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O jardim das verduras inadiáveis

A Marta Carvalho enviou-me o anúncio “Bok Choy/Garden of Doom”, da Thai Health Promotion. Agradeço sobremaneira porque resulta difícil encontrar uma curta-metragem mais delirante, ousada e polissémica. Já a tinha colocado no Tendências do Imaginário em 2019 (Verdura fora de época). Não obstante, continua digna de ser (re)revista.

Imagem: Bok choy ou acelga chinesa

Marca: Thai Health Promotion Foundation. Título: Bok Choy/Garden of Doom. Agência: The Leo Burnett Group Thailand. Suthon Petchsuwan. Tailândia, Novembro 2019.

Anúncio português vintage 3. Abençoado preservativo

Em 1995, o contágio pelo vírus da sida entra no seu auge e o preservativo impõe-se como um imperativo prioritário. Ter relações sexuais com uso de preservativo é encarado como um “pecado” que não merece punição. Assim (a)parece no anúncio “Padre”, da campanha Anti sida. [Carregar na imagem para aceder ao vídeo]

Anunciante: Anti sida. Título: Padre. Agência: TBWA / EPG (Lisboa). Direção: Jorge Castro. Portugal, 1995

Anúncio português vintage 2. Lápis

Nos anos noventa, multiplicam-se os anúncios alegóricos minimalistas. “Lápis”, da Campanha de Segurança Rodoviária, ilustra, de forma paciente e didática, os riscos irrefletidos da condução sob efeito de álcool.

Anunciante: Campanha de Segurança Rodoviária. Título: Lápis / Se conduzir não beba. Portugal, 1985

Anúncios de arrepiar

Brinquemos aos disparates!

Se existem profissionais cuja capacidade de aprendizagem admiro são os médicos. Mas, até entre os mais dotados e afoitos, a aprendizagem pode enredar-se num qualquer nó. Talvez seja o caso do “sistema” [informático], mais mecânico do que orgânico. Por trágica ironia, quando se começa a dominar o “sistema”, logo o dito cujo cuida de mudar.

Por seu turno, os sociólogos comprazem-se a desatar nós. Desconstroem-nos, “reformando ilusões”. No conhecimento sociológico proliferam, portanto, as pontas soltas. Entre enlaces e desenlaces, o diálogo entre médicos e sociólogos pode ser edificante. Mesmo quando é questão do senso comum sábio acerca dos malefícios mais que evidentes do tabaco.

Imagem: Kamal Gurung, Lalitkala Fine Art Campus. Kathmandu, Nepal

Tenho sugerido que a publicidade de consciencialização varia geograficamente. O Ocidente tende a apostar no sério realista assustador, o Oriente, no humor delirante persuasivo.

O anúncio português “Heavy Silence”, sobre o risco de afogamento, segue a regra; já o anúncio tailandês “Park”, sobre os perigos do cigarro eletrónico, afasta-se da tendência oriental. A fantasia e o riso congelam dando lugar ao drama. Pelos vistos, a adesão dos jovens ao cigarro eletrónico assevera-se particularmente alarmante.

Anunciante: APSI (associação para a promoção da segurança infantil). Título: Heavy Silence. Agência: Havas Worldwide Portugal. Portugal, julho 2022
Anunciante: Thai Health Promotion Foundation. Título: Park. Agência: Grey Thailand. Direção: Suthon Petchsuwan. Tailândia, agosto 2025

Verde que te quero verde

A morte de um jardineiro não lesa a árvore. Mas se ameaçares a árvore, então o jardineiro morre duas vezes (Antoine de Saint-Exupéry, Citadelle, 1948)

A presente onda de calor lembra-me três anúncios dedicados aos riscos de desflorestação. O primeiro, “Refugee Tree”, brasileiro, é promovido por organismos estatais (The Climate Reality Project Brasil, GT.INFRA e ENGAJAMUNDO), o segundo, “Weird Search Requests”, internacional, pela plataforma privada Ecosia, e o terceiro, “EcoAlarm”, pela parceria público privada entre a fundação argentina Banco de Bostes e a Spotify.

Total de incêndios em Portugal. Fonte – FOGOS.pt

Segundo a FAO, entre 2010 e 2020, o planeta sofreu uma perda líquida cerca de 4,7 milhões de hectares de floresta por ano. Em contrapartida, no mesmo período, a Europa, incluindo a Rússia, conheceu um aumento líquido da área florestal de cerca de 0,3 milhões de hectares por ano. Em Portugal, a cobertura não está a diminuir significativamente, mas a qualidade e a resiliência dos ecossistemas florestais estão a degradar-se, devido, sobretudo, aos incêndios e à expansão da monocultura, designadamente, do eucalipto.      

