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Com o Filho no Colo

Relevo da Virgem com o Menino. Florença, ca. 1420. Christie’s

Alguém se lembra da conversa “O olhar de Deus na cruz. O Cristo Estrábico”? Foi há quase dois anos, no dia 29 de novembro de 2022, no Auditório do Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa. Convido-os, hoje, a observar os olhos da Virgem e do Menino neste relevo do primeiro quartel do século XV. A próxima conversa incidirá, precisamente, sobre Maria. O título será aproximadamente o seguinte: “Com o Filho no Colo. Naturalismo e Simbolismo nas Esculturas da Pietà”. Até breve!

Relevo da Virgem com o Menino. Florença, ca. 1420. .Christie’s. Detalhe.

Novo livro sobre André Soares para público infantojuvenil

Na próxima quinta ocorre o lançamento do novo livro de Eduardo Pires de Oliveira. Nada de extraordinário. O Eduardo não para de escrever e publicar textos. Mas, desta vez, resulta diferente. Dedicado à vida e à obra de André Soares e destinado a um público infantojuvenil, o autor assume o o desafio de propiciar uma leitura acessível, “amigável”. Admito aguardar com bastante curiosidade a apresentação para descobrir a solução adotada. Tenho, portanto, encontro marcado às 11 horas do dia 7 de novembro no Auditório Braga Simões da Escola André Soares.

Banda filarmónica em hotel do Peso

Anúncio do Grande Hotel Pezo (Ranhada)

Ao Valter Alves

Hoje, domingo, deu-me para arrumar um disco duro. Abri uma pasta cujo nome não me permitia adivinhar o conteúdo. Surpreenderam-me várias imagens das Termas do Peso, provenientes do Arquivo Municipal de Paredes de Coura, cujo conhecimento me foi proporcionado, há bastante tempo, por uma amiga, a Fátima Cabodeira. Retenho, em particular, duas fotografias antigas com uma banda filarmónica, durante a monarquia, a julgar pelas bandeiras, num dos hotéis, creio que o Novo Hotel Quinta do Pezo (Figueiroa), da autoria do fotógrafo Adolfo Gonzalez, de Entrimo. Talvez o Válter Alves queira acrescentar mais informação.

Hotel. Peso. Fotografia de Adolfo Gonzalez

A Semente e o Caroço

Serões dos Medos. Melgaço, 18 de outubro de 2024

Sexta 18, desloquei-me a Melgaço para os Serões dos Medos. Parti de Braga com o receio de um decréscimo da afluência e da participação do público. O tema, possessões e bruxarias, parecia apontar nesse sentido.

Os acompanhamentos noturnos, em 2022, e os prenúncios de morte, em 2023, remetiam para fenómenos e protagonistas do Além, sobretudo do mundo dos mortos. Os vivos eram meras testemunhas, quando muito vítimas, nos casos raros de acompanhamentos mais “agressivos”. As possessões e as bruxarias podem comportar uma marca surreal, mas pertencem a este mundo, o dos vivos. São agenciadas e experienciadas “aquém” por “nós”.  Acontece com os exorcismos, os esconjuros, as bruxarias e os feitiços. Mobilizamo-nos para combater o mal presente, os espíritos e os sortilégios. Acredita-se, recorre-se e (per)segue-se. Benzemos, salgamos e queimamos. Experiências pessoais dramáticas e íntimas, que exigem reserva e segredo. A própria palavra faz parte do fenómeno. Não admira que se observe uma propensão para o silêncio, para ocultar estes fenómenos e experiências.

Serões dos Medos 2024. Exposição de cartazes e imagens de filmes

O receio da falta de público depressa se dissipou. O número de pré-inscrições depressa superou as expectativas mais optimistas. Voltou a ser necessário alterar os planos. Tínhamos previsto um espaço a condizer com a afluência do ano anterior. Decorado a preceito, incluía uma “instalação” e uma exposição de cartazes e imagens de filmes emblemáticos provenientes do Museu do Cinema. Tivemos, porém, que prescindir dessa solução. Impunha-se o recurso ao auditório.

