facto, melhor. Apesar das circunstâncias adversas, marcou presença, resistindo à sereia da bola. Repito, merecia melhor, sobretudo menos quantidade e mais qualidade. Mas, pelos vistos, ainda queria mais!
Há males que vêm por bem! Atendendo à urgência, a apresentação a devido tempo sobre o maneirismo seria breve, pouco original e de pouco alcance, à semelhança, aliás, da dedicada ao surrealismo. Com um sentimento de culpa, acabei por encará-la como uma penitência; e o que era para despachar em cinco dias demorou quase quinze semanas. Creio que valeu a pena. Adiar pode compensar!