Anunciante: The Climate Reality Project. Título: Refugee Tree. Agência: Africa DDB Sao Paulo. Brasil, 2021
Anunciante: Ecosia. Título: Weird Search Requests. Produção: Filmacademy Baden-Württemberg. Direção: Sandro Rados. Internacional, 2021
Anunciante: Banco de Bostes / Spotify. Título: EcoAlarm. Argentina, 2017

Orientação

Thai Health Promotion Foundation. Super Ant. Tailândia, março 2025

Como são diferentes as campanhas de saúde pública no “Oriente” e no “Ocidente”! Nas primeiras, os anúncios apostam no humor e no envolvimento, como na seguinte paródia contra o excesso de consumo de açúcar; as segundas, na severidade e na estigmatização, como, por exemplo, contra o consumo de tabaco e de álcool. Talvez seja de considerar um pouco de “orientação”.

Anunciante: Thai Health Promotion Foundation. Título: Super Ant. Agência: Leo Burnett Thailand. Direção: Suthon Petchsuwan, Tailância, Março 2025

Frustrações e alívios

O triunfo da Internet comporta alguma desilusão e inquietação. Se o anúncio El Camino , da Fundación Contradicción chilena, alerta para a propagação dos jogos online e consequente ludomania, o anúncio “Social Off Socials”, da Heineken, prime uma tecla demasiado batida: os riscos de isolamento e solidão associados ao (sobre)envolvimento nas redes sociais, aproveitando para realçar a importância dos redutos de socialização presencial, tais como os bares.

A Internet não tem só inconvenientes. Graças a ela, saltamos, num ápice, do Chile para a Índia, e da Índia para a Itália. Mas sem bilhete da sorte para uma viagem afortunada (Lucky Yatra). Quem saltita e se dispersa multiplica e diversifica pontes e fontes.

Marca: Heineken. Título: Social Off Socials. Agência: LePub Milan. Direção: Bradley & Pablo. Itália, abril 2025

Os pés

René Magritte. Le Modèle Rouge. 1935

Et puis je jouais avec mes pieds
C’est très intelligent les pieds
Ils vous emmènent très loin
Quand vous voulez aller très loin
Et puis quand vous ne voulez pas sortir
Ils restent là ils vous tiennent compagnie
Et quand il y a de la musique ils dansent
On ne peut pas danser sans eux
Il faut être bête comme l’homme l’est souvent
Pour dire des choses aussi bêtes
Que bête comme ses pied gai comme un pinson
Le pinson n’est pas gai
Il est seulement gai quand il est gai
Et triste quand il est triste ou ni gai ni triste
(Excerto do poema Dans ma maison de Jacques Prévert. Paroles. 1946)

Marca: Bruxelles Mobilité. Título: Les pieds. Bélgica, 2021

Por uns fios. A importância dos laços sociais

Brilhante, comovedora e cortante curta-metragem (anúncio de sensibilização) acerca do papel das empresas na luta contra o cancro.

Anunciante: Cancer@Work. Título: Strings. Agência: Publicis Conseil. Direção: Niclas Larsson. França, fevereiro 2025

Salvem as crianças!

Mas as crianças, Senhor, porque lhes dais tanta dor?!… (Augusto Gil. Balada da Neve. Luar de Janeiro, 1909)

“Há mais de 100 anos, em 1919, uma mulher chamada Eglantyne Jebb [1876-1928] fundou a Save the Children em resposta ao sofrimento que as crianças enfrentavam como resultado da Primeira Guerra Mundial. / Eglantyne Jebb mudou o curso da história quando declarou que todas as meninas e meninos deveriam ter direitos. Esta ideia, avançada para o seu tempo, desencadeou um movimento global para tornar o mundo um lugar melhor para as crianças. Eglantyne apresentou a primeira Declaração Universal dos Direitos da Criança na Liga das Nações, documento que serviu de base para a criação da Convenção sobre os Direitos da Criança.”

Despertei com o anúncio “Fer” da Saven the Children, do México. Extenso e lento (dura mais de 6 minutos), algo enigmático (desconhece-se, até ao final, o motivo), nem sempre lógico (por que se deixa crescer tanto o cabelo?), faz todo o sentido: ” Desde el embarazo infantil hasta el feminicidio, las niñas viven con miedo en lugar de tener la libertad para crecer y desarrollarse plenamente”.

Anunciante: Save the Children Mexico. Título: “Fer”. Agência: Anónimo Agencia. México, novembro 2024