Mal acabou a intervenção introdutória do Luís Cunha, o público não se fez rogado; a eventualidade de uma retração suplementar desvaneceu-se. O ambiente de confiança e partilha, com empatia e respeito, depressa se aproximou do nível dos encontros precedentes. Interessadas e envolvidas, as pessoas sentiram-se suficientemente à vontade para intervir e se abrir. E, embora o tema fosse mais delicado, não faltaram testemunhos na primeira pessoa. Sucederam-se momentos mental e emocionalmente únicos e densos cuja dinâmica rondou, por vezes, a terapia social.

A conversa terminou perto da meia noite. Duas horas e meia bem passadas que não esgotaram a matéria, nem o interesse ou a disponibilidade para continuar o diálogo. Os derradeiros momentos não representaram um fecho ou uma conclusão, mas antes abertura e, de algum modo, antecipação. Surpreenderam-se casos suscetíveis de inspirar e animar a próxima edição, esboçando novos mapas, caminhos e companhias. Ficou a porta aberta!

Serões dos Medos 2024. Auditório

Saio sempre destas moderações com a impressão desconfortável de que, por vezes, teria ganho em falar menos. Calado, os outros teriam desfrutado de mais tempo e oportunidade para intervir. Iludo-me, contudo, com algumas dúvidas acerca desta mecânica da comunicação. As ideias e a respetiva circulação não obedecem ao princípio dos vasos comunicantes nem relevam da geração espontânea. Carecem de motivação e orientação. Importa, por exemplo, complementar uma dada intervenção, para a reconhecer e valorizar; sugerir tópicos, para sondar e estimular novos contributos; matizar, para evitar desequilíbrios, por exemplo, nem só ciência, nem só crença. Pode ainda resultar útil introduzir quebras de pausa e descontração, para restauro e relançamento. Certo é que não ocorreram vazios a preencher ou disfarçar. A palavra nem sempre é excesso e ainda menos desperdício. Como diria John Langshaw Austin, as palavras ajudam a fazer, a acontecer.

De qualquer modo, o incómodo desta autocrítica acaba por ser um bom sinal. Sinal da qualidade e da potencialidade do protagonismo da assistência. O que é deveras importante. O sucesso dos Serões dos Medos deve-se principalmente à adesão e ao desempenho do público. Acresce um bom augúrio: a presença de jovens é cada vez mais expressiva.

É um desafio aliciante e um prazer imenso trabalhar com a equipa responsável pelos Serões dos Medos. Precisamente a mesma do Cortejo Histórico, de há dois meses, e do Boletim Cultural, que, já impresso, aguarda o lançamento.

Após quarenta anos de academismos, sabe bem trabalhar assim, a criar, plantar e regar sementes em vez de engolir caroços. A colaboração com o Município de Melgaço tem praticamente a mesma antiguidade. O que é obra, atendendo ao meu instinto de borboleta e à diversidade de jardins de tentação.

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Acontece não me inclinar para nenhum tipo de música em particular. Clássica, pop, rock, blues ou jazz, vocal ou instrumental, rimada ou melodiosa, tanto faz! Tiro à sorte das prateleiras dos CDs. Seja qual for o eleito, pelo menos gostei dele quando o adquiri. Calhou uma coletânea de baladas do duo sueco Roxette. À vocalista, Marie Fredriksson, foi-lhe diagnosticado um tumor cerebral em 2002. Faleceu em 2019 com 61 anos de idade. Seguem quatro hits: A Thing About You; It Must Have Been Love; Listen To Your Heart; e Queen Of Rain. Escrevi o presente texto a escutar estas canções. Não condiz a letra com a caneta. Ditosa incongruência!

Roxette – It Must Have Been Love. It Must Have Been Love, 1987
Roxette – Listen To Your Heart. Look Sharp!, 1988
Roxette – Spending My Time. Joyride, 1991
Roxette – Queen Of Rain. Tourism, 1992

Os Serões dos Medos. Noite dos Medos Melgaço 2024

Avec son air très naturel, le surnaturel nous entoure / Com o seu ar muito natural, o sobrenatural rodeia-nos (Jules Supervielle. Le Jeune Homme du Dimanche. 1952)

Os serões dos medos dos últimos anos foram fantásticos, inesquecíveis. Graças à afluência e participação do público que os animou e enriqueceu com os seus conhecimentos e testemunhos pessoais. Depois de “Coisas do outro mundo”, em 2022, e “Prenúncios de Morte”, em 2023, o tema deste ano, “Possessões & bruxarias”, também promete. A conversa terá início às 21 horas do dia 18 de outubro na Casa da Cultura. Acresce o valor e o prazer da companhia do colega e amigo Luís Cunha.

Em Coisas do Outro Mundo. 2022

Segue, em pdf, o programa da Noite dos Medos 2024, acompanhado por duas interpretações da canção Ronda das Mafarricas: a original do José Afonso e a versão dos Moura, da Corunha.

Moura – Ronda das Mafarricas. Moura. 2020
José Afonso – Ronda das Mafarricas. Cantigas do Maio. 1971

Lenda da Senhora da Orada. Cortejo Histórico de Melgaço 2024

Lenda da Senhora da Orada. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Município

As coisas que temos de aprender antes de fazer, aprendemo-las fazendo-as – por exemplo, os homens se tornam construtores construindo, e se tornam citaristas tocando cítara; da mesma forma, tornamo-nos justos praticando atos justos, moderados agindo moderadamente, e corajosos agindo corajosamente (Aristóteles. Ética a Nicômacos. Livro II, 1103b. Trad. de Mário da Gama Kury. Brasília, Editora Universidade de Brunia, 1985).

Dos temas para o cortejo histórico de Melgaço de 2024, a lenda da Senhora da Orada foi o primeiro a surgir, tendo sido adotado sem hesitação.
Convocava, antes de mais, um notável património cultural imaterial exclusivo do concelho.
Mas também envolvia vários elementos importantes do património histórico material local. A inserção no cortejo permitiria divulgá-los.

Fotografia – Miguel Bandeira

Por outro lado, reunia potencialidades de caraterização, encenação e interpretação suscetíveis de interessar, atrair e entusiasmar tanto os participantes como os espetadores.

Por último, tanto a distribuição por determinadas freguesias como a respetiva adesão e empenho não comportavam incertezas e obstáculos relevantes.

Lenda da Senhora da Orada. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Município

Antiga, a lenda da Senhora da Orada tem raízes seculares. Remete para um surto de peste ocorrido no século XVI. Embora associada à respetiva capela em Melgaço, o enredo envolve populações de outros concelhos.

Segue uma reprodução integral da lenda, precedida por um breve resumo:

Em 1569, grassava a peste. Tomé, alcunhado o Vira-pipas por andar sempre alcoolizado, cuidava da capela da Senhora da Orada. Certa manhã, surpreendeu-o a ausência da imagem da Senhora. Tê-la-iam roubado? À noitinha, voltou com um amigo para testemunhar o incidente; a Senhora estava, para sua surpresa, no seu lugar. O Vira-pipas até deixou de beber, mas o fenómeno repetia-se: a Senhora ausentava-se de madrugada e regressava ao anoitecer. Temendo o ridículo, guardou segredo.
Entretanto, a uma vintena de km, em Riba do Mouro, apareceu uma dama que se empenhava a cuidar dos doentes. Vinha de manhã e despedia-se ao anoitecer. Passada a epidemia, constatou-se a inexistência de vítimas na freguesia e reconheceu-se a semelhança entre a dita dama e a imagem da Senhora da Orada.
Os testemunhos do Vira-pipas e de Riba de Mouro cruzam-se. Tudo aponta para a intercessão milagrosa da Santa. Como agradecimento, o povo de Riba de Mouro compromete-se a vir todos os anos em clamor à capela da Senhora da Orada.

Lenda da Senhora da Ourada

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Esta lenda envolve um património material histórico notável.
Em primeiro lugar, a capela, um monumento nacional de estilo tardo-românico, cuja construção teve início em 1245, em local onde, presumivelmente, já existia um eremitério, referido em documento de 1220. Em 1166, a Orada já é mencionado numa “doação a favor do Mosteiro de Fiães pela Condessa Froila [Fronilla]”:

Fotografia: Miguel Bandeira

A Condeça Dona Fronilla deu a este Mosteiro, & ao seu Abbade João em Janeiro do anno 1166, a quinta de Cavalleiros junto de Melgaço, cousa boa, particularmente de vinhas : & entendemos que com ella lhe daria tambem a Igreja de Nossa Senhora da Oráda alli pegado, que os Frades dizem foy Mosteiro de S. Bento, & fundado quando se edificou o de Feaens, de que veyo a ser Priorado : outros dizem (o que tenho por mais certo, & alguns sinaes mostra para isso) que foy de Cavalleiros Templarios, de que esta quinta tomou o nome, & era passal seu. Pouco ha se lhe vião ruínas de cellas, claustros, & canos de pedra, pelos quaes lhe vinha agua  (P. Antonio Carvalho da Costa, Corografia Portugueza, e Descripçam Topografica do Famoso Reyno de Portugal,Tomo Primeiro, 1ª edição em 1706, 2ª edição, Braga, Typographia de Domingos Gonçalves Gouvea, 1868. p. 259).

Válter Alves, a propósito da proveniência e significado do nome Orada, releva um número apreciável de referências à palavra em documentos dos séculos XII e XIII [As origens da Orada (Melgaço) – algumas notas para discussão, Melgaço, entre o Minho e a Serra: https://entreominhoeaserra.blogspot.com/2023/08/as-origens-da-orada-melgaco-algumas.html%5D.

Lenda da Senhora da Orada. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Município

Próximo da capela, com uma vista ampla sobre o rio Minho, ergue-se o Cruzeiro da Orada: “Datado de 1567 ele é um ex-voto dos melgacenses daquela era, ali colocado naquele ano de peste, para agradecer a Deus ter poupado Melgaço aos seus horrores ou a pedir um Pai nosso por alma dos ceifados por ela nestas redondezas” [Obras completas de Augusto César Esteves. Vol. I. Tomo 2. Melgaço: Câmara Municipal de Melgaço, p. 552]. Repare-se que a construção deste cruzeiro precede dois anos a data apontada na lenda.

Perto, situa-se a pequena capela de São Julião. “As primeiras referências ao edifício datam da primeira metade do século XIII e indicam que, neste local, ou anexo a ele, existia uma gafaria, que funcionava como local de acolhimento no caminho entre a vila de Melgaço e a ermida de Nossa Senhora da Orada” (https://servicos.dgpc.gov.pt/pesquisapatrimonioimovel/detalhes.php?code=73898). Destinado a leprosos (denominados também gafos ou lázaros), ter-se-ia chamado Hospital de São Gião (A Gafaria de Melgaço. melgaçodomonteàribeira, 06.04.13: https://iasousa.blogs.sapo.pt/99284.html).

Por razões práticas e simbólicas, os edifícios religiosos e as gafarias costumavam localizar-se junto a nascentes e cursos de água. Entre as capelas da Nossa Senhora da Orada e de São Julião existe uma nascente cuja importância justificou a construção de uma fonte imponente na segunda metade do século XVIII. Terminada em 1780, foi financiada por João Pedro de Sá, juiz de fora de Melgaço, com o apoio de vários donativos de famílias aristocráticas locais. Com uma planta retangular e corpo de cantaria de granito, o espaldar, de estilo barroco, apresenta-se generosamente decorado. Conhecida como fonte de São João, foi transferida em 1903 para a atual Praça da República.

Trilho entre a Fonte de S. João e a Capela da Orada. A partir de Wikiloc. Camiñando por Melgaço (Portugal)

O antigo e o atual lugares da fonte de São João, a capela de São Julião, a capela e o cruzeiro da Orada estão interligados por um percurso curto, fácil e agradável, que ganharia, no meu entendimento, em ser promovido como um trilho temático.

A devoção à Nossa Senhora da Orada estende-se de Norte a Sul de Portugal, do Alto Minho ao Algarve. Existem, por exemplo, santuários em Vieira do Minho e São Vicente da Beira, igrejas em Sanfins, Sousel e Borba, capelas em Cabeceiras de Basto e Ferreira do Zêzere e uma ermida em Albufeira. A capela da Senhora da Orada de Melgaço é, contudo, a mais antiga.

Fotografia – Município

Também coexistem diversas lendas. Mas muito distintas da lenda de Melgaço. Por exemplo, Vieira do Minho e São Vicente da Beira partilham uma mesma lenda, que envolve meninas inocentes e serpentes:

Uma jovem surda-muda que de um dia para outro começou a crescer-lhe a barriga, tudo fazendo crer que estava grávida (…) Como não era casada, a jovem foi fortemente condenada pela comunidade e pelos pais, que não hesitaram em castigá-la severamente. A jovem, que por ser muda, não se podia defender, foi expulsa de casa dos seus pais e levada para um bosque fora da povoação, onde se situa hoje o santuário da Senhora da Orada. Neste degredo e perante o desespero, a jovem suplicava noite e dia pela proteção divina. No meio desta angustiante súplica de oração, apareceu-lhe Nossa Senhora que mandou a jovem procurar um recipiente e um pouco de leite e se debruçasse sobre ele. Nesse instante saiu pela boca uma enorme cobra, que tinha sido ingerida pequenina quando a jovem bebeu água num riacho. (…) Para a jovem, e depois para a comunidade, isto foi considerado um milagre. A rapariga foi perdoada e regressou para casa. Querendo saber como poderia agradecer tal benesse, Nossa Senhora voltou a aparecer à jovem surda-muda e pediu-lhe que lhe construíssem uma capela onde tinha acontecido o milagre (José Carlos Ferreira, Francisco de Assis, Património de Vieira, Vieira do Minho, Câmara Municipal de Vieira do Minho e Empresa do Diário do Minho, Lda, 2007, pp. 212 – 213).

Lenda da Senhora da Orada. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Município

Na Festa das Papas de Gondiães, em Cabeceiras de Basto, a narrativa que justifica a celebração resulta homóloga à da Senhora da Orada de Melgaço. O motivo é o mesmo, a salvação da peste, também se admite a intercessão divina e se assime um compromisso anual. Só que o santo é outro, São Sebastião, por sinal o mais invocado contra a peste. Por outro lado, o enredo resulta pobre, praticamente inexistente, e a ação de graças consiste, em vez de um clamor, num banquete, ao ar livre, oferecido a todos aqueles que comparecem no dia do santo, 20 de janeiro. Em Ferreira do Zêzere, no dia da festa da Senhora da Orada também se oferecia um jantar, custeado pela confraria, mas limitado aos pobres.

Em suma, a lenda da Senhora da Orada, além de original, vincula-se a um contexto e a um património histórico e cultural singulares, únicos.

Lenda da Senhora da Orada. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Município
Lenda da Senhora da Orada. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Texto do clamor

Curiosamente, a lenda da Senhora da Orada de Melgaço alude explicitamente apenas à freguesia de Riba de Mouro. Se é verdade que esta população honrou o compromisso, cumprindo ano após ano, século após século, a promessa (até meados dos anos cinquenta), este destaque pode induzir em erro. Como o reconhece o Padre Bernardo Pintor, pároco da freguesia, já naquele tempo, os clamores à Senhora da Orada abundavam dentro e fora do concelho de Melgaço.

À Senhora da Orada afluíam clamores de penitência de várias freguesias. (…)
No primeiro quartel do nosso século ainda se realizavam os clamores das freguesias mais próximas da vila. Com várias intermitências vieram a terminar durante o segundo quartel deste século.
De todos esses antigos clamores, houve um que ultrapassou o meio deste século. Foi o de Riba de Mouro, freguesia do antigo concelho de Valadares e agora de Monção.
As freguesias de Melgaço realizavam os seus clamores na Quinta Feira da Ascensão, dia santo de guarda e feriado municipal, e Riba de Mouro sempre teimou em ir à Senhora da Orada na Segunda Feira do Espírito Santo com o seu clamor independente, a que se associava muita gente da vila em gesto de simpatia.
No mesmo dia realiza-se em Rouças a festa de Santa Rita, cujo santuário se desenvolveu nos últimos tempos atraindo o povo da Vila. Riba de Mouro, terra distante, começou em 1954 a fazer o clamor da Senhora da Orada no Santuário de Santo António de Val-de-Poldros, da mesma freguesia, continuando ainda a promovê-lo, embora em data diferente.´
A peste a que se refere Frei Agostinho de Santa Maria deve ser qualquer das epidemias da segunda metade do século XVI.
Três grandes epidemias grassaram em Lisboa e se estenderam ao país inteiro: a de 1568-69 que deu origem à festa da Senhora da Saúde que ainda se realiza em Lisboa com carácter oficial, a de 1579 e a de 1598-99 que de novo se ateou no fim de 1599 e se prologou até 1602.
De todas a maior foi a primeira e a menor a segunda.”
(P.e M. A. Bernardo Pintor, Melgaço Medieval, s.l., [Comp. e imp. nas ofic. gráf. Augusto Costa & C.a, L.da], 1975, pp. 117-118)

A peste não era, naturalmente, o único motivo para a realização de clamores. Os santos costumam prestar-se a diversos usos. São polivalentes.

“A Imagem da Senhora (…) que agora exise he muito devota, & de perfeytissima escultura, tem ao Menino Deos sobre o braço esquerdo, & tem cinco palmos de estatura; he de madeyra com as roupas estofadas de outo. He muito milagrosa, & como tal he buscada, & invocada da devoção dos fieis, os quaes por sua intercessão alcanção de seu Santissimo Filho, o que justamente pretendem. A este Santuario, desde o dia da Ascenção do Senhor até a festa do Espirito Santo vão em romarias as mais das Freguesias da Villa de Monçaõ, & do seu termo, a offerecer o residuo do cirio Paschal, & acompanha a procissão ao menos huma pessoa de cada Casa, com os seus Parochos, & isto por voto antigamente fizeraõ em tempo de huma grande peste, de que ficou preservada a mesma Villa, & as Freguesias do seu termo, as quaes fizeraõ o referido voto; & tambem muytas Freguesias do termo de Valadares, & todas as do termo de Melgaço , vaõ em procissaõ à Senhora e no mesmo tempo, humas por devoçaõ, & muytas por voto, com clamores, & procissaõ ao mesmo Santuario, para implorar da Senhora favores do Ceo. E tambem em tempo que se necessita de Sol, ou de chuva, vaõ muytas Freguesias em procissaõ com ladainhas, a pedir à Senhora os soccorra; o que com evidencias experimentão, porque esta misericordiosa Senhora lhes alcança logo os bons despachos de tudo o que pedem” (Frei Agostinho de Santa Maria (1712) – Santuário mariano, e história das imags milagrosas de Nossa Senhora… Tomo IV, Oficinas de António Pedrozo Galram, Lisboa, 1712, p. 251).

Lenda da Senhora da Orada. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Município

Esta devoção e esta polivalência observada por Frei Agostinho de Santa Maria em 1712, prossegue, como sustenta Válter Alves, nos séculos seguintes:

“Diga-se que a devoção à Nossa Senhora da Orada continuava viva e socorremo-nos de alguns episódios que o comprovam. Em anos de crise agrícola, o concelho vinha em procissão à capela pedir proteção e implorar socorro divino. Assim aconteceu em 1760, devido ao rigor da chuva, bem como em 1768, ou em 1778 por causa da estiagem. Lá foi também depois do sismo de 31 de Março de 1761, onde toda a comunidade foi descalça, com cordas ao pescoço e coroas de espinho na cabeça” (As origens da Orada (Melgaço) – algumas notas para discussão: https://entreominhoeaserra.blogspot.com/2023/08/as-origens-da-orada-melgaco-algumas.html).

Na primeira metade do século XX, ainda era concorrida a romaria. Por vezes, os ânimos exaltavam-se em demasia, como aconteceu nesta espécie de “luta sacerdotal pelo pálio” durante um clamor proveniente da freguesia de Roussas.

António Augusto Gonçalves Ribeiro. Recordações de Melgaço. Os Clamores da Ascensão. Notícias de Melgaço. Ano 21, nº 918, 04.12.1949

Apesar da proibição formal pelo governo desde 1940, os clamores continuaram a realizar-se nas áreas mais rurais e tradicionais. Em 1950, o clamor de Riba de Mouro à Senhora da Orada ainda é notícia. Digna de nota é, neste contexto, a prévia autorização da realização de clamores no ano seguinte por parte do Arcebispo Primaz de Braga (reproduzo a página inteira do jornal porque inclui dois temas passíveis de interessar: “Apreensão do rebanho de Portelinha” e “Pelo Hospital”; carregar na imagem seguinte para aumentar).

Notícias de Melgaço. Ano 22. Nº 935. 11 de Junho de 1950. p. 2

Entre os séculos XIV e XVIII, os dois cavaleiros do Apocalipse mais proeminentes foram a Peste e a Morte. Como cantam os Aguaviva, a Morte era a única a vencer a Peste. Um “castigo de Deus” que só a interferência sagrada podia aliviar. O ser humano nunca viveu tão rodeado e obcecado pela Morte. Aliás, o medo da Morte chegou, porventura, a ofuscar o do Diabo. Assim o revela, pelo menos, a arte daquela época.

Aguaviva. La peste e La niña de Hiroshima. Apocalipsis. 1974

Tal como as fotografias e os postais constituíram o principal recurso para caraterizar ambientes, personagens, adereços e atividades respeitantes às Termas do Peso, no caso da lepra e da peste socorremo-nos de pinturas e gravuras da época.

Galeria com imagens da peste

Sobre a peste e a lepra pouco há acrescentar que estas imagens não expressem: promiscuidade, desespero e triunfo da morte. Algumas até o cheiro pestilento, nauseabundo e inevitável, conseguem sugerir. O último grande surto de peste, a “gripe espanhola” (a variante pneumónica), ocorreu há um século, em 1918 e 1919. A peste e a lepra ainda existem em alguns países, mas já são curáveis.

Lenda da Senhora da Orada. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Município

No cortejo histórico praticamente nada faltou. Incluiu leprosos e pestíferos, de todos os feitios, géneros e idades; médicos e curandeiros; guardas, clérigos e devotos; transeuntes, carregadores, condutores e cadáveres. Com carroça para transporte das vítimas, defumadores e ervas, amuletos, crucifixos e livros sagrados

Lenda da Senhora da Orada. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Município

A caraterização dos corpos degradados e da indumentária andrajosa não podia ser mais apropriada e expressiva. Acrescem os movimentos, as posturas e os gestos: deriva dos leprosos, condução penosa da carroça, vigilância dos guardas, cuidado dos monges e dos médicos, marcha arrastada dos pestíferos, queda de um idoso, curas, milagres, súplicas e um clamor devoto, adaptado pelo padre Rogério Rodrigues.

Lenda da Senhora da Orada. Cortejo Histórico de Melgaço 2024. Fotografia – Município

E a Santa, a Senhora da Orada? Um regalo do céu. Imaculada, graciosa e misericordiosa, zela pelo aflitos, imperturbável, sob um tórrido sol pagão. Com o Menino no colo, encantador, muito compenetrado e bem-comportado. À espera ou em movimento, sempre no momento e no sítio certos, discretos e atenciosos, a Mãe e o Filho iluminam o caminho e apaziguam as almas.

Lenda da Senhra da Orada. Cortejo Histórico de Melgaç 2024. Fotografia – Ana Macedo

Quando sobra brio, vontade e inspiração, os desafios tornam-se estímulos e a obra faz-se. As juntas da União das Freguesia da Vila e Roussas, da União das Freguesias de Chaviães e Paços e da freguesia de Cristoval entraram com o pé direito nesta nova versão do Cortejo Histórico.

Por seu turno, os participantes souberam identificar-se com a lenda da Senhora da Ourada e partilhá-la. Incorporaram e vestiram as respetivas personagens como se estivessem mergulhados no flagelo de uma fatalidade irreversível. Apenas uma nota dissonante, por sinal gratificante: um brilho de alegria nos olhos e um sorriso de satisfação nos lábios. Quando se junta uma pitada de profissionalismo com a frescura voluntariosa do amador costuma soprar uma brisa agradável.

Despeço-me com uma galeria de fotografias e a convicção de que a maior recompensa de um autor, especialmente de um artista, é a sua obra.

Galeria com fotografias da Lenda da Senhora da Orada. Cortejo Histórico de Melgaço 2024

Reacionário ou reativo?

Cada dia que passa sinto-me não sei se mais reacionário ou mais reativo. O artigo “Democratização. Um testemunho pessoal” representa um bom indício de tendência. Foi publicado hoje, 27 de setembro, na Revista ELO 31, Escola Democracia Sociedade, do Centro de Formação Francisco de Holanda. O respetivo pdf inclui a capa, a ficha técnica e o índice da revista.

Inteligência artificial e (des)igualdade de género

Ao João

Marca: Dante Robino. Título: Grand Dante Cabernet Franc – Amélie Le Français de La Lande. Agência: TombrasNiña. Argentina, Setembro 2024

Ao permitir o resgate do protagonismo feminino historicamente invisibilizado, o recurso à Inteligência Artificial pode revelar-se uma aposta de marketing e publicidade oportuna. A inserção do retrato da astrónoma Amélie Le Français de La Lande no rótulo de uma nova proposta de vinho da Adega Dante Robino, o Grand Dante Cabernet Franc, leva a agência argentina TombrasNiña a socorrer-se não só da pesquisa histórica mas também da Inteligência Artificial Generativa.

Marca: Gran Dante. Título: Amélie Le Français de La Lande. Agência: TombrasNIña. Argentina, setembro 2024

Todas las etiquetas de Gran Dante habían sido diseñadas con cuadros de reconocidos astrónomos como elemento principal. Durante el proceso de trabajo, se descubrió que, a lo largo de la historia, se había invisibilizado el trabajo de las astrónomas y su enorme aporte al entendimiento del universo y el cosmos. Tanto es así, que incluso habían escrito libros que fueron firmados por hombres para que pudieran ser publicados y salir a la luz.
“Decidimos tomar cartas en el asunto y, luego de un extenso trabajo de estudio e investigación en conjunto con la agencia, elegimos a Amélie Le Français de La Lande como protagonista. Entre sus numerosos aportes, calculó las tablas de horarios navales que permitían a los marinos determinar su posición en el mar, calculando la altura del Sol y las estrellas”, comentó Inés Mastrogiacomo, de Bodega Dante Robino.
Martín Bernasconi y Artur Monteiro Ziguratt, head of art y headof IA de TombrasNiña respectivamente, comentaron: “La utilización de IA Generativa fue fundamental, pero también tuvimos que llevar a cabo un profundo análisis de la época para lograr una representación fidedigna de Amélie y su entorno en términos arquitectónicos, de vestimenta, peinados y otros detalles. Una vez más, vemos el potencial de las nuevas tecnologías combinadas con la estrategia y la creatividad”. (Adlatina, Preestreno: TombrasNiña y Dante Robino visibilizan a las mujeres en la ciencia: https://www.adlatina.com/publicidad/preestreno-tombrasnina-y-dante-robino-visibilizan-a-las-mujeres-en-la-ciencia).

Entre o Céu e a Terra. Capítulo de livro

O convite para intervir na Casa do Tempo, em Cabeceiras de Basto, foi motivado pela autoria de um capítulo do livro Cabeceiras de Basto. História e Património, escrito com o João há mais de uma década, mais precisamente, em 2013. Gigantesco, o livro mede 34 por 25 cm e, com capa grossa e 423 páginas, pesa vários quilos; ademais, a letra é deveras pequena. Não se presta, portanto, a digitalização, pelo menos, com os recursos domésticos disponíveis.

Segue um pdf de um texto prévio à edição, sem imagens, acompanhado pela Bibliografia Geral do livro, com as referências bibliográficas das obras citadas. Ressalve-se que a conversa não repetiu o conteúdo do capítulo. Convocou, tomando-o como ponto de partida, outros assuntos.

Entre o Céu e a Terra

Hoje, sexta, vou fazer uma comunicação em Cabeceiras de Basto. Volvidos dez anos de um estudo, regresso à abordagem de quatro festas locais: Santa Senhorinha, São Bartolomeu de Cavez, São Sebastião das Papas e São Tiago das Bichas. Regresso, mas não repito. Prevejo uma conversa literária. Proponho-me imaginar imaginários. Receio falar pouco das festas e muito doutros assuntos. Vou falar demasiado e abusar das imagens. Noite de sexta-feira 13! Entre o Céu e o Inferno.

Marca: Smirnoff. Título: Reflection. Agência: Lowe Howard-spink. Direção: Vaughan / Anthea. UK, 1995